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| ESPECIAL - ESTRADA INTEROCEÂNICA | |
Viagem marcada por beleza e perigo |
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Gualla Gualla. Cinco mil e trezentos metros acima do nível do mar. Esticando os braços, tem-se a impressão de tocar as nuvens com as mãos, de estar mais próximo de Deus. O ar fica rarefeito. O pedestre precisa caminhar devagar. Mesmo em ritmo lento, respira-se com dificuldade. As diversas cruzes na subida e na descida indicam que muitos chegaram ao Criador antes do tempo. As montanhas andinas não permitem falhas - é preciso respeitá-las a todo o momento. Quem chega ao ponto mais alto da Cordilheira Ocidental dos Andes entre Rio Branco e Cusco, pela Estrada Interoceânica, agradece na Capela Francisco Huachaca Alegria. A superstição recomenda pôr três pedras, uma sobre a outra, antes de seguir viagem. O El Cumbre (O Topo) fica a mil quilômetros da capital do Acre e a 150 de Cusco. Chegar até ele não é tarefa fácil. Exige atenção, habilidade, concentração e resistência. Durante o trajeto, os povos das montanhas fazem parte da paisagem. Caminham como se tivessem o peso das montanhas nas costas. Têm as mãos, os pés e os rostos queimados pelo frio intenso. Os dentes são verdes de tanto mascar folha de coca, a fim de suportar a altitude. Desconhecem completamente as mudanças que serão operadas em suas vidas dentro de poucos anos, após a conclusão do asfaltamento da Estrada Interoceânica. Viajar do Acre para o Peru não exige burocracia exagerada. Acordo internacional entre os governos brasileiro e peruano permite a circulação dos cidadãos dos dois países portando apenas a carteira de identidade. Mas, do lado do Brasil, o viajante é obrigado a suportar o mau-humor dos agentes da Policia Federal, em Epitaciolândia, e quase sempre a oferecer alguns “regalos” aos funcionários peruanos que trabalham no posto migratório de Iñapari. Não é raro vê-los nos bares que existem nas proximidades nos feriados e fins de semana. Ao longo do trecho brasileiro até Assis Brasil, a 330 quilômetros de Rio Branco, fica claro que o Acre precisa andar rápido e se preparar para aproveitar as oportunidades que poderão surgir após a conclusão da rodovia. A maioria dos investimentos vistos, como a Usina de Álcool e a fábrica de taco, são iniciativas que contam com recursos do governo do Estado. Os pastos às margens da BR-317 vão, aos poucos, sendo substituídos por plantações de cana-de-açúcar. Em Assis Brasil, o bonito prédio da alfândega construído para acomodar os órgãos públicos federais e estaduais está fechado. Não foi depredado porque conta com a presença de um vigilante permanente. O mesmo não se pode dizer da Ponte da Integração. Inaugurada com todas as pompas pelos presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e do Peru, Alejandro Toledo, no ano passado, a obra serve como salão de festas nos fins de semana. Quase todas as lâmpadas foram furtadas. Os furtos ocorreram em maior número no lado peruado. Obtida a licença para sair do Brasil e entrar no Peru, o caminho fica livre para uma verdadeira epopéia. Entre Iñapari e Puerto Maldonado, são muitos os homens e mulheres trabalhando no chamado trecho 3. Serão construídos 403 quilômetros até a localidade de Puente de Inambari. As obras serão executadas numa região que exigiu o desenvolvimento de tecnologia especifica, já que o solo composto de argila e areia se decompõe com bastante facilidade durante o período invernoso. A base é formada por cal e cimento. Foram asfaltados 60 quilômetros até agora. Ao menos por enquanto, a estrada está gerando posto de serviço temporário para os moradores da região. O governo peruano exigiu que 75% da mão-de-obra utilizada seja das cidades por onde a estrada passará. Os trabalhadores ganham, por 10 horas de jornada diária de trabalho, 1,5 mil soles por mês, o que equivale a R$ 1 mil. A previsão é de que sejam gerados 72 mil empregos durante a execução das obras na estrada e que o Produto Interno Bruto (PIB) do Peru aumente 1,5%. O trabalho é executado dia e noite. Minigeradores são utilizados para facilitar a tarefa no período noturno. Modernas e potentes máquinas circulam num ritmo frenético. Tanto empenho não é em vão. A Interoceânica é a obra de infra-estrutura mais importante executada em solo peruano nos últimos 50 anos. Vai consumir US$ 700 milhões. Está sendo realizada por meio de uma Parceria Pública e Privada (PPP). Somente o Consórcio de Infra-Estrutura de Integração Sul-Americana (Conirsa), composto pelas empresas peruanas JJC, ICCGSA e Graña y Monteiro e pela brasileira Norberto Odebrecht, que tem participação majoritária, irá investir US$ 567 milhões para construir 710 quilômetros. Os recursos foram obtidos junto