OPINIÃO
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Rodrigo César *

 

Anestesia geral

Ano após ano, vemos e revemos delitos e atrocidades. As famosas retrospectivas dos telejornais, veiculadas todos os dias 31 de dezembro, refrescam a memória dos anestesiados. Dia após dia, vemos e revemos crimes e tragédias. Os grandes meios de comunicação são ora anestésicos ora doses de adrenalina, a depender de suas capacidades (vontades) de metamorfosearem-se, adequando-se à situação de acordo com seus interesses.

Homeopaticamente, a violência, seja ela veiculada sistematicamente ou vivenciada cotidianamente, nos enrijece. Quanto mais nos acostumamos, mais a banalizamos. A “comoção” nos acomete somente quando deparados com caso semelhante ao recente assassinato do menino João Hélio, de seis anos. Comentar os métodos adotados pelos praticantes do crime, repetindo o que já é sabido, serviria somente para dar espaço, mais uma vez, à violência. É preferível esquecer.

No entanto, é também a memória (ou a falta dela) que, ao ser solicitada para agir e guardar estas informações indesejáveis em baús bem fechados, nos deixa anestesiados.

Relembremos, então. Os casos da Polícia Militar paulista em Diadema, a fluminense na Candelária ou a paraense em Eldorado dos Carajás não suscitaram uma discussão nacional a respeito da prática do aparelho repressor do Estado. Quando o índio pataxó foi queimado por divertimento em Brasília não houve “comoção nacional” ao ponto de se refletir nacionalmente sobre a crise da segurança pública. Menos ainda na ocasião quando uma jovem de classe média paulista arquitetou a morte dos pais enquanto dormiam. O que dizer sobre o menino de 12 anos que, entorpecido, matou a facadas a avó no Rio de Janeiro recentemente?

Casos são selecionados pela mídia para gerar uma “comoção nacional”. Como disse Antônio Carlos Queiroz, em coluna da Agência Carta Maior “Nesses dias de “comoção nacional”, espalha-se de novo o sentimento casuístico de que o endurecimento das penas salvará o país de novas “comoções nacionais””.

Ultimamente, temos escutado comentários elogiosos à lei do “olho por olho, dente por dente”. A apologia à barbárie, provocada, não ao acaso, por ela própria, nos leva a uma única conclusão: a mesma sociedade que detesta a violência é sua patrocinadora, seja de modo deliberado - defendendo a redução da maioridade penal, a pena de morte ou até mesmo a tortura - ou inconsciente - anestesiando-se e enrijecendo-se diariamente ou alimentando a máquina de gerar criminosos.

Aumentar a repressão e a coerção, apesar de acalentar momentaneamente os ansiosos por vingança é, na verdade, uma medida classicamente conservadora: conserva as diretrizes dos métodos equivocados que, por sinal, não dão resultado. Se assim o fosse o envolvimento de jovens com o crime nos países que têm reduzida a maioridade penal seria diminuído, o que não procede. Vale lembrar que, segundo pesquisas, crianças, adolescentes e jovens são as principais vítimas da violência no Brasil, enquanto, em São Paulo, os adolescentes são responsáveis por somente 1% dos homicídios e por menos de 4% do total de crimes praticados, desfazendo o mito de que são os principais responsáveis pela criminalidade (Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo).

O cerne do problema reside no fato de que, sem perspectivas, sem esperanças, sem futuro e com muita descrença na educação e no trabalho, crianças e jovens são cooptados pela tal máquina; tão vítimas quanto os acometidos pela criminalidade. Segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), o índice de desocupação juvenil chega a 45,5%. Somado a isso, a violência real e a virtual se confundem e são, sistemática e naturalmente, difundidas pelos noticiários e pelos jogos eletrônicos. A violência já não causa estranheza nos pequenos. Não há legislação penal que dê conta de cessar toda esta engrenagem. A redução da maioridade penal apenas reforça o sistema que cria tais distorções.

A sanha por vingança como motivação que nos leva a tomar atitudes representa a submissão à lógica já estabelecida, não sua reversão. Seguindo este pensamento, seriam necessários inúmeros (infinitos) meninos, meninas, jovens, índios, pais, avós, familiares e desconhecidos para gerar comoção suficiente que reverta o trajeto da humanidade em direção à autofagia.

E o que intriga é perceber que mesmo depois de recobrada a memória ou passado o efeito da adrenalina, os ditos cidadãos de bem permanecem imóveis, apesar de ainda preocupados e estarrecidos.

Mesmo cientes de que não é a falta de memória, permanecem inexplicáveis os fatores perversos que promovem a nossa paradoxal convivência pacífica com a violência. Chegará o dia em que a revolta será inevitável e não será fruto do estímulo midiático, mas da insustentabilidade da ditadura do capital sobre a vida, da propriedade privada sobre socialização, da violência sobre a paz, do ódio sobre o amor. Trabalhemos para que ela não venha tarde demais e seja a revolução socialista.

* Diretor de Biomédicas da UNE e militante da JPT-RJ

 

 
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Rio Branco-AC, 8 de março de 2007
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