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Andrelino Caetano: o menestrel da floresta Ele canta alegrias, amores, esperanças e desilusões do povo acreano em versos que traduzem o melhor da cultura popular |
![]() Andrelino Caetano veio para o Acre com 17 anos e hoje, com 50, já teve oito esposas e dez filhos |
Nascido entre as montanhas de governador Valadares, em Minas Gerais, de infância vivida ao cabo da enxada nas planuras de Cáceres, no Mato Grosso, aos 17 Andrelino Caetano Tibúrcio, hoje com 50 anos, oito ex-esposas e dez filhos, resolveu acompanhar uma tia para conhecer Rondônia. Quando resolveu perguntar à tia se ainda faltava muito para chegar a Rondônia, soube já estava no Acre, dentro do Hotel do Maninho, esperando a hora de descer no rumo das matas de Xapuri. “Sempre fui largado na vida, pensei que a tia morava em Rondônia e quando percebi já estava trabalhando no roçado de uma colônia lá em Xapuri”, relata assim como quem se apercebe dum engano. Ficou pouco mais de um ano na colônia e saiu para Rio Branco. “Depois que saí de lá nunca mais voltei a morar em colônia, aquilo é um sofrimento terrível!” Nesse pouco tempo, foi o modo de viver do povo de Xapuri que lhe inspirou a primeira cantiga acreana: “ O Xapuri, ó meus amigos é uma flor; tem muitos carros dentro da povoação. Estão construindo uma matriz para rezar; e também perto, um campo de avião. O Xapuri para ser grande cidade, nosso prefeito vai ali para falar; só ta faltando o apoio do governo, o mestre Félix vai aonde ele tá. É o arroz, é a castanha, é a borracha, que vai levando Xapuri pra frente. Esse povo que oferece ao lavrador, que aceitar um churrasquinho bem quente”. Era 1974 quando o agricultor chegou em Rio Branco, apenas com a quarta-série primária incompleta ou profissão definida. Foi trabalhar como ajudante de pedreiro na construção do prédio da Assembléia Legislativa, aprendeu o ofício, mas dois anos depois aconteceu uma tragédia: “Roubaram todos os meus ferros de trabalho, fiquei chateado, fui trabalhar no Hotel Libanês onde arrumei Angelina, mãe dos primeiros filhos, voltou a morar um anos mais em Xapuri e retornou à Capital. “Lembro que minha primeira música eu fiz ainda no Mato Grosso quando catava arroz debaixo de um sol muito quente, observando os passarinhos, notei uma cigarra que saiu voando, deu aquela mijadinha no a ar e foi se embora”. Daí surgiria a primeira cantiga: “Mas veja só que no mundo Deus deixou. As bicharada neste mundo pra sofrê, pois sofre a gente também sofre os gafanhoto, até a cigarra lá no galho do pau torto. Quando o machado no seu pezinho se encosta; cigarra escuta, bate asa e vai embora. Mas ela pousa em um pau sem arvoredo, o sol te queima que te chega a fazê medo. Ela vai embora solta a mijada pra tras. Vai se embora pra outra terra e diz que aqui não volta mais..”. Primeiro sucesso Já em Rio Branco, ele trabalhava na padaria e, durante o dia, enquanto cuidava de sua banquinha de bom-bons que até hoje está localizada ao lado da escola Maria Angélica, no Segundo Distrito, Andrelino ia compondo suas cantigas. Um partidário do então senador Jorge Kalume, candidato ao governo na campanha de 1982 passou pelo local, ouviu uma cantiga favorável ao candidato e o convidou para se apresentar no comício que aconteceria naquela noite em frente ao mercaodo da rua Seis de Agosto. “Um amgio meu, mais conhecido pediu pra se apresentar primeiro porque as musicas dele eram mais conhecidas e melhores, cantou pro Alércio Dias, levou uma vaia tão grande que quando foram me anunciar, disseram que eu tinha vindo lá das brechas do seringal Oco do Mundo, pra ver se o povo tinha pena de mim”. Quando subiu