à Cooperação Andina de Fomento (CAF). O Conirsa terá direito à concessão da rodovia pelo prazo de 25 anos. O governo peruano se responsabilizou pelo pagamento do financiamento em dez anos. A receita cobrada em pedágios também será revertida para ajudar a quitar o débito. A estrada vai cortando as vilas mal cuidadas e pobres ao longo da rodovia. Estrategicamente, em cada entrada e saída, o governo afixou outdoors anunciando que a “carretera” irá trazer desenvolvimento e progresso ao povo do Peru. “Los peruanos. Si, podemos” é a frase que tem o objetivo de atrair a simpatia da população para a obra. O progresso e o desenvolvimento parecem que não são esperados pelas pessoas que moram ao longo da estrada. Elas vêem o movimento intenso de máquinas e homens, mas não compreendem como suas vidas serão afetadas para melhor. É o caso do agricultor Ramón Sapuna, 65, morador do povoado de Planchon, a 40 quilômetros de Puerto Maldonado. “O máximo que espero é ver o custo de vida ficar mais baixo. A estrada poderá facilitar a chegada de mercadoria até aqui”, comenta. Não são apenas produtos mais baratos que faltam aos vilarejos e cidades peruanos. É fácil perceber a completa ausência do Estado. A pobreza é extrema. A conclusão que se tira é de que dificilmente a rodovia contribuirá sozinha para melhorar as condições de vida dos moradores da região. São pessoas que vivem em seu próprio mundo em absoluta miséria, sem ter qualquer contato com a modernidade. Com tanta desigualdade, a Interoceânica é uma esperança para um país cuja metade da população vive na pobreza e 53% mora na faixa costeira, que não representa sequer um décimo do seu território.
Rumo a Cusco A Interoceânica corre em terreno plano até o vilarejo de Santa Rosa. Em seguida, é necessário subir e descer uma montanha durante uma hora. É a primeira das várias que aparecerão a partir da cidade de Mazuco, onde também está um dos quatro acampamentos do Conirsa. Os acampamentos são verdadeiras cidades. Contam com infra-estrutura que causa inveja aos desamparados moradores da região. Há geração de luz 24 horas por dia, água encanada, restaurante, posto médico, cinema, lavanderia e salão de jogos. Mazuco fica em plena floresta amazônica. É partir dela que começa uma longa subida, que culminará com a chegada às Cordilheiras dos Andes. A cidade seria um cenário perfeito para os filmes produzidos em Hollywood - muita floresta, humildade, poeira e um movimento intenso de pessoas e carros compõem o cenário. Quando nas florestas e montanhas da estrada, fica claro que os impactos ambientais serão inevitáveis e irreversíveis. Para que a pista seja ampliada, funcionários do consórcio fazem o uso de muita dinamite. As explosões derrubam rochas e árvores e mudam o curso dos rios. Tudo é feito sem que haja a fiscalização de órgãos especializados. As madeiras retiradas de maneira clandestina estão em diversos pontos da estrada. Também são visíveis os diversos caminhos por onde os traficantes transportam drogas até a fronteira com o Brasil. Tanta beleza contrasta com a antiestética da miséria refletida em todos os lados. No percurso o perigo é real. Não está apenas nas faixas de alerta postas nas curvas extremamente sinuosas pela construtora. Em cada curva, o uso da buzina é obrigatório para alertar quem vem no sentido contrário. O problema é que um motorista raramente ouve o outro e os veículos se encontram. Na maioria dos trechos não há espaço para que dois carros passem. Quando se encontram, um deles é obrigado a encontrar espaço e se esconder para dar passagem. Fica na beira do abismo. Muitas vezes, uma manobra malfeita custa vidas. Quem sobe tem preferência na lei do trânsito da montanha. O perigo não está apenas na natureza. O próprio homem se encarrega de deixar as coisas mais explosivas. Caminhões-tanques com combustíveis são utilizados para transportar passageiros. Tábuas são postas sobre os tanques para que as pessoas possam se locomover. Há muitas crianças entre elas. Não há ônibus. Os motoristas cobram entre 5 e 15 soles para andar nessas verdadeiras bombas ambulantes. Os preços variam conforme a distância percorrida. Os aparas-barro traseiros da maioria desses caminhões revelam que os caminhoneiros, a exemplo de milhões de pessoas na América Latina, cultuam Ernesto Che Guevara. “Hasta la victória siempre” é a frase que acompanha a imagem do guerrilheiro argentino. Mesmo com tanto riscos, há quem se arrisque a fazer a viagem sozinho. É o caso do oficial de justiça do Tribunal de Justiça do Acre Marcos Fidélis. No início do ano, ele combinou ir a Cusco de motocicleta com mais três amigos. “Na última hora eles desistiram. Resolvi vir sozinho”, revela. Fidélis já tinha viajado a Manaus (AM) no ano passado nas mesmas condições.
