| OPINIÃO | ||
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| Sandra Starling * |
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| O Brasil mostrou a sua cara Um país dividido. Um resultado preocupante. Abertas, as urnas revelaram um Brasil cindido de alto a baixo. O Sul Maravilha, excluídos os bolsões de miséria das regiões metropolitanas, voltou em Alckmin. Os depauperados do Norte e Nordeste, votaram em Lula. Os que elegeram como principal bandeira de campanha a redução dos gastos públicos e menos impostos, escolheram Alckmin. Os que precisam do apoio do Estado para sobreviver e acham que a “elite branca”, como disse o governador Cláudio Lembo, contribui pouco, votaram em Lula. Os que quebraram as vidraças da Câmara dos Deputados, pedindo reforma agrária e cestas básicas para os sem-terra, votaram em Lula. Os agrobusinessmen, que ameaçaram invadir o mesmo prédio do Congresso Nacional com seus potentes tratores, suas enormes patrolas e caminhões abarrotados de soja, caso não fosse aprovada mais uma dentre centenas de rolagens de suas dívidas com o Banco do Brasil, votaram em Alckmin. Os que vem praticando o patrimonialismo há mais de quinhentos anos, votaram em Alckmin. Os que sonham em chegar ao distante reino da liberdade, mas precisam, antes de mais nada, de um prato de comida, votaram em Lula. No último domingo, os resultados iam sendo divulgados e, na minha cabeça, só passavam os versos de Cazuza, em “Brasil”, e os de Caetano, em “Haiti”. Quem não se lembra de Gal Costa cantando: “Brasil, mostra a sua cara/quero ver quem paga/ pra gente ficar assim/ Brasil, qual o seu negócio/o nome do seu sócio/confia em mim”? Querem algo mais pungente que o protesto de Caetano, quando diz: “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo/Diante da chacina/ 111 presos indefesos/Mas presos são quase todos pretos/ E pobres são como podres/E todos sabem como se tratam os pretos/(...) Pense no Haiti/Reze pelo Haiti/O Haiti é aqui/O Haiti não é aqui”. Na Câmara e no Senado, não haverá maiorias sólidas. Quem quer que ganhe, precisará barganhar para governar. Serão “tenebrosas tentações”, me ocorre, agora, como na música de Chico Buarque? Os analistas econômicos afirmam que, sem uma nova Reforma da Previdência, com fixação da idade mínima para aposentadoria no regime geral e desvinculação do salário-mínimo dos benefícios, o Brasil não conseguirá se desenvolver. Dizem também que é preciso reduzir os custos trabalhistas, para haver investimento. O que Lula e Alckmin têm a dizer sobre isso? Ou estaremos às vésperas de uma crise institucional, como na Hungria, que o povo foi às ruas para protestar contra um governo recém-eleito, por conta do estelionato eleitoral, quando viram um “mar de rosas” da campanha transformar-se em “vale de lágrimas”, quando o vencedor assumiu o poder? Os dois maiores protagonistas da atual trama política nacional, PT e PSDB, possuem um histórico de acertos e desacertos em suas trajetórias. Não é possível que, reciprocamente, continuem a ver no outro só os defeitos, enquanto exaltam suas próprias virtudes. Quem perde com esse jogo de palavras é o Brasil. É uma pena! De toda maneira, prevaleceu e prevalecerá o regime democrático, com todas as suas limitações. Aqui e ali podemos identificar sinais de imperfeição naquilo que o jurista português José Joaquim Canotilho chama de “procedimento justo” na escolha dos governantes, baseado na “eqüidade de oportunidades”. Só pela democracia superaremos nossas marcas de Belíndia e de Haiti e, novamente, com Caetano valorizar “a grandeza épica de um povo em formação”. * Ex-deputada federal |
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