ao palco canto: “Jorge Kalume vem voltando do senado para salvar nosso Estado dessa grande escravidão. Vote pra ele de todo seu coração, se o Kalume ganhar é a nossa salvação”. O sucesso foi tão grande que, só naquela noite teve de repetir a cantiga quatro vezes a pedido do próprio candidato. “Kalume gostou tanto que me deu 30 mil cruzeiros de presente, eu ganhava cinqüentinha trabalhando como ajudante lá na padaria, nunca tinha visto tanta nota de 500 cruzeiros na minha vida. Só caixa de chicletes comprei cem pra minha banquinha. Mas o Kalume perdeu, nunca tive sorte pra política!” Triste sina do padeiro Andrelino trabalhou seis anos como ajudante na padaria do “Raimundinho do Cícero” na entrada da rua seis de agosto. Começava o expediente às três da tarde preparando a massa e, enquanto ela crescia, aproveitava para tirar um cochilo. Virava a noite amassando e pajeando os pães que seriam assados de madrugada e ele deixava a padaria às sete da manhã, de segunda a segunda. Cansado dessa rotina, resolveu mudar de vida e daí surgiu esta cantiga: “A vida do padeiro é ruim porque não tem alegria. Enquanto tem gente nos bares aproveitando a boemia, em casa tem outro dormindo com sua família; padeiro ta padecendo de sono na padaria. Eu vou renunciar eu vou procurar posição, porque já estou cansado dessa vida de fazer pão; a noite na padaria eu tô perdendo meu valor, vou deixar de ser padeiro e vou ser cantor.Desculpe meu patrão, perdoe minha patroa, porque quem trabalha de noite nessa vida a gente enjoa. De dia eu to com sono aí o problema amontoa.porque não me sobra um tempinho pra dar um beijinho na minha patroa”. Inconfundível na sua simplicidade de ritmos, letras e temas, Andrelino esclarece: “Não gosto de ter musica parecida com a de ninguém, gosto de cantar do meu jeito, com meu sentimento. Elas vem assim da minha natureza, sou um cara muito natural”, então esclarece que: “Não sei fazer musica escrevendo, eu sinto, ou alguém me conta um sentimento, pego o violão, voi batendo tango...tango... vêm o ritmo, aquilo grava na minha cabeça, faço os arranjos e só depois é que vem a letra. Se escrever, esqueço”. Sem escrever, Andrelino estima que tem compostas pelo menos 250 canções, das quais se lembra de cor. “Duma feita, estava lá na Sobral quando um sujeito pediu pra fazer uma música e eu fiz, ele disse que ia me esquecer, garanti que não. Dês anos depois ele me perguntou por ela e eu cantei tudo direitinho, ele ficou admirado!” De improviso Esclarece serem tantas as suas canções, nos mais variados estilos que é capaz de cantar uma noite inteira e, ainda sobra. “Um dia estava cantando xote lá na Vila Acre, já era finzinho e faltou música. Vi num canto, encostada na parede do salão uma moça muito bonita, com um vestido vermelho e então me inspirei”. De improviso saíram letra e música: “Na Vila Acre tem uma gatinha, sei que é muito bonitinha e, tomei essa decisão. Sei que ela pensa que sou um homem casado, mas eu morro apaixonado sem ganhar seu coração. Menina vem cá, está na hora de você me conhecer. Menina vem cá, o Andrelino ta doidinho por você!” Nessa hora alguém tomou coragem e puxou a dama pro salão deixando Andrelino na mão sem que ela jamais pudesse saber que havia inspirado a canção. “Já tive oito esposas por causa dessa história de tocar em festas. Mulher gosta de violeiro, sempre aparece um rabo de saia, é uma coisa e esposa não consegue entender isso”. Com as esposas Angelina, Francisca, Chiquinha, Sônia, Sandra, Rosilda, Sebastiana e Maria, teve os filhos Josué, Elias, Joelma, Andrélina, Adreliana, Sandré, Sâmara, Anderson e ainda considera Samara, a enteada. Som na voz e na memória Como não costuma sujar o papel de tinta nem tem dinheiro para gravar suas composições, Andrelino ainda sonha com o dia que poderá gravar um CD com suas cantigas. “Gravei um CD caseiro, mas tenho vontade de gravar um normalizado mesmo. Tinha doze músicas prontas pra gravar, mas o pessoal do estúdio estava vexado, só deu pra gravar nove, mas já é alguma coisa. Agora estou querendo gravar outro, só falta um apoio de dinheiro porque sem ele é mais difícil fazer as coisas. É tudo música nova”. Garante ele lembrando que vai do xóte ao brega, romântico e forrozinho. A loba Catitoba Ainda há quem garanta ver em noites enluaradas, envoltas na cerração do verão, a imagem assombrosa da Loba Catitoba, monstro em que se transformou uma beata que teria caso com um padre do Segundo Distrito. Disso surgiu o forró com versos intercalados pelo refrão inicial. “Quê forrozinho bom que fiz lá na Gameleira, com esta todo mundo vai cair na brincadeira. Esta história que eu conto é de lá do bairro Quinze, vocês presta atenção neste forrozinho que fiz pra dançar agarradinho e, dançar muito feliz.A loba e o padre é uma história engraçada, loba era beata que com o padre namorava. A loba catitob, a loba catitoba, a loba catitoba.Pra banda do bairro 15 ela ia desfarçada, com seu cabelo comprido, sua cabeça abaixada assombrava todo mundo que passava na estrada. A loba catitotba... Um rapaz apaixonado que andava embriagado viu a Loba Catitoba e correu desesperado. Na corrida ele dizia: A loba Catitoba, a Loba Catitoba, a loba catitoba. Ai que forrozinho bom... Ainda tem gente que acredita que a loba anda assombrando o povo no segundo distrito”. Quanto a anotar as músicas, Andrelino diz que não quer. “Só se um de meus filhos quiser fazer isso, pra mim ta bom assim. Meu negócio é pegar o violão e cantar ou compor uma nova canção. A música e a letra vão sendo revelados assim por um sentimento meu ou de outra pessoa, é coisa de momento”. A meretriz Lembra que ao lado da padaria onde trabalhava havia um barzinho com uma sinuca onde muitos viravam a noite se divertindo e outros ganhando vida com o sexo. “Passou um rapaz e pegou no braço de uma das mulheres que sempre estavam por ali. Ela se arrepiou toda e me disse que estava cansada de passar assim de mão em mão. Eu então respondi, não chores!” A partir dessa frase acabaria surgindo a canção Meretriz : “Eu nunca nem sabia o que era meretriz, nem sei como é que ela foi parar nessa música., mas de repente ela veio na minha cabeça”. Daí surgiu “Não chores meretriz não chores, não chore não adianta chorar, antes você tinha seu marido, saia escondido não queria respeitar. Não chore meretriz... Você repara nas outras, a vida que queria levar, andando de mão em mão, bebendo de bar em bar. Não chore meretriz... Meretriz desaforada, que gosta de dançar gafieira, enchendo a cara de mé, isso é coisa de mulher solteira. Não chore meretriz...Enquanto você estiver novinha, tem muito homem querendo te abraçar, mas quando ficar velhinha é só o Funrural é que vai te amparar”. Vida e morte Andrelina “Tenho pavor da morte!”, confessa antes de complementar: “Vou morrer porque é o jeito. Acredito que vou morrer com 83 anos, mas se pudesse chegaria aos 100. A gente que fala da vida alheia tem que saber da nossa, tem uma coisa que me diz isso”. E diante da fatalidade inevitável que atinge 100% dos vivosd, a morte também inspirou Andrelino: “Chacrinha que tanto animou a nossa televisão, partiu para o além, é sina que Deus deixou, a vida parece amor, aqui não fica ninguém. Tão vendo eu que luto tanto, tão vendo eu que agora canto, mas um dia eu vou também. Sempre nasce um inocente, parecendo uma semente, mas seu fim logo vem. A morte não marca o dia, a morte não marca hora, ela chega de surpresa, pega assim, vamos si embora. Morre o Papa, morre o rei, a morte não tem escolha, leva quem tiver no meio, na hora de ir embora não tem bonito nem feio. Se a morte chega me leva, só Cristo Livra eu das trevas. Quando eu for pro além, sou semente que nasci, que nesta terra em que cresci, hoje não sou ninguém...” Fé na canção Embora tenha chegado ao Acre no início dos anos 70 e vivido toda a efervescência política e cultural da luta de uma época que transformou o Estado dos pontos de vita político e religioso, Andrelino só veio tomar contato com a religião amríndia do Santa Daime, há quatro anos. Desde então, tornou-se membro da igreja Caminho do Sol, qu está localizada próxima à curva do Iticumã, na Ac-40. Em 88 o C´cero Farias me falou do Santo Daime, mas não me interessei muito por isso. Há quatro anos um amigo me convidou para ir à casa dele, eu o conhecia há quase 15 anos e quando cheguei lá, vi que morava junto de uma igreja que ele freqüentava, pergunbtei o que era aquilo, ele explicou e perguntou se queria beber o chá, bebi, fechei os olhos e vi tanta coisa bonita. Um túnel de luz com muitas cores, os espíritos do bem falam com a gente, explicam, orientam. Se você procura seguir do jeito que é para ser, tudo vai direitinho”. Foi a partir desse contaoto relligioso que recebeu espiritualmente 16 hinos, dentre os quais cita A Casa Santa é um Poder de Deus. “Há muita gente que quer saber da casa dói nosso senhor, a Casa Santa é o poder de Deus, é Jesus Cristo nosso salvador. Tem muita gente neste mundo sofrendo, está vivendo na completa ilusão, não acredita na virgem mãe, nem em Jesus rei da salvação. Mas Jesus Cristo Mandou um recado, quem quisesse ganhar a salvação, abandona o mundo do pecado e esquecei de todas as ilusões. A Casa Santa é um poder de Deus, é Jesus Cristo nosso salvador,para quem acredita ganhar salvação, mas só duvida quem não tem amor”. Cantor popular sem maiores pretensões, Andrelino, por muitas vezes recebe apoio de locutores de rádio, destacadamente da locutora Nilda Dantas, abrindo espaço para que suas musicas possam ser ouvidas pela população. Dentre as canções que ela e o cineasta Adalberto Queiroz, mais gostam, se destaca Coisas da vida. “As coisas da vida parem beleza, quem transforma o mundo é a natureza. Ouço os passarinhos cantar na floresta, aqui na cidade a gente faz a festa. As coisas da vida...O trigo é uma semente que caiu no chão, nasceu e se transformou para fazer pão.As coisas da vida... Vejo no espelho meu rosto enrugando, vejo meus cabelos tão branqueando, eu era novinho, velho estou ficando. É a natureza ta me transformando As coisas da vida... Vou virar poeira da terra, do chão, que forma tido, de transformação”. Compositor popular de produção invejável, Andrelino que só tem a quarta-série primária, incompleta, nunca conseguiu realizar o maior sonho de sua vida. “Queria ser caminhoneiro para rodar o Brasil, ver as coisas que nunca pude ver, mas a sorte me levou pra outro lado. Queria viajar mundo afora”. Mesmo não concretizando seu sonho pessoal, Andrelino não se sente frustrado e sobre si mesmo compôs: “Sou Andrelino Caetano e tenho o que Deus me deu. Eu só sou o que eu sou e que sou pra mim já valeu. Vou sair por aí, eu vou conhecer o Brasil, vou ver outras coisas que ainda meus olhos não viram. Vou num programa de televisão, talvez no Raul Gil, ou lá no Ratinho, vou no Gugu que pra mim é mil. (estrofe) Se querem saber de onde eu vim, sou de uma terra bastante bacana, sou lá de Rio Branco do Acre, lá também tem belas acreanas”. | |
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