Juracy Xangai
Promotor
que atuou como acusador do mandante e do assassino do sindicalista
Chico Mendes, Elizeu Buchmeier dedicou sua vida no Ministério
Público a combater o crime organizado, que até bem pouco
tempo aterrorizava a população acreana.
Atual presidente do Ministério Público
do Estado do Acre, o procurador Elizeu Buchmeier vai passar o cargo
ao procurador Edmar Monteiro no dia 9 deste mês. Elizeu faz
uma avaliação de sua gestão à frente da
instituição, suas conquistas e decepções
e também de seus planos para o futuro.
Quais eram seus planos quando assumiu a presidência
do Ministério Público?
Minha meta pessoal sempre foi a de consolidar o combate ao crime organizado
e posso dizer que nestes dois anos, concluímos a investigação
da grande maioria daqueles crimes insolúveis que existiam no
Acre. Mas considero que a perda da patente do ex-coronel Hildebrando
Pascoal veio coroar toda a minha luta.
Inovações?
Instalamos uma série de novos serviços para melhorar
o atendimento e defender os direitos da população. Dentre
eles gosto de destacar a criação da Promotoria de Conflitos
Agrários que está sendo comandada pelo promotor Romeu
Cordeiro. Os conflitos pela terra continuam sendo um dos problemas
mais graves do Acre e merece atenção, tanto pela questão
daqueles que realmente necessitam de terra para trabalhar e sustentar
suas famílias com dignidade, como também para não
permitir que picaretas se beneficiem do dinheiro público destinado
a ajudar quem precisa.
Melhorias na infra-estrutura da instituição?
Chegamos a ser mal interpretados quando cortamos viagens e diárias,
que também seriam importantes para a reciclagem de nosso pessoal,
a fim de priorizar alguns investimentos, mas no final, todos reconheceram
que valeu a pena. Esse dinheiro nos ajudou em muitos serviços,
Compramos dois imóveis em Rio Branco para ampliar e melhorar
a sede. Compramos terreno e construímos a sede do Ministério
Público em Brasiléia e trocamos a de Cruzeiro do Sul
por uma bem maior. Estamos deixando empenhadas as compras do terrenos
para a construção de nossas sedes em Feijó, Tarauacá
e Xapuri.
Também teve a reforma da sede da Capital?
O que tivemos aqui foi quase uma reconstrução, pois
além de reformar os prédios dos blocos B e C, eles foram
ampliados e ganharam um novo andar com passagens de nível que
nos permitem circular pelos três com facilidade. Nele teremos
um centro de atendimento ao cidadão com sala climatizada e
conforto enquanto esperam, mas seus serviços ainda não
estão funcionando porque estamos comprando os móveis.
Nosso orçamento é limitado e o bom senso manda fazer
uma coisa de cada vez.
Quanto à equipe de trabalho?
Estamos realizando concurso para a contratação de mais
20 promotores, com isso poderemos dar uma melhor cobertura na Capital
e estar presentes nos municípios. Fizemos a seleção
de 60 estagiários, todos acadêmicos de nível superior
que estão com pelo menos seis períodos de seus cursos
já cumpridos. Eles poderão ser contratados pelo doutor
Edmar Monteiro para ajudar a acelerar o ritmo de andamento dos processos.
A pendenga dos salários versus subsídios
foi resolvida?
A constituição federal determina que nós não
tenhamos salários com todas aquelas gratificações
e outros penduricalhos, a maioria deles criados para engordar os recebimentos.
Por isso, no caso do Ministério Público determina que
o valor do subsídio mensal seja equivalente a até 90,25%
do que recebe um ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Aqui
no Acre já nos enquadramos nisso, a maioria de nós perdeu
parte do que recebia, mas temos que obedecer a lei.
Do ponto de vista pessoal, como foi a experiência
de administrador?
Enriquecedora e frustrante ao mesmo tempo. Eu sempre trabalhei na
iniciativa privada, onde você toma decisões e a coisas
acontecem logo. Como advogado e promotor, atuava nas áreas
criminal e trabalhista, onde também tudo é prático.
Nunca tinha trabalhado com a administração pública
onde há uma burocracia exagerada e lenta, que faz com que as
coisas demorem a acontecer e às vezes nem aconteçam.
Demorei a me adaptar a isso, mas não posso dizer que me acostumei.
Pessoalmente, acho que as coisas poderiam ser feitas de outra maneira
e isso garantiria melhores resultados para a população.
Algum exemplo prático dessa dificuldade?
Logo que entrei na presidência, ganhei do Ministério
Público de Brasília um programa de informática
que custava mais de R$ 700 mil, se tivéssemos de pagar, o qual
servia para agilizar e controlar processos e outros procedimentos
internos do Ministério Público. Calculei que poderíamos
fazer isso em, no máximo, três meses, mas estamos trabalhando
nele até agora, concluímos aqui na capital a instalação
da parte principal que é o controle de processos e, começamos
a instalar o serviço no interior. A burocracia emperra as coisas.
E quanto ao pessoal?
Temos estimulado o aperfeiçoamento profissional de nossos membros
e funcionários, neste momento estamos pagando cursos de pós-graduação
para 16 servidores e promotores, a maioria deles na área da
administração pública. Também instalamos
sala de teleconferência do Instituto Damásio, o qual
oferece um dos melhores treinamentos da carreira jurídica no
país. A qualificação leva a melhoria de seus
salários, e estimula a melhoria da qualidade dos serviços
que prestamos à comunidade.
Deixa muitos projetos em andamento?
A administração pública é impessoal, dei
continuidade ao que encontrei aqui e é assim que as coisas
funcionam. Estamos melhorando a qualidade dos serviços de atendimento
aos adolescentes em conflito com a lei. Também está
sendo melhorada a estrutura da coordenadoria de Controle Externo da
Atividade Policial. Durante minha gestão recebemos doações
de equipamentos apreendidos pela receita federal e obras como a construção,
reforma e melhorias nas sedes do MP no interior só foram possíveis
graças a emendas de nossa bancada federal ao Orçamento
Geral da União. As coisas só funcionam quando todos
trabalham juntos.
Quais são seus planos agora que está
concluindo seu mandato?
Volto às minhas funções de procurador. Mas isso
ainda é incerto. Na verdade venho sofrendo com fortes dores
na coluna, faço agora no dia 20 de setembro exames médicos
que vão definir se resolvo isso com algum tratamento. Se essa
dor que sinto quando estou sentado for continuar crônica, talvez
me aposente e vá trabalhar como corretor de imóveis
ou de carros, como sempre gostei de fazer. Vender é uma arte.