OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Quem é o melhor no futebol?

A imprensa parece descontrolada e cheia de razões, em busca de audiência, querendo atrair atenções e índices, em busca de sucesso e de notoriedade, atrás de afirmações e de vazão para as vaidades, para as opiniões mais apropriadas dos mais diversos jornalistas especializados em quase tudo, num país em que quase todos são os donos da verdade do futebol. A imprensa, dita assim, é uma abstração. E nós precisamos vê-la, tê-la em nós, senti-la, em sua enorme importância, que não pára de ser manchete. No fim das contas, dependendo do momento e da força motriz, a imprensa torna-se um apresentador de mesa-redonda, que também é locutor e comentarista, que também pode ser pastor e empresário, além de dirigente, técnico e diretor, nas horas em que não é político, com ou sem mandato e, é claro, sem deixar de ser torcedor e de ter consigo a razão, de quem também é dono.

Quem é o melhor no futebol? A imprensa é uma voz viva, dita, escrita, percebida. Não um ente inalcançável, por isto mesmo, um todo-poderoso abstrato. Seu todo-poderoso é solene e concreto, daí duro, da cabeça aos pés, durante qualquer jogo, até na prorrogação. É evidente que a imprensa é um poder, a regra é clara. Logo, como todos eles, mora ou estaciona no próprio exercício, que pede autoridade, que pede demonstração de força, de opinião. Isto mesmo é o poder, a capacidade de ser importante. É maravilhoso e divino.

É bem-sucedido o casamento entre imprensa e futebol. O futebol era paixão e fascínio, ainda é, mas agora com ele há tabelinhas que levam ao poder, jogadas que embolam o meio-campo das afirmações pessoais, dos objetivos corporativos, dos lucros associados, virou um peladão de interesses. O amor à camisa, agora é ao smoking. O jogo entre imprensa e futebol é profissional. É maravilha melhor que as outras, poder de maior alcance. O profissionalismo de imprensa e futebol não é brincadeira, mas tudo tem preço.

Peraltice faz o Ronaldinho Gaúcho com muitas bolas, por aí. Ele é sério fazendo arte, é impressionante fazendo graça, a bola é dele, ele é nosso. É inconfundível vê-lo jogar, é imprevisível e mágico, beleza rara. O Brasil é referência mundial no futebol, o Ronaldinho é tudo de bom, a imprensa sorri. Sorri e brinca, mas não como ele, com aquele agradável jeito moleque. A brincadeira da imprensa é outra. Quem é o melhor no futebol? Se você sabe, ligue para o número em sua tela, passe uma mensagem, seja fiel ao momento, a imprensa te convida, você paga. A caixinha precisa ficar cheia, mas não de surpresas.

Apaixonado por futebol e notório infiel aos amores passageiros (até a Argentina, alguma vez, já me conquistou), quase liguei para a zelosa imprensa. Você vai se dar bem, ela dizia, estamos possibilitando o exercício dessa devoção nacional, mundial. Era uma chamada para participar desta paixão, cega como todas as paixões, e nem precisava sair de casa para entrar no jogo, opinar, ganhar prêmios, além de participar, o que é mais importante. Ganhar é bom, competir é melhor, já sabemos. Quem é o melhor no futebol? Telefone ou passe mensagem, use a Internet, é tudo fácil e rápido, como o passar do tempo, por isso mesmo, o espetáculo da vida pede ídolos, a imprensa pede passagem, pedágio, pede sua participação na votação, entre na brincadeira, é tudo muito sério, o jogo está em andamento, o mundo da bola não pára, cada patrocinador o movimenta.

Do passado, uma notícia ou outra nos lembra Pelé, que foi ídolo, como disse uma manchete de ontem. E é símbolo, com muito a explorar, pois não deixou de movimentar a grande meta dos profissionais do jogo. Porém, no hoje, que os entendidos não vêem como passado, olhando de amanhã, há apenas os que são ídolos, há o momento para auferir, há o evento para vender. Tudo isso é notícia, mais uma, menos outra. É dinâmico o futebol, é ligeira e ágil a imprensa. Ídolo para cá, ídolo para lá, quase esqueci que esse Pelé, aquele Pelé, que parou faz tempo, fez mil e tantos gols, aconteceu e fez. Se a gente contar direitinho, com jeito brasileiro, só os gols de cabeça, será que não dariam para encarar todos os gols feitos por aquele cara, dentre tantos, que quis ser Pelé, ou por aquele outro que quer ser Pelé? Será? Minha emoção entrou em campo, uma torcida de sonhos poderá aplaudir.

Ele consagrou muitos companheiros, consagrou poucos clubes, quase um só. Deixou em desespero times e jogadores, aí pelo mundo. Seleções nos invejavam, nos temiam, quando ele jogava. E os títulos? Estaduais, regionais, títulos de importância nacional, os internacionais, os mundiais, em clube e na seleção, não conseguirei lembrar de tudo. Meu tempo pede passagem. Ia esquecendo daquele soco no ar. Mas não poderia. Não poderia esquecer, foram tantos, não foram? Aquele Pelé, se bem me lembro, subia muito alto, lá em cima, disputava e ganhava, era certeiro, na raça ou na classe, no jeito ou na força. Não foi vista impulsão como a dele, com tanto resultado objetivo, nesse mesmo futebol, que ainda é jogado, pra lá e pra cá, desde quando era mais paixão. Nem a imprensa foi capaz de apresentar algo parecido, mas sempre há tempo para tentar. Parecia que aquele Pelé parava no ar. Os caras subiam com ele e desciam primeiro. Não lembro bem se os outros subiam menos, apenas, ou se desciam mais rápido, inclusive. Era uma das muitas qualidades do Pelé. Há muitos craques hoje, muitos foram vistos depois dele, daquele Pelé, craques que já deixaram de jogar, outros que despontam. Não foi visto um como ele. Em pensamento, a bola o procurava, em pensamento, a bola o obedecia, sabia que na cabeça dele estava a realidade que a dominava, a realeza a quem servir. E as outras qualidades?

Sim, havia a velocidade, o deslocamento rápido, para qualquer lado, com ou sem a bola. Com a bola dominada era mais agradável de ver, tornava-se evidente o caso de envolvimento amoroso, havia um chamego, ela se entregava. A bola era tão dependente do xodó que, no mais das vezes, só deixava de estar aos pés dele para lhe dar o prazer do gol, mais um, mais tantos. Nessas situações, surgia a finta, pintava o drible, acontecia a trama, nascia o passe, iniciava a arrancada, partia a viagem em direção ao gol, mais dele do que da bola, mais da bola do que do momento. É que ela estava às ordens, com prazer. Havia também o fôlego, a disposição, o talento, a armação, a postura, havia muito. E havia o gol! Claro que não vou relatar nem descrever, sequer vou tentar mencionar algum gol do Pelé. Seria desleal com os outros gols, com os passes que foram para adiante. Cada um é peça do único conjunto, é contexto do espetáculo sempre em estréia, é enredo do romance original, do amor ideal. Não haveria fidelidade, a bola se sentiria traída. Não haveria olhos, nem na imprensa. Eu não saberia fantasiar o que não precisa de alegorias.

Mas não resisto a tudo. Que tal lembrar dos gols mais bonitos que não vi. Em 1970, na Copa do Mundo, foram três gols desses, que eu não vi, que ninguém viu, mas todo mundo quis ver. A bola não entrou, para dar mais o que falar. Num deles, Pelé chutou do meio-campo, contra a Tchecoslováquia, e a bola, após dançar no rumo do gol, desatinou. Noutro, o Rei cabeceou para baixo, no canto, e o goleiro inglês Gordon Banks fez a defesa da vida dele. No terceiro, a genialidade esteve no drible de corpo dado no goleiro Mazurkiewicz (Uruguai), não sei se como numa valsa ou num tango, até num samba, como mestre sala ou passista, indo o chute passar ao lado do salão, à beira da fantasia, deixando adereço inesquecível. A bola veio do Jairzinho, o Furacão, que fez sete gols em seis jogos, sem deixar de marcar em nenhum jogo do Brasil. Ninguém fez isso, em nenhuma copa do mundo, até hoje. Sequer o Pelé. E há muitos destaques.

