| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
| Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias | |
Francisco Pianko, Secretário dos Povos Indígenas (Parte II) |
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Dando prosseguimento à entrevista iniciada no domingo passado, o Secretário dos Povos Indígenas do Acre, Francisco Pianko, hoje conta sobre a história recente dos Ashaninka do rio Amônia. Desde a luta pela demarcação da terra à exploração madeireira, foram muitos embates travados nos últimos vinte anos. Em meio a contextos tão conflituosos, é surpreendente como os Ashaninka deram a volta por cima. A Apiwtxa tornou-se referência de qualidade de vida e exemplo de sociedade indígena para o Acre e para todo o Brasil. Abaixo, Francisco nos conta o segredo desse sucesso. Terri: Como foi o processo de demarcação da terra? Foram várias idas a Brasília e muitas denúncias, contra traficantes e pessoas que transitavam naquela faixa de fronteira. Outra denúncia muito forte foi a de posseiros que moravam na nossa terra e que estavam convidando as famílias ashaninka a plantar coca para produzir cocaína. Pesou muito quando fizemos essas denúncias, porque a gente não sabia até onde elas iam repercutir. O Macêdo até ia sendo assassinado lá em Thaumaturgo. Uma vez, a Polícia Federal teve que levar a gente de helicóptero, de Cruzeiro do Sul até a aldeia, pra gente não correr risco de ser pego em Thaumaturgo. Era um clima muito pesado. A gente começa a falar agora e lembra de muitas coisas que passou. Para demarcar a terra, tinha que indenizar os posseiros. O meu pai e o Moisés, assessorados pela Margareth e o Núcleo de Direitos Indígenas [NDI - atual ISA], foram a uma audiência com o presidente da Funai e ele falou que não tinha dinheiro. O Moisés disse: “Olha, nós não temos mais clima de morar com o pessoal lá. Fizemos uma denúncia muito séria e agora vamos ter que tirar.” Até que a Funai conseguiu o dinheiro e indenizou o pessoal. Mas tinha a questão da demarcação, e o presidente também disse que não tinha dinheiro. Fomos atrás e conseguimos trinta mil dólares, da Overseas Development Agency, da Inglaterra, e da WWF. Então o presidente autorizou e, em 1992, a Funai demarcou a nossa terra. Foi muita briga, não dava pra ter sido de outro jeito; se fosse esperar pela Funai, a gente não tinha demarcado. Terri: O Amônia era conhecido como o “rio da madeira”. Houve muita exploração, inclusive por parte da empresa do Orleir Cameli, que vocês denunciaram na justiça. Como foi isto? O meu pai conta que você encontrava madeira na várzea dos rios, em todo canto. Era muito comum encontrar árvores de agoano e cedro dentro do rio. Mas as pessoas foram cortando e as madeiras foram ficando mais distantes. Imagina, vinte, trinta anos de trabalho, o pessoal todo ano tirando madeira... Eu ainda acompanhei. Lá em Thaumaturgo, se dizia que eram dois rios com produtos diferentes: no Tejo era a borracha e no Amônia a madeira. O pessoal do Tejo era muito orgulhoso de ser seringueiro. Eles mandavam nos novenários na Vila e ficavam na rua gritando: “Eu sou seringueiro do Tejo!”. No Amônia era a mesma coisa, “Somos madeireiros do Amônia!”, tinham muito orgulho de ser madeireiros. E o volume de madeira era grande mesmo, foi crescendo o número de empresas que compravam madeira dali e acelerou o processo de exploração. Em 1985, o Abraão Cândido mandou tombar uma área de mais de 500 árvores de mogno no rio Amônia. É uma faixa bem grande na terra ashaninka, entre o igarapé Revoltoso e o Amoninha. A segunda vez foi em 1987, quando a empresa Marmude Cameli entrou com as máquinas. Pra tentar disfarçar, o Orleir disse que era a mesma área, que estava tirando a madeira do Abraão que estava tombada. Mas não foi, ele nem chegou nessa área. Foi dessa vez que ele foi pego pelo Macêdo. É muita violência entrar com máquinas numa área como aquela. Ficaram lá uns 15 dias, trabalhando dia e noite. Nós denunciamos na Procuradoria da República, que abriu uma ação civil pública na Justiça Federal. O juiz nos deu ganho de causa, mas o Cameli e o Abrahão recorreram. Falta o juiz dar continuidade ao processo. A ação é de mais de dez milhões. E pra completar, agora, os madeireiros peruanos estão entrando na última faixa de terra virgem. Nossa área vem sendo muito explorada. Ingrid: No começo, os Ashaninka trabalharam com madeira. Hoje, vocês vêm lutando contra a exploração desse