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O homem e a mulher brasileira por Mirian Goldeberg |
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Ela uma linguagem objetiva, atual, ela trata a questão de gênero abordando diversos temas polêmicos com clareza e simplicidade. Mirian Goldenberg mostrou em sua visita ontem a Rio Branco, onde participou do Projeto Sempre Um Papo, por que é considerada uma das mais respeitadas antropólogas do país. Além do bate-papo com o público, ela participou da sessão solene na Assembléia Legislativa, em homenagem à mulher, onde ouviu e falou para as mulheres acreana, pela tarde se reuniu com secretariado e funcionários do Governo e Prefeitura na Assessoria da Mulher. Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia e do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ), além de doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ), Mirian Goldenberg é a décima primeira convidada do Projeto Sempre Um Papo. A antropóloga que estuda desde sexualidade, culto ao corpo, normalidade aos novos desejos, fala ao Página 20 sobre o tema do seu livro lançado recentemente, “Infiel: notas de uma antropóloga”. Confira! O livro “Infiel: Notas de uma antropóloga” faz uma análise da vida sexual e conjugal do brasileiro. De modo geral, a que conclusões você chegou? As principais conclusões estão relacionadas às diferenças entre homens e mulheres com relação à infidelidade, sexualidade e expectativas sobre o casamento. O mais interessante foi comparar a visão masculina e a feminina sobre a traição. Na Outra escutei apenas as mulheres, as amantes. Com o aprofundamento do meu interesse, senti necessidade de também ouvir os homens, com o livro, escuto também a mulher que trai, assim, a obra pode ser vista como um estudo de gênero comparativo sobre a traição. Minha proposta é reunir diferentes vozes e perspectivas sobre a questão da infidelidade. Mas não só, também comparo as visões sobre casamento, sexualidade, amor e realizei uma pesquisa quantitativa sobre o tema. Até a década de 90, meus estudos eram qualitativos. A combinação das abordagens quali e quanti me deu uma visão completamente nova sobre o tema. E o que achou mais interessante? Foi perceber que o problema da traição feminina não é moral: a mulher sofre muito por trair porque ela não quer se dividir; Os homens são socializados para separar a mulher da casa da mulher da rua, a esposa da puta etc. Já as mulheres querem um homem que seja TUDO: amante, marido, amigo, pai, filho, parceiro. Não são socializadas para se dividir. O caso de Mônica que costura o livro mostra bem esse sofrimento feminino e o desejo de encontrar um homem que seja TUDO. Os sofrimentos e conflitos são enormes por parte de quem trai ou de quem é traído. Tento mostrar esse sofrimento no livro, porque a infidelidade permanece um drama apesar de tantas mudanças nas relações? Porque existe a fantasia de ser único, especial, completar o parceiro. A traição é um drama porque se descobre que não se é tão especial e único como se deseja. É o fim de uma fantasia romântica, fundamental nas relações amorosas. Também mostro os conflitos e a dor de quem trai, principalmente com o caso de Mônica, mas destaco que o conflito maior é por se sentir dividida e não por culpa ou arrependimento. A divisão, mais feminina do que masculina, provoca ambigüidades e sofrimentos. Homens e mulheres encaram a traição de formas diferentes? Minha análise se concentra na idéia de que os comportamentos femininos e masculinos estão cada vez mais próximos. O que mostra que, na prática, não há tantas distinções de gênero. No entanto, os discursos masculinos e femininos reforçam as diferenças de gênero que não são tão grandes assim. O que aponto no livro é que o discurso permanece o mesmo, os comportamentos mudaram muito. No livro, analiso basicamente o comportamento sexual (número de parceiros e infidelidade) e as expectativas com relação ao casamento. Nesses dois pontos, os comportamentos estão cada vez mais próximos, mas os discursos são extremamente diferentes. E quais os problemas que eles vivem no casamento e como os enfrentam? Os homens apontam, basicamente, ciúmes, infidelidade e falta de compreensão. Já as mulheres apontam centenas de faltas (de amor, de carinho, de amizade, de diálogo, de cumplicidade, de sexo, de dinheiro, de romance, de glamour). Algumas ainda apontam falta de TUDO! Assim, exigem muito mais do casamento e, portanto, mostram-se permanentemente insatisfeitas. São elas que pedem mais o divórcio, em função das insatisfações. Os homens se dividem em, basicamente, monogâmicos e poligâmicos. Mas assumem a postura de que a traição masculina é uma resposta à determinada natureza. Para os monogâmicos, essa natureza PODE e DEVE ser controlada. Já os poligâmicos consideram que a verdadeira traição seria não respeitar à própria natureza. Então, o que mudou basicamente foi o comportamento feminino? Sim. As mulheres assumem que traem, quase tanto quanto os homens. 60% dos meus pesquisados afirmaram que traíram, 47 % das mulheres afirmaram o mesmo. No entanto, o discurso feminino continua sendo o de vítima da dominação masculina. As mulheres culpam seus maridos quando são infiéis. Elas dizem que traem por vingança ou porque eles não são românticos, atenciosos, amigos, companheiros etc. Na traição, o homem sempre é o culpado. Quando eles traem, em função de uma “natureza poligâmica”. Quando elas traem, em função das inúmeras faltas masculinas. Hoje, as mulheres são mais livres, independentes, muito mais informadas e, principalmente, exigentes. Com certeza, numericamente, as mulheres traem mais, são menos submissas e aceitam menos o desrespeito e a violência masculina. Cada vez mais as brasileiras são livres, apesar de adotaram um discurso de submissão. O que mudou na relação entre os casais? A infidelidade ainda é um tabu. Homens e mulheres desejam que seus parceiros sejam fiéis, mesmo quando traem. Chamo de fidelidade paradoxal esse desejo por fidelidade mesmo quando se é infiel, as pessoas querem acreditar na fidelidade, mesmo sabendo que ela algo praticamente impossível nos arranjos conjugais atuais.Até recentemente, era comum ter uma amante por muitos anos, um segundo casamento. Com a aprovação do divórcio e uma maior independência econômica por parte das mulheres é mais difícil a situação de um homem ter a esposa e a filial. As mulheres, as duas, exigem muito mais e aceitam com menos passividade essa situação. Também a descoberta da traição provoca divórcios, indesejados por muitos homens. |
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