| COTIDIANO | |
Marcas de um povo que o tempo esqueceu Monumentos de terra intrigam visitantes e desafiam cientistas, gerando clima de mistério e magia criado por antiga civilização |
|
Vistos do chão eles parecem grandes valas com cinco ou seis metros de largura e até três de profundidade e que, apesar das fortes chuvas, não acumulam água. Por muito tempo foram tidas como trincheiras construídas pelos seringueiros durante a Revolução Acreana, mas sua história perde-se nas penumbras do tempo. Mas quando observados lá de cima dos aviões, mostram-se mais de 50 desenhos monumentais que se espalham da região de Boca do Acre (AM) a Sena Madureira, passando por Rio Branco. São círculos, quadrados, octaedros, figuras sobrepostas umas dentro das outras, formando no chão grandes desenhos com mais de 200 metros de diâmetro, “geoglifos” que ninguém sabe se serviam para agricultura, rituais religiosos ou fortalezas construídas por guerreiros. Os geoglifos, ou simplesmente monumentos de terra, como preferem chamar os historiadores, foram motivo de um amplo debate promovido durante todo o dia de ontem pela Secretaria Estadual do Turismo (Setur) com pesquisadores e representantes do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) para determinar até que ponto eles podem ser utilizados para estimular o turismo sem causar prejuízos a esses sítios arqueológicos. “Quando comprei a colônia, há 38 anos, parte dela já tinha sido derrubada e no lugar da capoeira encontrei âmago de bálsamo com mais de um metro e meio de diâmetro que tinha crescido no meio daquele círculo que tem mais de 200 metros de largura. No começo o pessoal dizia que era uma antiga trincheira do tempo da Revolução Acreana, mas com o tempo comecei a duvidar porque era grande demais, hoje acho que nunca vão saber quem construiu nem por que fizeram uma imensidão daquela num tempo que nem existia trator para mexer com tanta terra”, declara, ainda admirado quase 40 anos depois de ter seu primeiro contato com os geoglifos, o agricultor Francisco Souza Ferreira, 71, proprietário das colônias São José e São Francisco, no quilômetro 40 da BR-317 de Rio Branco para Boca do Acre. Ali existe um dos poucos desenhos em que dois círculos com mais de 200 metros de diâmetro cercados por dupla vala de seis metros de largura por três de profundidade formam à semelhança de um grande medalhão duas figuras geométricas uma dentro da outra. Já Severino Calazans da Silva, 70 anos e pai de 30 filhos “semeados” pelos lugares por onde passou de Mato Grosso ao Acre, quando comprou em 1993 a colônia Santo Antônio, no quilômetro 30 da estrada de Boca do Acre, não podia imaginar que iria construir sua casa justamente sobre o platô existente dentro de um grande quadrado com mais de 220 metros de largura que assim cobre uma área superior a quatro hectares. “Quando limpei o terreno encapoeirado é que me dei conta daquela vala imensa que cortava o terreno de fora a fora. Nunca encontrei nada muito diferente, mas quando estava cavando os buracos para enfiar estacas da cerca achei muito pedaço de cerâmica e carvão das fogueiras enterradas debaixo de mais de meio metro de chão”, relata. Calazans, que foi militar durante treze anos, a princípio também aceitou as histórias de que aquilo pudesse ter sido usado como trincheira durante as sangrentas batalhas travadas durante a Revolução Acreana, mas a razão e a prática falaram mais alto. “No Exército aprendi que uma trincheira deveria ter oitenta centímetros de largura por um metro e vinte de profundidade para acomodar e proteger os soldados, mas aquelas valas eram grandes demais, não sei quem fez, mas hoje tenho certeza de que aquilo não foi feito pelo povo da nossa geração. É coisa dos antigamente!”. |
|
|
|
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |