OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

Os trópicos e a filosofia

A coisa mais complicada, quando se trata de especificar qual é a tarefa do filósofo, diz respeito à tentação irresistível de pressupor uma imagem de filósofo a partir da qual se possa inferir a sua missão. Mas como fica impossível ou pelo menos improvável essa imagem, ali onde ela deveria ser mais fácil, ou seja, na história da filosofia! Às vezes como interrogadores da natureza, os amantes da verdade, como os pré-socráticos, levaram essa interrogação tão longe que a própria natureza se mostrou insuficiente, incompleta, contraditória, pois, um após o outro, os filósofos tiveram de dizer que o seu predecessor (muitas vezes seu mestre) não tinha ido longe o bastante e tentaram ir além. Parmênides e Heráclito tentaram e foram mais longe que seus predecessores e talvez tenham delimitado, em linhas gerais, os dois caminhos que seriam seguidos, isoladamente ou misturados, durante todo o restante da história da filosofia no mundo grego.

Mas, na medida em que o cristianismo dominou o universo intelectual dito ocidental, se confundindo com o elã civilizatório da península européia (que se reconhecia antes como Cristandade e só depois como Europa), apenas um dos lados frutificou. Tanto que, numa visão retrospectiva, nos é quase inevitável considerar a filosofia nascendo com Sócrates (Parmênides ganharia dignidade apenas com Platão), se desenvolvendo com Platão e Aristóteles, ganhando força hegemônica com a patrística e a escolástica e se modificando na modernidade, mas sem perder nunca aquela filiação eleata que a caracteriza em todos esses momentos. Mas qual a atitude e a imagem que caracterizou toda essa linhagem? Zenão de Eléia, o discípulo de Parmênides, demonstra a atitude padrão: toda multiplicidade, toda a mudança, em suma, toda a experiência nada mais é do que ilusão, contradição. A tarefa do filósofo seria atingir uma outra esfera em que aquelas características não se dessem mais. Mesmo correntes mortalmente inimigas concordaram a esse respeito, ou seja, a sensibilidade, os sentidos são fonte de ilusão, de pecado, devem ser negados teoricamente, reformados moralmente... O conhecimento deve ser unívoco, as verdades eternas e, mesmo que se possa discordar sobre as bases para atingir esses objetivos, não se duvida sobre aquele diagnóstico. Filosofia e metafísica eram quase sinônimos.

Kant e Nietzsche podem ser considerados os pontos de viragem a esse respeito. Kant, por força de uma missão de não deixar cair toda a metafísica, a esteriliza de forma tão prolixa e cerimoniosa que os seus seguidores continuaram a defender as mesmas posições em outros termos. Nietzsche, pelo contrário, sintetiza e dá um sentido mais incisivo àquelas visões kantianas e, nesse sentido, levou as idéias de Kant até a negação de próprio Kant. Na tábua de categorias kantiana, um terceiro momento é incluído: nesse se desvela toda a negação ontológica do seu sistema. Entre o conceito e o mundo uma ruptura se deixa ver! Antes era o mesmo dizer “o homem não é mortal” e “o homem é não mortal”, pois o que importava era a negação: se apenas duas opções se apresentam (mortal ou imortal) dá no mesmo a forma da negação, ou seja, o terceiro excluído ou o princípio de contradição assim determinavam. Para Kant, contudo, existe uma diferença fundamental. A segunda afirmação, o homem é não mortal, coloca o homem dentre alguns seres, enquanto a primeira, o homem não é mortal, o exclui de uma categoria deixando indeterminado quanto a um novo pertencimento. O principal é que ele não vê o mundo como algo, na essência, substancial. Os conceitos podem abandonar toda a analogia topológica sem se deixar prender em algum outro mundo. Mas qual a importância disso? No limite, é possível dar aos conceitos uma liberdade verdadeiramente filosófica, em que, ao invés de eternizar as verdades de uma cultura em verdades para todos, é possível o abandono, numa visão européia, de “deus” e “homem”, ou seja, de uma certa imagem eterna de deus e homem.

Heráclito pôde, então, ser apreciado por Nietzsche, pelas vanguardas européias e pelos nietzscheanos franceses do pós-guerra. Aquela outra linha fez a Europa tender para um resfriamento setentrional pela lógica, pela áspera moral protestante da negação da alegria, do prazer, para uma descarnação e desvalorização de todo meridional, de todo tropical de tudo que tivesse sangue e paixão! Nietzsche diz que não existe nenhuma diferença de natureza entre instinto e razão. O que a razão ocidental, velha, ranzinza, medrosa de toda juventude, de todo entusiasmo queria era a afirmação do instinto de universalização de “seus instintos” cansados com outro nome (razão) e não a superação dos instintos: quem não pode mais amar, desejar, se alegrar com o sol, o fogo, quem não pode mais sonhar os sonhos de um começo, tinha de erigir como ideal de conhecimento a frieza de morte da identidade absoluta, do A=A como fim de toda cultura. Mas esse ideal se esgarçou! Nietzsche diz com respeito da música, e nós devemos entender como uma direção para toda a cultura, “eu sinto os ventos quentes do sul” ou “eu não consigo mais escutar uma musica que não possa ser acompanhada com a perna”, ou seja, que não tenha ritmo. Mas o que pretendia a razão setentrional, segundo Nietzsche? Desacreditar o “homem” tropical, a cultura tropical como inferno, ou como degeneração da cultura, em favor do “homem” gelado e médio...

Mestre em Filosofia
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Rio Branco-AC, 7 de maio de 2006
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