Craques brasileiros, como Garrincha, Vavá, Edu (o mais novo em copas, com 16), Gérson, Tostão, Rivelino, Zico, Falcão, Careca, Romário, Bebeto, Rivaldo. Estrangeiros, como Maradona, um craque de mão-cheia (não resisti). Dos decisivos em copas, destaco Mário Kempes, da Argentina, em 1978. Ele foi articulador e craque. Foi campeão do mundo e artilheiro da copa, num time bom, que se tornava muito bom com a escalação da armação, da ditadura e da Fifa. A Argentina ganhou do Peru de quanto quis. Sabia do que precisava. Este jogo foi atrasado em horas, para ser conhecido o resultado do jogo do Brasil, no mesmo dia (3X1 na Polônia). O goleiro, ao mesmo tempo, peruano e argentino, teria dito que sua seleção “caiu de pé”. Eu digo que aquela copa já começou decidida. Contudo, o Kempes, sem meter o nariz onde não devia, jogou muito. Mais destaques: nenhum brasileiro fez tantos gols em uma só copa do mundo quanto Ronaldo, o Fenômeno (8, em 2002). Em 2006, se ele fizer um gol, passará Pelé, que em todas as copas fez doze, o que Ronaldo já tem (contando quatro na França, em 1998). Se fizer dois, empatará com Gerd Müller, da Alemanha, até agora o maior goleador em copas do mundo, somando mais de um evento. Se Ronaldo fizer três gols, será ele o maior goleador de mundiais. Ninguém chegou a 15 gols. Se o Brasil for campeão, Ronaldo e Cafu terão marcas personalíssimas. Aquele, em participações (desde os 17 anos), títulos e gols. Este, em jogos, em finais de copas e em títulos mundiais (inclusive clube).

Mas há o Pelé, aquele. Tenho notícias de que está fora de moda falar de ídolos passados. Fui subliminarmente avisado de que é preciso comparar e eleger mais ídolos, na busca de renovar aquele, aquilo tudo e todo o jogo. Vou ficando por aqui. Antes, quero lembrar duas coisas. Uma: a bola me disse que era mesmo companheira, mulher, esposa e amante daquele Pelé. Ela disse isso de longe, numa daquelas vezes em que ele a dominou no peito e ela ficou ali, num prazer incomparável, grudada, se esfregando, quase parada, cheia de amor pra dar. Outra coisa: eu nunca vi o Pelé, ‘ao vivo’. Mas não é necessário tê-lo visto jogar, estando dentro do estádio, para saber que ele foi e é incomparável.

Assim, não vou passar mensagem nenhuma, não vou telefonar e nem participar de votações, vou ignorar essa bobagem. E continuar tendo prazer em ver um Ronaldinho fazer arte e peraltices, em ver outro Ronaldinho fazer gols e alegrias, calando quem já deveria ser calado. Quem é o melhor no futebol? Não vou nem ligar. Dizer a palavra imprensa é apenas dizer uma abstração. Por isso, nós mesmos temos que identificar as cabeças por onde devem passar as faixas e os grampos (campeões da conversa mole, por exemplo), com os respectivos títulos. Isso faz parte da brincadeira geral e dribla a imbatível seriedade que a imprensa diz ter. Sobre o melhor no futebol, continuo torcendo para que Ronaldinho Gaúcho seja eleito outras várias vezes pela Fifa e pelo show, ele é o cara. E não vou ligar para a comparação vendida pela televisão, o melhor no futebol será sempre brasileiro.

 

 
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Rio Branco-AC, 7 de maio de 2006
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