Inambari A partir de Puente Inambari, são 300 quilômetros até Urco. Esse é o trecho mais complicado de toda a viagem. É necessário subir e descer montanhas, cruzar rio e riachos - são 323 em toda a extensão da rodovia - e enfrentar a altitude de mais de 5 mil metros acima do nível do mar. É onde está Gualla Gualla. Nessa viagem, é necessário cruzar 108 comunidades. Quase todas desconhecem como serão beneficiadas com a pavimentação da estrada. Antes de chegar a Urco, ainda há uma longa descida. São mais 100 quilômetros até Cusco. Esse trecho está completamente asfaltado. Para o viajante, o fim do percurso vem acompanhado de uma incrível sensação de alivio por ter conseguido sair ileso de uma estrada onde não é permitido qualquer tipo de erro ou imprudência. O consórcio responsável pela obra afirma que a Interoceânica estará concluída até dezembro de 2010. Essa opinião é ratificada pelos governantes do Brasil e do Peru. Mas as pessoas que moram e trabalham há anos na estrada pensam diferente. É o caso do caminhoneiro Persi Mercado, que passou 12 dos seus 34 anos transportando combustível e pessoas. “Penso que a estrada não estará concluída em menos de dez anos. O que é uma pena, pois nossa economia necessita dela para crescer”, declara. Índices comparativos entre o Brasil e o Peru Brasil Peru
Cusco, o umbigo do universo Qosco. Assim foi grafada pela primeira vez a palavra Cusco. Significa umbigo. Os incas acreditavam que estavam no centro do mundo. E não escondiam isso de ninguém. Os primeiros povos de uma das principais cidades do Peru tinham mania de grandeza e divindade. Adoravam o sol e chegavam a pensar que era mais um satélite presente na constelação. Para se ter uma idéia da grandeza da civilização, a área dominada pelo império inca foi uma das maiores entre todos os impérios conhecidos pela humanidade. Sua extensão partia da Colômbia até a Argentina e do Pacífico à selva amazônica. O historiador Marcos Vinicius Neves, presidente da Fundação Garibaldi Brasil, defende que há indícios de relação comercial e cultural com os primeiros povos do Acre. Para poder administrar um império tão grande, os conhecidos “Filhos do Sol” providenciaram uma extensa rede de caminhos, espetaculares pela sua extensão e qualidade. Os caminhos possuíam áreas de serviço, onde os viajantes e mensageiros - os chasquis - dispunham de água, comida e hospedagem. Esse trajeto foi utilizado na construção da Rodovia Panamericana, que liga boa parte da América do Sul. A verdade é que inca não era todo o povo, mas o monarca. A organização social seguia a forma de uma pirâmide. O inca era o chefe supremo, detentor dos poderes divinos. Os deuses eram elementos da natureza. O seu deus principal era o sol, seguido da lua, das estrelas, do relâmpago e da chuva. Isso porque tinham uma organização econômica baseada na agricultura e dependiam desses elementos fundamentais para a fartura Era um povo que conhecia profundamente a meteorologia e as estações do ano. O conhecimento tinha importância para o plantio e a colheita das várias espécies vegetais. O Peru conta com mais de três mil tipos de batata e mais de 400 de milho. Um dos grandes construtores de Cusco foi o imperador Pachacutec. Uma das suas principais obras foi o Sol Korikancha, um recinto de ouro, templo do sol repleto de riquezas e fausto. As muitas homenagens ao imperador existem até hoje em diversos pontos da cidade. Quem anda pelas ruas de Cusco atualmente está atrás de história. Mas é impossível deixar de perceber que as roupas coloridas dos descendentes incas contrastam com a tristeza nos olhos de cada um. É uma situação de penúria tão grande que o turista consegue tudo com eles, desde que esse esteja disposto a pagar “propina”, a forma como gorjeta é chamada no país. Mulheres e crianças cusqueñas se vestem a caráter e cobram para posar em fotografias ao lado dos visitantes. Quem vê essas pessoas praticamente mendigando nem de longe pode imaginar que são descendentes de um império que começou a ruir quando os irmãos Athaualpa e Huascar começaram a lutar entre si pelo poder. Huascar era filho legítimo do inca Huayana Capac, mas não tinha vocação para o poder. Assumiu o império a contragosto. Preferia trabalhar com a ourivesaria. Tinha um comportamento afável e ignorava a política e a expansão dos seus domínios. Athaualpa era completamente diferente. Não era considerado filho legítimo nem inca. Mas era guerreiro. Declarou guerra ao meio-irmão Huascar. Conseguiu vencê-lo. Para isso, ateou fogo nos locais onde eram estocadas as colheitas e decapitou mulheres, conselheiros e a nobreza. O império de Athaualpa caiu após a invasão dos espanhóis. Mas não foi fácil. Os conquistadores espanhóis, sob o comando de Francisco Pizarro, levaram 40 anos para derrotar os incas e implantarem sua cultura. A guerra entre os irmãos beneficiou Pizarro. Os dois permaneceram lutando por anos a fio. Com isso, seus exércitos se desgastaram e a organização política e social ficou fragilizada e desorganizada. O espanhol, apesar de ter um exército numericamente inferior, soube se aproveitar da situação. O conquistador espanhol também contou com a ajuda fundamental de Athaualpa. Sem avaliar a situação corretamente, o inca enxergou possibilidades de reconquistar todo o império com a derrota de Huascar, além do auxílio de outras tribos subjugadas pelos incas, como por exemplo a tribo dos aymaras. Mas Athaualpa foi aprisionado por Pizarro. Errou novamente quando, tentando recuperar o poder perdido, prometeu ao espanhol um quarto com as dimensões de seis metros de comprimento por cinco metros de largura e com a altura de um homem, repleto do metal precioso. O espanhol fingiu aceitar a oferta. O inca enviou mensageiros para todo o reino, a fim de recolher o ouro prometido. A notícia logo se espalhou e serviu como base da supremacia da Espanha nos séculos XVI e XVII. Athaualpa foi morto pelos espanhóis e os incas escravizados nas minas de ouro. Para impor sua cultura de colonizador, os espanhóis demoliram os templos com a finalidade de eliminar a cultura inca e mais facilmente subjugar o povo. Um desses templos derrubados foi o do Sol Korikancha, onde hoje funciona uma catedral recheada de peças cobertas de ouro. Essa obra, segundo os historiadores, teria sido construída sobre quatro pedras redondas onde estão os pilares principais da igreja. Essas pedras se movem quando há terremoto, o que impede o desmoronamento. Se a base da catedral é verdadeira, não se tem certeza. Mas é certo que as construções incas são resistentes. Há relatos de que Cusco passou por três grandes terremotos. Há um intervalo de 300 anos entre eles. O primeiro teria sido em 1350, mas não há qualquer registro para comprovar. O segundo ocorreu em 1630 e só as construções incas ficaram de pé. O terceiro foi em 1950 e apenas as edificações feitas pelos espanhóis ruíram. Ainda há exemplos da arquitetura inca, como as fortalezas de Machu Picchu, de Ollantaytambo e de Sacsayhuaman, que fica aproximadamente a dois quilômetros de Cusco. Hoje, muitos séculos depois da conquista espanhola, é complicado o trânsito de Cusco. Os motoristas dirigem como se fizessem uma competição particular de buzinas. Esse é um equipamento fundamental nos veículos para garantir espaços nas ruas estreitas e mal sinalizadas. Cusco é uma cidade que respira história. Mais de um milhão e meio de turistas do mundo inteiro a visitam anualmente para percorrer as ruínas incas, principalmente a fortaleza de Machu Picchu. O turismo movimenta US$ 500 milhões por ano e gera 30 mil empregos diretos. Cinco mil são guias turísticos. Curiosamente, 20% dos visitantes estrangeiros são espanhóis. Um desses guias é Wladimir del Mar, 39. Ele trabalha há 15 anos, mas diz desconhecer mais informações sobre o Acre e os demais Estados brasileiros. Del Mar compara as relações comerciais que podem surgir com a Interoceânica entre o Brasil e o Peru com as existentes entre os Estados Unidos e o México. “Se fizemos uma programação turística, poderemos realizar grandes negócios com o maior país da América do Sul. O Brasil tem quase duzentos milhões de habitantes. Se um por cento vier conhecer Cusco, nossa economia crescerá bastante”, comenta. A expectativa do guia turístico tem sentido. Com uma economia frágil do ponto de vista econômico, o país - Cusco não é diferente - sobrevive basicamente do turismo, que tem suas belezas naturais e históricas como pontos de atração. Nessa cidade de tantas histórias têm-se a impressão de que os conquistadores espanhóis venceram as batalhas, escravizaram pessoas, levaram muito ouro, mas não conseguiram ser vitoriosos de fato. Até hoje, toda a base social e econômica da região ainda segue as tradições incas.
Caminho dos incas no topo do mundo São 368 quilômetros a separarem Cusco de Puno. A viagem pela Rodovia Panamericana, completamente asfaltada, faz acreditar na possibilidade de as obras na Inteoceânica seguirem o mesmo padrão de qualidade. É uma viagem com belas paisagens e sem abismos, apesar de ser uma subida que chegará aos 4.700 metros acima do nível do mar. A cada quilômetro percorrido surge uma imagem espetacular. Os pampachullas - vales bonitos - se tornam ainda mais belos com os rios que correm ao seu lado. É o caminho utilizado pela civilização inca para encurtar distância e poupar esforços nas descidas e subidas. Percorridos 209 quilômetros a partir de Cusco, começa o altiplano andino. É uma estrada construída no topo do mundo. Não existe mais alta. É possível ficar nas alturas das nuves. A umidade do ar é extremamente baixa. A pele resseca. A respiração fica prejudicada. As montanhas ficam no mesmo nível dos olhos. Tudo é muito seco e frio. Não há vegetação. É como se fosse um Nordeste brasileiro com a temperatura abaixo de zero. As pessoas que moram na região têm o mesmo sofrimento dos nordestinos. Só que a mais de quatro mil metros de altura. A ausência de água também gera a ausência de casas em grande número. As poucas que existem foram construidas com adobe - tijolo feito com água, barro e palha - para proteger os moradores contra o forte frio. São imóvies pequenos e baixos. A maioria coberta de palha. Esse caminho inca leva a Puno, cidade que tem como atrativo o Titicaca, o maior lago do mundo, a 3.800 metros acima do mar, em terras peruanas e bolivianas. É uma estrada onde é realizada a cobrança de pedágios para garantir a sua manutenção. São quatro ao todo. O preço: 7,50 soles. O movimento não é tão intenso na Panamericana. Passam, em média, 500 veículos por dia. A previsão é de que esse número sofra um salto após a conclusão da Interoceânica. É o que pensa o economista Hieberto Castelo, responsável por cobrar o pedágio num dos postos da rodovia. “A relação comercial vai melhorar muito. Com o tempo poderemos ampliar nossos contatos com o Acre, Rondônia e outros Estados brasileiros”, prevê Castelo. Os contatos virão, mas os peruanos necessitam avançar vários pontos, até nos pontos de pedágios, onde não é raro o motorista receber de troco moedas de cinco soles falsificadas. A pressa do viajante impede que o dinheiro seja avaliado com a atenção devida. Na estrada mais alta do mundo, os animais são criados sem cerca. As linhas demarcatórias das propriedades são feitas com pedras. Também há muita miséria. Até os cachorros correm para a beira da pista sempre que os carros passam. Vão na tentativa de obter algum alimento. Antes de chegar a Puno, passa-se por Juliaca. É uma cidade pequena, alegre e produtora de cimento. Nas ruas estreitas da cidade o movimento é intenso. Num trânsito conturbado e barulhento típico do Peru, o que chama a atenção é a enorme quantidade de bicicletas improvisadas como táxi. Até elas têm buzina. Na chegada de Puno, a cor predominante é o azul do Lago Titicaca. As casas, como as da maioria das cidades peruanas, não têm pinturas. Os tijolos ficam aparentes. Tinta é produto caro e de luxo, embora o cimento seja barato. Nesse trecho rumo ao Oceano Pacifico há uma lamentável coincidência com o que liga o Acre a Cusco: as muitas cruzes na beira do asfalto. O lago - É o Titicaca que dá vida a Puno. Tudo na cidade gira em torno do maior lago navegável do mundo e o segundo em extensão da América Latina. Diariamente, cerca de dois mil turistas de diversas partes do planeta visitam a cidade para conhecer o ponto turistico. O lago está localizado no altiplano dos Andes, na fronteira do Peru e da Bolívia, a 3.800 metros acima do nível do mar. Mais de 25 rios deságuam nele, que conta com 41 ilhas, muitas povoadas. Um dos atrativos do Titicaca sãos as nove ilhas artificiais de Uros. Construídas com juncos, as ilhas têm a profundidade de dois metros e abrigam famílias inteiras que têm contato com terra firme poucas vezes por ano. Nessas localidades, crianças são treinadas para cantar em alemão, francês, inglês e italiano. Também na língua aymara. O Titicaca tem valor especial. Foi nele, segundo a lenda, que os irmãos Manco Capa e Mamaocllo, a mando do Deus Sol, desceram do céu numa carrugem de fogo e, com um cajado de ouro nas mãos, passaram a procurar o local ideal para erguer a civilização inca. Manco Capa e Mamaocllo, embora fossem irmãos, casaram-se, encontraram a Isla do Sol e tiveram os filhos que deram continuidade à expansão do império. O local escolhido por eles não foi em solo peruano. O cajado de ouro foi fincado em Tiaquanaco, na Bolívia. Ainda hoje, o sonho da construção de uma grande nação boliviariana a partir das concepções incas é alimentado pelos nativos. Acreditando nessa possibilidade, os aymaras e quechuas, historicamente rivais, começar a se unir contra os brancos. Crêem que as mudanças ocorridas em países como a Bolívia, Venezuela e Equador são indicativos de que o dia da chegada da “Tawantinsuyo” - a grande nação inca - está próximo. “Nossa economia gira em torno da pesca, artesanato e turismo. Desconheço mais detalhes sobre essa rodovia que nasce no Brasil. Mas deve ser algo muito bom”, comenta o comandante de navio Santiago Charca.
Números do Titicaca Profundidade máxima: Superfície da ilhas de Uros: Distância: 165 quilômetros
Do deserto ao mar A margem direita do Titicaca beija a estrada até Desaguadero, saindo para o Porto de Ilo. Apesar da importância que o lago tem para a vida dos moradores da região, são nítidas as contribuições que o homem dá para destruir o meio ambiente. Garrafas plásticas e outro produtos poluentes flutuam como se fizessem parte da paissagem. Não há conscientização ambiental entre os peruanos. Desaguadero está situada na fronteira do Peru com a Bolívia. A localidade fica a 200 quilômetros da capital boliviana, La Paz. Ao fundo é possível enxergar a Cordilheira Real coberta de neve. É pela localidade que toda importação do Chile passa. Muitos chegam a Cobija, na fronteira com as cidades acreanas de Brasiléia e Epitaciolândia. Saindo de Desaguadero para o Porto de Ilo são mais 398 quilômetros. Os sinais de acidentes estão em quase toda a rodovia. As cruzes indicam que o trecho é perigoso. A maioria da vítimas é de pessoas que andam embriagadas no meio da rodovia e são atropeladas. O alcoolismo é acentuado no Peru. Serve para combater o frio. E matar. Nessa parte da Panamericana aumenta o fluxo de veículos pesados. Quase todos passam carregados de produtos transportados do Porto de Iquiqui, no Chile. A mercadoria vem do mercado asiático. A rodovia segue pelo altiplano andino com muita seca e frio. Tudo parece um grande deserto com poucas vegetações. Mas há lagos perdidos, semelhanes a oásis. A temperatura é abaixo de zero. As montanhas permanecem quase ao mesmo nível dos veículos. Ruínas incas são vistas, o que dá a impressão de voltar ao tempo. É uma paisagem característica dos filmes de faroeste. Antes da cidade de Moquegua há uma descida com mais de quatro mil metros. A pressão é tanta que os ouvidos ficam comprimidos. No caminho é possível entrar nas nuvens. Começam a aparecer criações de lhamas, alpacas e vicuñas. Nessa brincadeira de sobe e desce, há um céu tão azul que parece um grande espelho a brilhar acima das cabeças dos viajantes. A chegada a Moquegua traz um novo cenário. Diferentemente das demais localidades, as casas são coloridas. Os meio-fios também são pintados nas cores verde e amarela. Moquegua está próximo do Pacífico. Depois dela há um pequeno vale com muita água e verde. É por pouco tempo. Logo surge um novo deserto. Parece uma paisagem lunar com montanhas de areia e pedra. Não há qualquer sinal de vegetação e vida. São montanhas marrons e tristes. O vento bate na areia e forma uma grande neblina. Quase sem perceber, descobre-se frente a frente com o Pacífico, o oceano que é visto como oásis para a economia acreana. Até o Porto de Ilo foram percorrido 2.057 quilômetros. Uma viagem de Rio Branco a Ilo é inesqucível. É necessário cruzar florestas, montanhas, rios de pedras, vilas mal cuidadas e pobres, cidades históricas, abismos, neve, cordilheiras e desertos para se deparar com o mar. E ainda falta muita coisa para que a tarefa seja facilitada.
