Val Sales
O deputado federal Nilson Moura Leite Mourão (PT) faz parte da ala dos veteranos do Partido dos Trabalhadores no Acre. Formado em teologia e mestre em Ciências Sociais, ele iniciou sua militância na agremiação há 27 anos, sendo considerado hoje um dos políticos mais experientes e respeitados da Frente Popular do Acre (FPA).
O parlamentar integra a bancada política representativa acreana, que em maioria é formada por homens e mulheres de pouca idade, mas de muito empenho, desde o bloco federal, estadual, municipal e governo. Mourão pauta seu trabalho no impulsionamento do projeto de inclusão social defendido pelos atuais gestores.
Otimista, ele faz uma avaliação positiva da administração do prefeito da capital, Raimundo Angelim, e do governador Binho Marques e fala dos avanços obtidos por meio da integração dos políticos que hoje representam o povo acreano em todos os níveis (municipal, estadual e federal). Na entrevista que segue, o parlamentar fala ainda da expectativa para as eleições municipais e do fim do recesso na Câmara.
"Temos hoje mil municípios brasileiros que não têm nenhum médico e temos 200 médicos formados se poder exercer a profissão. Esses jovens fazem medicina preventiva, que é o que o nosso povo precisa"

Na sua opinião, a eleição de outubro vai interferir no trabalho parlamentar da Câmara?
O recesso termina nesta segunda-feira e o presidente Arlindo Chinaglia já convocou todos os parlamentares para estarem em Brasília nessa data para continuarmos com a pauta de votações. Espero que todos voltem, mas, tendo a consciência de que estamos em um processo eleitoral, em que 200 dos 513 deputados são candidatos a prefeito, creio que teremos um funcionamento precário. Trata-se de um momento de defender programas de governo e os deputados devem estar presentes ao processo, mas sem impedir o funcionamento da Casa, ainda que as sessões aconteçam apenas dois dias na semana.
Como o senhor avalia a administração do prefeito Raimundo Angelim?
O Angelim tem feito um trabalho que merece destaque em todos os setores, a exemplo das áreas da saúde, educação, infra-estrutura e urbanização da cidade. Ele desenvolveu uma ação que merece ser destacada nos bairros da periferia de Rio Branco, onde todos sabemos que se trata de um grande desafio. Ele naturalmente não conseguiu chegar a todos os cantos da capital, mas resolveu os problemas de muitos.
O que credencia o prefeito a partir para uma disputa à reeleição?
Entendo que ele tem uma credibilidade maior nessa disputa. O Angelim trabalhou e mostrou sua capacidade administrativa. Os demais são projetos que dizem o que gostariam de fazer e eu creio que a população vai analisar pelo anglo das ações. Esse é um momento muito bonito na história política e econômica do Acre. Um momento de transparência, democracia e participação. Os candidatos que colocaram seus nomes na disputa merecem respeito. Por outro lado, confirma-se uma tese de que nós temos defendido há muitos anos: o Acre anda, avança, cresce e se consolida na medida em que estamos aplicando uma política que junta as prefeituras, o governo do Estado e o governo federal. Nesse ponto, o prefeito Angelim está com uma vantagem muito grande. Quem quer fazer política brigando, dividindo e com intrigas não tem mais espaço no Acre.
E sua avaliação sobre o governo de Binho Marques?
O governo do companheiro Binho Marques vem numa seqüência e num processo administrativo planejado e articulado. Primeiro o governo de Jorge Viana veio para recuperar e recompor um Estado que estava falido administrativamente na área da habitação, saúde e arrecadação. O primeiro veio recompor a máquina e capacitar o Estado para a intervenção. E fez isso muito bem. O Binho cuida com esmero da inclusão social e da infra-estrutura. Nisso está incluída a conclusão da rodovia 364, que vai acontecer nos próximos dois anos e meio. Ele é uma seqüência dos dois governos do Jorge e está fazendo uma administração comunitária, uma administração de desenvolvimento das pessoas.
Cite alguns avanços da gestão atual
Foram feitos muitos investimentos na área rural e no setor produtivo. O trecho da estrada para Cruzeiro do Sul está praticamente concluído. Tarauacá/Feijó está pronto, sendo o trecho Feijó/Manuel Urbano e Sena Madureira o grande desafio. A notícia mais importante na área de saúde é a descentralização dos recursos administrativos para que os hospitais e as unidades possam ter autonomia. Isso já foi feito na área da educação e deu muito certo.
Qual o grande saldo do Acre em relação à bancada federal da nova geração?
