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6 de Agosto: passado e futuro que desenham um lugar

Rua que originou o bairro faz 103 anos e a população mostra que o lugar é ocupado por gente persistente, criativa e corajosa

Marcos Vicentti
Francisca Sena tem um barco
guardado na garagem há mais de 15 anos


Andréa Zílio

Entre ruas, becos e vielas, o progresso imprensa o passado. Onde tudo era floresta, um varadouro surgiu e começou a história da rua Seis de Agosto, hoje o bairro mais antigo de Rio Branco, que comemora nesta segunda-feira 103 anos. São vários capítulos com detalhes peculiares, sutis, revelando a luta e a persistência de um povo que busca a sobrevivência com um jeitinho próprio, dando um caráter interiorano a um espaço quase no centro da capital do Estado.

A arquitetura de outras épocas é quase inexistente, mas há quem a faça respirar, mesmo que sufocada, em algum cantinho especial. Algumas ruas se tornam até exóticas aos olhos de quem não está acostumado com o jeitinho nortista. Adaptáveis à necessidade, as casas erguidas em palafitas foram criadas para salvar homens e mulheres das enchentes, e no lugar do carro, o que vale mesmo é ter um barco na garagem. Sair dali é solução fora de cogitação, pois o lugar é privilegiado, afinal, é só atravessar a ponte que já está na zona de comércios do bairro central.

Hoje o que preocupa é a violência que ameaça um dos principais bens do bairro - a tranqüilidade, que permite uma vizinhança em que todos se conhecem, mesmo que morem distantes um do outro. O bate-papo na frente da residência ainda persiste mais por teimosia que segurança. Assim é o bairro Seis de Agosto.

Quem viveu o início de sua história recorda que, ao chegar para habitar o lugar, só havia mato. Alzira Florence, que completou 88 anos ontem, morava no seringal Catuaba e se mudou para Rio Branco com 15 anos. Criou todos os filhos no bairro que escolheu para ficar até o último dia de vida. Saudade? Ela sente sim, fala da visão que perdeu e hoje não pode ver as novidades de um novo Acre.

“Aqui não era elevado como hoje, não tinha tanta coisa. Meus filhos tiveram oportunidade de nascer e crescer nesse lugar. Quando eu era nova, conhecia muita coisa de Rio Branco, andava muito, hoje ouço falar das coisas novas, mas só saio de casa para ir ao médico, sinto saudade só de enxergar, para ver o que tem de novo”, comenta.

Maria Laci Ramos, 84, também é uma das moradoras antigas do lugar. Quando chegou a Rio Branco, o Seis de Agosto era rua e diz que tudo cresceu muito rápido. Teve sete filhos. “Naquele tempo não tinha pílula”, brinca. “A calma é a única saudade que tenho do passado.”

A fase de grandes transformações no lugar foi a de 1970 a 1979. Nesse período foram construídas as duas pontes sobre o rio Acre - a metálica, em 1971, e a de concreto, em 1974. Além disso, a rua Seis de Agosto foi asfaltada até a altura da escola Roberto Mubarac. Foi nessa época que se iniciou um processo acelerado de ocupação no lugar, a maioria seringueiros em busca da vida melhor na ‘cidade grande’.

Cenário - É no fim da rua Seis de Agosto que uma moradia resiste ao tempo. Ao redor, as casas são moldadas em um estilo atual, mas ela timidamente mostra que ainda tem espaço graças a Milci Silva de Oliveria, 64, e seus dois irmãos - outros três morreram.

Ela conta que o pai construiu a casa e quando morreu os filhos decidiram mantê-la para preservar a herança tal como ela é. Construíram casas ao redor, onde moram hoje. “É uma herança e ainda não quisemos mexer nela. Enquanto se mantiver em pé, vai ficar aí. Ela preserva o que nosso pai construiu”, diz.

Veneza do asfalto

Nas grandes enchentes que abalaram o bairro Seis de Agosto, o asfalto, ou simplesmente a rua de terra batida, ficou coberta de água, e as casas pareciam ser flutuantes, mas porque elas foram preparadas para o problema enfrentado tantas vezes pelos moradores. Francisca Sena, 52, mora no lugar há 26 anos. Ela faz parte do grupo de moradores que possuem em uma garagem improvisada, um barco, herança do falecido marido que a comprou há 15 anos.

O barco se mantém como se estivesse novo, graças ao zelo que Francisca tem por ele. Conta que chegou no bairro junto ao marido e foram os primeiros a construir casa na rua Cearense, mas sem experiência a fizeram baixa e foram surpreendidos com a alagação. No ano seguinte providenciaram outra moradia, com mais de três metros de altura. Os que chegaram depois foram construindo residências também altas.

Persistência

As escadas já fazem parte do cotidiano. Quem pode, melhora com construção em concreto, mas a maioria vive no balanço de escadas sem firmeza e garantem que elas não caem. Carregar água, levar roupa para lavar na área em baixo da casa e outros afazeres já são encarados com habilidade em passos acelerados em cada degrau. Zumira Tavares, 26, diz que só tem medo dos filhos caírem, por isso todas as vezes que desce para a área criada em baixo da casa, leva as três crianças.

E a nova geração também vê o Seis de Agosto com carinho e críticas. Ingrid Lemos, 14, atravessa todos os dias a ponte para estudar, mas diz que gosta do lugar onde mora e os próprios moradores trabalham para que dependam em poucas coisas do outro lado da cidade. Ela pretende ser juíza para ajudar na ordem da cidade. “Todo mundo se conhece aqui, é bom por isso”, diz.

Entre as necessidades, os moradores do bairro Seis de Agosto fazem dos obstáculos um modo de vida, enfrentam o que precisam, mesmo sabendo que alguns dos problemas não dependem de ações governamentais, mas da natureza. Mas é na cordialidade, simpatia e humildade que essas pessoas sabem fazer do lugar um caloroso ambiente onde todo mundo é de casa. Basta sentir-se a vontade e entrar.

 
 
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Rio Branco-AC, 5 de agosto de 2007
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