OPINIÃO
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Vitor Hugo Soares *  

Mônica Veloso e Cristine Keller, além das coincidências

A Playboy prepara-se para abafar a banca semana que vem. Os editores cercam de expectativa máxima a revista que traz as fotos de Mônica Veloso, recheio fino de banquete para muitos talheres, pivô do escândalo sexual, político e moral que mexe com o País há meses, sem data ainda para o capítulo final. O aperitivo de imagens servido na divulgação pode levar a comparações apressadas. Por exemplo: da jornalista com a atriz Brigitte Bardot no esplendor do filme “E Deus criou a mulher”, de Roger Vadim.

Na foto de J.R. Duran em que “o pitéu moreno de Brasília” aparece sensualmente com as vergonhas protegidas pelo encosto de uma cadeira, no entanto, o que evidencia é uma notável semelhança da brasileira com outra morena, tão sedutora quanto polêmica. Refiro-me à clássica foto da britânica Cristine Keller, paixão de perdição do ex-parlamentar, John Profumo, Ministro da Defesa da Grã-Bretanha nos anos 60, época do caso que abalou os alicerces do governo e do Parlamento inglês, auge da chamada “guerra fria”.

Mais que simples coincidência de pose – no caso de não ser uma sugestão deliberada -, há fatos, além de outras imagens e situações que assemelham os dois casos separados no espaço por um oceano e, no tempo, por mais de três décadas. A publicação antecipada dessa foto acende para toda uma geração, frisson tão eloqüente quanto as fitas de Bardot. Explosiva combinação de sexo, traição e segurança nacional, o “Caso Profumo” foi algo assim “como uma perda coletiva da inocência” naqueles anos loucos.

Nas livrarias de Londres e Madri, pude verificar ainda no primeiro semestre deste ano, a enorme quantidade de livros e publicações disponíveis sobre o episódio e seu efeito devastador sobre o governo e a política na Inglaterra. Alguns títulos retornavam aos pontos de destaque nas estantes, enquanto o tema gerava novas e apimentadas pautas dos tablóides e o filme “Scandal” era relançado em algumas salas. A morte do ex-ministro Profumo, ocorrida no hospital londrino de Chelsea e Westminster, em março do ano passado, depois de um ataque de apoplexia, fazia a febre recrudescer.

Cristine, ex-dançarina de streep-tease, não chegou a posar nua para a Playboy. Mas, em sua autobiografia “The Truth at Last:My Story” (“A verdade afinal: minha história”), que vendeu horrores, a morena britânica expõe suas intimidades com mais riqueza de detalhes que a repórter do Planalto na revista masculina. Só pela venda de sua história ao sensacionalista “News of The World”, Cristine cobrou 23 mil libras esterlinas, em 2001.

Mas ela, além de dormir com John Profumo, freqüentava a cama do espião russo da KGB , Eugene Ivanov, que vivia em Londres como agregado naval soviético. No livro e no depoimento ao tablóide Cristine conta tudo que rolava nos bastidores da política e das festas da alta sociedade e celebridades do reino de Elizabeth, que a ex-striper de cabaré no alegre Soho londrino freqüentava ao lado do poderoso ministro, casado com Valerie Hobson , estrela do cinema inglês.

Ministro da Guerra do governo conservador de Harold Macmillan, na fase de máxima tensão nuclear com a União Soviética, Profumo teve suas estripulias extramatrimoniais expostas pelos jornais sensacionalistas. Foi acusado também pelos tradicionais diários britânicos de pôr em perigo a segurança da Inglaterra. Prolongado, o escândalo fez estragos irreparáveis nas fileiras conservadoras do governo de Macmillan, que, a exemplo de Profumo, foi também obrigado a renunciar em favor de Sir Alec Douglas-Home. A desgraça se completaria um ano mais tarde: nas eleições de 1964, o Partido Trabalhista, encabeçado por Harold Wilson, derrotava os “tories” e retomava o poder em Downing Street.

Para os europeus em geral, e os britânicos em particular, a vida de Profumo “é uma amálgama de intrigas”. Amálgama e intriga, por sinal, são (coincidentemente?) duas das expressões preferidas do senador Renan Calheiros, do PMDB, ex-amante de Mônica e presidente do Congresso brasileiro. Depois de formar-se em Oxford, com apenas 25 anos de idade o ambicioso John aportou no parlamento de Westminster como deputado. Em 1960, como ministro, alcançou posto estratégico e crucial do governo Macmillan.

A carreira de Profumo, que contava com os favores do palácio de Buckingham e apontava para o alto até Cristine Keller surgir, se esfumaçou. Coincidentemente, “homem e político de atitudes sedutoras” foi expressão usada por Mônica Veloso para definir Renan em um bate-papo no telefone celular com leitores da Playboy esta semana.

Bem, o destino de Profumo já se sabe. A ex-atriz Valerie, sua pacata e fiel esposa, vive reclusa e discretamente como sempre em uma propriedade nos arredores de Londres. A esposa do senador presidente do Congresso segue, discreta e fiel, ao lado do marido alagoano. Cristine, atualmente com 65 anos e muito dinheiro na bolsa, mudou de nome e se retirou para um departamento ao norte de Londres. Mônica, está prestes a transformar-se na nova musa da Playboy e da temporada de verão no Brasil.

O futuro de Renan Calheiros segue como a incógnita que deve manter a audiência deste novelo de coincidências.

* Jornalista.

 
 
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Rio Branco-AC, 7 de outubro de 2007
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