recurso. Como foi essa mudança de mentalidade? Eu vi o meu pai muito envolvido com essa questão da madeira, porque, pra comprar alguma coisa, os patrões é que diziam o que tinha que produzir. Não tinha escolha, tinha que trabalhar pros patrões. Nosso povo trabalhou pros patrões enquanto as regras eram essas. Não era uma cultura, tradição ashaninka, trabalhar com madeira. Enquanto um Ashaninka tirava uma árvore, cortava no machado, de forma bem artesanal, uma família de brancos tirava de trinta a quarenta árvores, porque tinha outra visão. Na primeira oportunidade que tivemos de sair da mão dos patrões, a coisa mudou totalmente. Porque o que interessa mesmo aos Ashaninka é ter um produto pra trocar. Se hoje temos condições de escolher o que fazer, a gente vai tirar do nosso conhecimento. As trocas, hoje, são baseadas no nosso artesanato, na arte ashaninka. Trabalhamos muito para que o nosso produto não fosse um produto qualquer, que carregasse com ele toda a nossa história e que pudesse ser visto como um produto associado a um projeto. Um projeto ecológico, da preservação, do cuidado. Eu me lembro que em 1989, 1990, a gente vendia o nosso artesanato, um txoshiki, por exemplo, por R$ 15. Quem pagava mais era o Txai Terri. Depois, a gente fez subir o preço e, hoje, o mesmo colar, a gente vende por R$ 150, R$ 200. Uma kusma, que a gente ficava oferecendo, e as pessoas diziam “Não, está muito caro”, pagavam no máximo R$ 40. Agora, querem comprar por R$ 400, R$ 500 e ninguém tem pra vender. Porque naquele tempo, você tirava a kusma do seu corpo, você não entendia o valor que isto tinha, e ficava passando necessidade pra muitas vezes trocar por uma coisa pequena. Hoje, temos o entendimento que uma peça dessas não é uma peça qualquer, e que ela não pode estar disponível no mercado só como um produto. Hoje, a busca pela madeira é porque ela tem um valor de mercado muito alto e ela está disponível na floresta. As pessoas passam por cima de qualquer coisa, de qualquer legislação, para ter esse produto. Não respeitam limites, não respeitam fronteiras, porque têm outra compreensão sobre esse produto. Não é pela necessidade, é pra acumular, pra ampliar seu poder, o poder de ser dono. Eles estão transformando a madeira em dinheiro. Não estão transformando a madeira como a gente fazia. É diferente. E é uma coisa que não tem fim. Eu tenho acompanhado esse processo todo. Para frear isso, vamos ter que trabalhar em duas frentes: uma é a força da justiça, a outra é a questão da consciência. Porque tirar madeira não é cultura, é negócio. Eles estão usando a madeira como um produto e vão trabalhar até esgotar ele. Não estão preocupados com o futuro, estão preocupados em achar o próximo produto quando este se acabar. Então, a questão da madeira é essa, para os patrões que estão por detrás. E aqueles que estão trabalhando na prática, essas pessoas que são usadas como mão de obra para essa exploração, são pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ter outra opção. Eles ainda estão fazendo muito pelos outros, como a gente fazia no passado. Ingrid: A Apiwtxa é uma das maiores aldeias do Acre. Os Ashaninka gostam de morar todos juntos? O nome “Apiwtxa” significa “vamos nos juntar”, “todos juntos”. Eu vejo que isso depende de como a coisa é conduzida. Tem que saber por que é importante morar junto. E tem que ser feito um trabalho, não adianta só querer trazer o pessoal pra morar junto. O que acontece na Apiwtxa é o seguinte: tem uma área de 87.200 hectares de terra e nós temos uma porta, que dá acesso tanto pra quem vai sair como para quem vai chegar. A Apiwtxa está localizada em um ponto estratégico do rio Amônia. Também quanto à estrutura é mais fácil, porque lá temos escola, cooperativa, rádio, transporte coletivo [barco]. E para nós, toda a região do alto rio Amônia, até as fronteiras, é uma área de visitação das famílias. Lá, elas vão caçar, pescar, fazer suas andanças. Mas elas não precisam morar lá. Porque se forem morar lá, elas não vão participar do processo comunitário, cuidar da terra que têm e deixar as caças, o rio, terem a tranqüilidade que precisam para se reproduzir, para recompor aquilo que está sendo tirado. É por isso que a gente tentou trazer todo mundo pra Apiwtxa, pra poder cuidar e usar o nosso território de maneira organizada. O grande trabalho que a gente tem feito nos últimos tempos é trazer facilidades para as famílias que