Um outro caminho: o do Pacífico O chamado trecho 4 do Corredor Viário Interoceânico começa na Puente de Inambari. Toma um caminho diferente de Cusco. Passa por Azángaro, Juliaca, Arequipa e vai parar no Pacífico. As obras estão sendo realizadas pelo Consórcio Intersur, formado pelas empresas brasileiras Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa. Orçada em US$ 215 milhões, a obra tem 306 quilômetros e facilitará ainda mais a chegada aos portos de Ilo e Matarani, na margem do Oceano Pacífico. Esse caminho encurta a distância do Acre para o oceano em 300 quilômetros. Tem todas as características de que será o mais utilizado para as exportações e importações porque tem menos montanhas e segue o traçado feito há milhares de anos pelos incas. Embora seja mais fácil, o trecho também guarda praticamente todas as características da estrada para Cusco. São muitas as montanhas e abismos. O ponto mais alto tem 5.200 metros acima do nível do mar. No local também há um santuário da Santíssima Cruz de Oquepuño. Várias oferendas - a maioria garrafas de bebidas alcoólicas - estão presentes. As montanhas cobertas por neve são lindas. Parecem nuvens de pedras. Por esse caminho há hidrelétricas e muitos riachos formados pela água que brotam de dentro das montanhas. É possível ver a floresta amazônica e rios grandes como o Madeira nascendo do nada. Aos poucos, o volume de árvores e de água vai tomando as proporções que todos conhecem. Na beira da estrada, uma preocupação: diversas famílias secam folhas de coca em lonas azuis. Os indícios são de que trabalham para o tráfico. Também há muitas cruzes na beira da pista. Arequipa - O viajante que se aventura pela Interoceânica sente a necessidade de passar por Arequipa, uma das maiores e mais antigas cidades do Peru. Arequipa completa 467 anos de fundação no próximo dia 15. Foi fundada pelo explorador espanhol Francisco Pizarro. No local havia uma antiga cidade inca. A cidade está localizada numa região sujeita a abalos sísmicos e vulcânicos, em razao da pressão entre as placas tectônicas da América Latina e do Oceano Pacífico. Ainda hoje os vulcões à sua volta embelezam a paisagem e amedrotam as pessoas. Moradores contam que nos anos de 1687 e 1868 ocorreram dois terramotos que destruiram a maior parte da área construída da cidade, incluindo a Catedral e a Igreja de São Franscisco. A exemplo de Cusco, as construções incas resistiram. Arequipa foi inscrita na lista das cidades do Patrimônio Mundial em 2000, graças à sua arquiterura repleta de ornamentações. A maior parte dos edifício foi erguida com uma rara espécie de rochas vulcânicas brancas, chamada de “sillar”.