O grande saldo da bancada federal foi o resgate da credibilidade. A bancada do Acre no passado, de uma forma ou de outra, envolveu-se em situações extremamente delicadas e nós recuperamos essa credibilidade. Hoje a bancada, independentemente do partido político, tem crédito. Somos oito deputados federais e três senadores que honramos o povo acreano. Somos recebidos em todos os ministérios e por qualquer outra autoridade federal com muito respeito.
Como é feita a distribuição das emendas parlamentares?
Anualmente fazemos as nossas reuniões e distribuímos as emendas por meio e articulações com o Tribunal e Justiça, Universidade Federal, Incra, Polícia Federal, prefeituras e governo do Estado. São ações transparentes. Por outro lado, eu creio que há um grande respeito com a diversidade ideológica. Hoje temos toda a bancada, com exceção de um ou dois, que acompanha o governo do presidente Lula. Outros fazem uma oposição respeitosa. Nós trabalhamos bons projetos, e graças a Deus não existe nenhum tipo de problema envolvendo desvios relativos às emendas parlamentares. Estamos focando as ações propostas pelos prefeitos e governo do Estado. As ações de emendas não são mais trabalhadas com foco eleitoreiro.
Muita gente reclamou sobre a mudança no fuso horário. Qual sua opinião?
O senador Tião Viana fez uma justificativa muito fundamentada, o que levou à aprovação da matéria. A partir da nova lei o Brasil passa a ter apenas dois fusos e coloca o Acre a apenas uma hora de diferença de Brasília. Existem alguns setores um pouco descontentes com a questão, mas creio também que é um problema de tempo. Também vimos que já houve um esforço das prefeituras e governo do Estado no sentido de adequar os horários das escolas ao novo fuso.
O reconhecimento nacional tem encurtado as distâncias do Acre em relação às políticas de investimento?
O reconhecimento e desenvolvimento encurtam distâncias. Essa nova visão já está consolidada no fato de como as instituições e as pessoas de referência no nosso país vêem o Estado. Hoje o Acre é respeitado. As pessoas que nos visitam vêem o nível de desenvolvimento econômico e social, além das mais diferentes ações na área da cultura, desde as nossas tradições mais antigas, relativas aos seringais, recuperação da nossa memória, até as ações das tradições espirituais da floresta, a exemplo do Santo Daime. Isso chama a atenção do mundo inteiro e as pessoas estão nos vendo com outra visão. Quem chega a Rio Branco geralmente fica surpreso com o nível da organização administrativa e desenvolvimento econômico da cidade. A minissérie “Amazônia - de Galvez a Chico Mendes”, também ajudou nessa questão.
O senhor vem defendendo o reconhecimento de diplomas de medicina cubanos no Brasil. Qual é a situação atual?
Temos em Cuba 800 estudantes jovens brasileiros fazendo medicina. Aqui no Brasil já temos em torno de 200 formados e impedidos de exercer a profissão. Sabemos a qualidade das escolas cubanas, atestadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e reconhecidas no mundo todo. O currículo das escolas cubanas é semelhante às melhores escolas brasileiras. Entretanto, esses estudantes são formados e impedidos de exercer aqui a profissão. Nós precisamos reconhecer esses diplomas.
O que está sendo feito para resolver o problema?
A Universidade Federal do Acre baixou uma resolução que avança um pouco, mas precisa ser complementada, porque coloca algumas exigências que eu acho que poderiam ser mais bem colocadas e aperfeiçoadas. Por outro lado, o governo do presidente Lula tem se empenhado em resolver isso. Estamos adequando isso à Lei de Diretrizes Básicas da Educação (LDB), para que não haja nenhum tipo de impedimento. O problema burocrático pode ser resolvido por meio das universidades e junto ao Ministério da Educação. A influência do Conselho Federal de Medicina, tentando criar dificuldades, é real, mas, no entendimento que eu tenho, ele não tem competência para examinar uma questão puramente acadêmica. Creio que nos próximos 60 dias essa questão vai estar solucionada e nós vamos abrir novos caminhos para os estudantes que concluírem medicina na Bolívia, na Argentina e no Peru.
Como esses profissionais podem fortalecer o sistema de saúde brasileiro?
Eles são aqueles que vão ao encontro dos mais distantes, dos desagregados e pobres, porque são especializados na medicina de família. Temos hoje mil municípios brasileiros que não têm nenhum médico e temos 200 médicos formados sem poder exercer a profissão. Esses jovens fazem medicina preventiva, que é o que o nosso povo precisa. Nós temos a realidade da comunidade rural, que precisa de médico, e, por outro lado, a qualidade do diploma. |