estão na Apiwtxa. Muitas vezes, as pessoas tombam as palheiras que estão próximas e elas vão se acabando. Mas, se você faz o contrário - ao invés de tombar, maneja, traz as espécies que usa no dia a dia pra mais perto -, você começa a facilitar e melhorar a sua qualidade de vida. E a tua roça é um complemento. Você não vive só dela, vive de vários outros recursos, então você traz eles mais pra perto. Esse é um projeto nosso: muitas frutas, sementes, ervas medicinais – tem que estar tudo bem próximo de nós. Você quer arrancar uma envira pra assar na folha, está ali. Como era antes? Você cortava todas as sororocas e quando precisava de uma folha dela pra assar alguma coisa, tinha que ir buscar lá no meio da mata. Por isso, o que a gente fez foi trazer tudo pra perto: você quer, está ali. Uma outra coisa que está associada a esse projeto é a questão do tempo. Qualidade de vida não é levar a sua vida toda trabalhando, se na tua cozinha não tem fartura. Qualidade de vida, no projeto nosso, é você ter tempo, você tem que ter tempo. Se você ficar uma semana sem trabalhar na sua roça, e fizer outras atividades, buscar uma caça, tomar caiçuma, ou outra coisa, que isto não te prejudique. Tudo o que você quiser fazer, tudo que você fizer, que esteja nesse contexto da qualidade de vida. Muitas vezes você acaba escravo de uma atividade, de um trabalho, tentando melhorar sua qualidade de vida, mas ao mesmo tempo você está se sufocando cada vez mais. E há uma cobrança muito grande, que é natural. Isto é característico do povo Ashaninka: você tem que ter uma estrutura, tem que ter uma casa pra receber quem chegar, ter lugar pra ele dormir e comida pra ele comer. Se não tiver isso, você é muito mal visto pela comunidade e não tem nem como ir à casa de alguém. Por isso, você tem que se preparar pra ter essa estrutura, pra ficar à vontade, porque isto é que faz o equilíbrio. Qualidade de vida não é só você ter pra você, é ter condições de atender os outros. Então, quando você chega na casa de qualquer um, a primeira coisa que ele faz é te receber bem, te oferecer caiçuma, uma fruta, comida. Se ele não tem para oferecer, tem alguma coisa errada. Quando tem essa interação e essa vigilância permanente, todo mundo se preocupa com isso. A Apiwtxa é uma comunidade grande e não se vê briga por conta disso, porque há um cuidado e uma orientação permanentes sobre o comportamento, sobre o respeito. Eu acho que o que tem sustentado a Apiwtxa é a discussão que acontece dentro da comunidade. Se é uma comunidade com um número bastante grande de pessoas, é porque há uma compreensão de que estamos lá por conta de um projeto bem maior. Terri: Como diz o antropólogo José Pimenta, no verbete da enciclopédia virtual do ISA, os Ashaninka “descobriram” o rumo da sustentabilidade e hoje são “um exemplo muito bem sucedido da nova orientação política do desenvolvimento amazônico”. Como você vê isso? O contato que os Ashaninka travaram com outras sociedades sempre foi por conta dessa relação de troca. Não vejo outra necessidade para as relações com outras sociedades, sejam indígenas, ou não. Antes do contato com os brancos, já havia trocas com outras sociedades indígenas: se levava uma coisa e se trazia outra. Isto se mantém até hoje. A partir do contato com os brancos, passamos a conhecer outros produtos, se criaram novas necessidades, mas era o mercado que ditava os produtos para os Ashaninka. E a gente obedecia a esse mercado, de acordo com a sua necessidade, como dei o exemplo da madeira. Quando acabou a madeira, não deixamos de adquirir as coisas, mas elas passaram a ser obtidas pela troca do artesanato com um mercado que trabalhamos para construir. Então talvez não tenha sido uma “descoberta”, é um jeito que os Ashaninka têm de se relacionar com outras sociedades. Quando o tempo vai passando, você começa a descobrir que existem outras necessidades também. Uma delas surge a partir do momento em que você tem uma terra definida, e você precisa se organizar naquilo que você já tem garantido. Nós temos muito claro que algumas coisas estão sob o nosso controle e outras não. Por exemplo, para a gestão desse espaço e dos recursos que estão ali, nós temos a capacidade de fazer adaptações, mudanças internas, no sentido de garantir a sustentabilidade e o futuro. E nós temos a capacidade de entender que da maneira que tratávamos os nossos recursos antes, por mais que fosse da forma