Parlamentares propõem fórum permanente de debates Durante nove dias, os deputados Edvaldo Magalhães (PC do B) e Juarez Leitão (PT) percorreram a Interoceânica, numa visita fora dos protocolos oficiais. Foi a primeira vez que políticos brasileiros se aventuraram dessa forma. O presidente e o primeiro-secretário da Assembléia Legislativa, respectivamente, fizeram a viagem no momento em que o Poder Legislativo acreano debate com os prefeitos, vereadores e representantes dos segmentos sociais de todos os 22 municípios alternativas para o desenvolvimento sustentável do Acre. A deputada federal Perpétua Almeida (PC do B) também foi na caravana até o Porto de Ilo. Outro parlamentar que acompanhou todo o trajeto foi o vereador Zé Carlos (PT/Feijó). Magalhães ficou encantando com as belezas naturais que viu pelo caminho. Mas lembrou que o foco principal de tudo é a necessidade de o Acre entender a importância da Interoceânica para que não se torne apenas um corredor de passagem dos produtos que serão exportados dos outros Estados brasileiros para o mercado asiático. O presidente da Assembléia Legislativa destaca a necessidade de os setores produtivos se organizarem, a fim de se tornarem competitivos no mercado internacional. “Hoje, temo a madeira e a carne como principais produtos de exportação. Mas podemos ampliar a oferta. Basta ter organização”, salienta. Segundo o deputado comunista, a iniciativa privada necessita entender o momento que o Estado vive para que os proveitos econômicos e sociais sejam obtidos. “Há todo um trabalho político, mas o setor produtivo necessita ser mais ousado”, defende. O raciocínio do deputado Juarez Leitão segue os argumentos de Magalhães. A diferença é que o petista acredita que o processo de integração será lento e necessitará reunir toda a inteligente política empresarial e intelectual do Estado para que seja criado um fórum permanente de debates. Esse fórum, diz Leitão, seria importante para promover debates que possibilitem ao Acre descobrir a melhor forma de aproveitar seus potenciais econômicos e turísticos. “A estrada é uma realidade. Ela pode não ser concluída no tempo planejado, mas vai sair. A presença do capital privado na sua construção é uma garantia da sua viabilidade”, argumenta. Depois do que viu, Leitão alerta para que os políticos e empresários levem a estrada a sério, acreditando na possibilidade de o Acre fazer bons negócios. “Um navio que parte do porto de Santos leva setenta dias para chegar à China. Saindo do porto de Ilo esse tempo cai para apenas dezessete dias”, revela.
A presença de um guia facilita a viagem Um guia experiente e que conheça a estrada de Rio Branco a Cusco é garantia de que a viagem transcorrerá com mais facilidade. O boliviano naturalizado brasileiro Rubem Ortiz, 56, é um desses profissionais. Ortiz viaja pelos Andes desde 1979, quando cursava Auditoria e Administração na Universidade Maior San Simon, em Cochabamba, na Bolívia. “Nunca pensei que essa estrada pudesse ser asfaltada um dia. Eram verdadeiras trilhas”, comenta, enquanto dirige uma camionete Ranger num trecho pavimentado. Ortiz veio parar no Acre porque, na época de universidade, participou ativamente no movimento estudantil contra o ex-presidente boliviano Luiz Garcia Mesa, a quem chama de “narcotraficante”. Foi membro do Movimiento de La Izquierda Revolucionária (MIR), pegou em armas, foi preso e torturado durante quatro meses. “Eles nos levavam vendados para fora do pátio e diziam que nos iriam fuzilar. Atiravam com balas de festim apenas para nos aterrorizar”, revela. Garcia Mesa tinha um especialista em tortura na sua equipe. Era assessorado pelo alemão Klaus Barbie, conhecido como “Carniceiro de Lyon”. Barbie era um fugitivo nazista que comandava o esquadrão da morte de mercenários europeus responsável pela eliminação das principais lideranças operárias e sindicais. Na época, o jovem Rubem não sabia disso. Mas escapou graças à intervenção do pai, que conseguiu sua extradição para o Brasil, especificamente para o Acre, onde havia parentes para ampará-lo. “Todos os dias eu tinha que ir à sede da Polícia Federal assinar o ponto”, relembra. Em 1989, Ortiz jurou bandeira, cantou o Hino Nacional e tornou-se brasileiro. Mas teve que abrir mão da cidadania boliviana. Casou-se com uma brasileira e tem quatro filhos que, mesmo com dupla nacionalidade, não querem conhecer a Bolívia. “Eles não gostam de ir nem a Cobija”, revela. Há três anos explora comercialmente a rota para Cusco. Nesse período foi guia de empresários, políticos e de diretores e artistas da Rede Globo de Televisão que vieram gravar a minissérie “Amazônia - de Galvez a Chico Mendes”, no ano passado. Rubem Ortiz também é presidente da Federação Acreana de Motociclismo. Coordena o Rally Bolpebra há sete anos. “Começamos com sete pessoas. No ano passado, vieram 75. A expectativa é de que este ano o número de participantes seja ainda maior”, afirma, revelando que ainda pretende iniciar um curso de Turismo. |
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