tradicional, eles iriam se acabar. Nós temos que ter, hoje, a responsabilidade de fazer essa mudança, no sentido de não perder o tradicional, mas de cuidar do nosso patrimônio de forma diferente. Uma outra questão muito forte que a gente tem procurado colocar é a das relações políticas com as outras instituições. A gente vê que é importante contar com a prefeitura, com as comunidades do entorno, com as organizações da reserva extrativista ou com outras comunidades indígenas. É importante contar com o governo do estado, com o governo federal, e com outras instituições que não são de governo. Se você olhar, a Apiwtxa conquistou um espaço muito grande, porque a luta dos Ashaninka está em construir e manter essas alianças. É porque tem coisas que não podem ser resolvidas só pela comunidade, temos que estar inseridos num projeto maior, projeto que compreenda a bacia do Juruá, a bacia do Ucayali, outras sociedades, a Amazônia inteira. A gente quer estar dentro dessa discussão. Porque é essa discussão que talvez garanta à Apiwtxa um futuro melhor, mais longo. Porque não basta a gente estar bem lá na Apiwtxa. A gente poderia muito bem dizer: “Não queremos mais saber de nada, vamos agora só viver nossa vida aqui”. Mas a gente não pode mais viver assim. Porque qual é a segurança que a gente tem de que as outras sociedades não vão interferir nisso? Se todas estivessem fazendo o que a Apiwtxa está fazendo, eu acho que aí a gente estaria bem. Se os problemas da Apiwtxa se resumissem às questões internas, a gente não teria mais problema pra resolver, porque elas estão sob controle. Agora, o problema é dessa outra ordem, de um plano mais amplo, envolvendo várias sociedades. Ingrid: Sabemos que a Apiwtxa é uma referência no Acre, pros Ashaninka do Peru e para todo o Brasil. Gostaríamos de saber a que você atribui esse sucesso. Eu acho que é uma coisa que vem de muito longe. Só está dando certo porque nos voltamos para o nosso mundo. Se nós fossemos entrar na ilusão de ter que ganhar dinheiro pra resolver a nossa vida, ficaríamos numa situação muito difícil, porque entraríamos num mundo que não dominamos. O sistema ia engolir a gente de uma tal forma que talvez a gente não pudesse mais voltar. Eu acho que essa foi a base de tudo, porque o sistema, a forma indígena, é muito mais avançado pra essa relação de negócios, do que qualquer outro que eu conheço. Você tem necessidades? Tem, então troca. Não podemos pensar em fazer dinheiro para então comprar o que quiser. Sei que essa é a forma que existe hoje, mas nós não entramos nessa. Eu me lembro muito bem que a primeira coisa que a gente fez foi trabalhar pra sair disso. Na época, eu estava à frente da nossa cooperativa, eu conhecia muito bem. Eu vejo até hoje pessoas que trabalham o dia todinho, lá próximo à nossa terra, pra ganhar uma diária de R$ 15. Ele tem quatro ou cinco filhos em casa e o dinheiro que ganha não dá pra comprar comida pra eles. Se ele colocasse o seu dia no roçado, plantando, fazendo suas próprias coisas, teria tudo aquilo que precisa pra sustentar os seus filhos. Primeiro isso, depois, se ele quiser dar uma diária, ou trocar alguma coisa, talvez a vida dele tivesse muito mais condições do que ficar correndo atrás de dinheiro. Nós, Ashaninka, trabalhamos muito pra melhorar de vida a partir do tempo que temos pra nós. Do tempo pra gente sentar, do tempo pra gente viver em família, do tempo pra poder conversar, pra tomar nosso piarentsi [caiçuma]... Porque se a gente tivesse entendido desenvolvimento como o aumento do volume de entrada de riqueza, de recursos de fora da comunidade, talvez a gente não tivesse avançado. Não vejo a comunidade pensar em desenvolvimento se não for a partir de um outro olhar, de entender que tem que ter muitas frutas, muito peixe, muita caça, aproximar a fartura das casas, ter áreas onde possa ter as suas andanças, ensinamentos... É um mundo totalmente diferente. Eu acho que se a Amazônia pudesse adotar isso como base, como plano de desenvolvimento, seria o ideal. Mas, o que eu vejo é que estão procurando outras coisas. Estão procurando resolver seus problemas com dinheiro, aí dá o seu tempo pra querer fazer dinheiro; pra querer organizar a sua vida, explora determinado recurso e bota no mercado. Eu acho que esse é um projeto muito atrasado, de querer fazer dinheiro pra arrumar a sua vida dentro da floresta. |
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