ESPECIAL
   ENTREVISTA

Tião Maia

Delorgem Campos

O deputado que admite ainda ter sonhos

Leonildo RosasAos 50 anos de idade, três filhos e dois netos, o deputado estadual Delorgem Campos, no primeiro mandato pelo PSB, admite que é um sonhador. Seu maior sonho, como diz, é ver melhorado no Brasil o sistema educacional e político, algo que permita ao cidadão tomar contato com as coisas da política logo nos primeiros anos da escola - é, inclusive, autor de um projeto de lei neste sentido.

Mas o deputado é também, por essência da profissão de bancário, um homem prático. Aparentemente calado, age nos bastidores da administração pública para ver implantados projetos com os quais espera ver mudar também a infra-estrutura dos municípios onde atua politicamente, no Vale do Acre.

Na entrevista que segue, o deputado diz o que pensa e revela que os debates na Assembléia Legislativa não estão tão abaixo do que se espera. “O cidadão acreano, mesmo o mais esclarecido, não tem consciência da qualidade do serviço prestado à população pela Assembléia Legislativa”, disparou o deputado na defesa de sua Casa. “Nessa questão da CPI dos Limites, talvez tenha ocorrido a maior contribuição do Parlamento à vida política e social acreana nos últimos 40 anos”, acrescentou. “Então, eu discordo da idéia de que os debates na Assembléia sejam amenos e desinteressantes. Nesse mais de um ano em que estou lá, o que vejo é muito trabalho, inclusive da oposição, tentando desconstituir, como é o seu papel, tudo aquilo que estamos fazendo. É algo próprio da democracia.”

O restante da entrevista você pode ler na seqüência.

Deputado, depois de quase um ano e meio de atuação na Assembléia Legislativa, eu pergunto o que os seus eleitores podem extrair do seu mandato de deputado estadual. Se o senhor tivesse que fazer uma prestação de contas, diria exatamente o quê?

Eu diria que, como parlamentar de ações voltadas para o Vale do Acre, centramos nossas atenções para fazer com que as coisas aconteçam naquela região. Centramos nosso mandato em quatro pilares: integração e turismo; produção, saúde e segurança. Mas o que um deputado pode fazer para que essas coisas aconteçam? Para isso, estamos sempre procurando junto aos órgãos estaduais e até ao próprio governador debater projetos que dizem respeito a nossa gente e a esses pontos. Estamos sempre discutindo como buscar recursos para implementar essas ações. É óbvio que, em muitas das vezes, tudo depende do orçamento estadual. Nós sabemos que o Governo do Estado trabalha com muito pouco recursos em relação à demanda das necessidades do nosso povo. Mas as coisas estão acontecendo.

Acontecendo onde e de que forma?

Na área de saúde, por exemplo, nós estamos trabalhando – eu digo nós porque somos da base de sustentação do governo e temos envolvimento direto na obra – a reforma do hospital central de Brasiléia. Já está em fase de licitação e será uma obra que vai trazer inúmeros benefícios à população local, já que o hospital passará por uma reforma desde a portaria à lavanderia, que é uma de nossas preocupações. Nós estamos conseguindo, graças a um esforço que inclui a Assembléia Legislativa e a bancada federal, nove ambulâncias novas, que serão distribuídas na região do Alto Acre entre Xapuri, Brasiléia e Assis Brasil, além da recuperação das ambulâncias já existentes. Agora, o que é mais importante para a região é que em julho será aberto concurso público para a contratação de médicos, com 347 vagas para o Estado, e nós conseguimos para a região 17 vagas de médicos, dos quais nove são só para Brasiléia, quatro para Xapuri, dois para Assis Brasil, um para Epitaciolândia e outro para Capixaba.

O senhor falou a pouco dos eixos centrais de seu mandato, que incluem ainda infra-estrutura e turismo, segurança pública e produção. O que pode fazer um deputado nesse sentido?

Eu acho que, no parlamento, hoje é possível um deputado criar uma pauta de atuação, porque temos no Acre e no Brasil um clima muito favorável, muito amistoso. Nós, que fazemos parte da base de sustentação do governo de Jorge Viana, sempre somos convidados a participar das discussões para definição de projetos que vão demandar a aplicação de recursos, seja de empréstimos junto às agencias financiadores nacionais e internacionais, como é o caso do BNDES e do BID. Então, neste sentido tive oportunidade de contribuir para que tenhamos, em breve, melhoria na infraestrutura das principais cidades do Vale do Acre. Em Brasiléia, por exemplo, estamos lutando junto ao Governo para que a ponte sobre o rio Acre, ligando o município de Epitacolândia, seja expandida para se tornar de mão dupla. A ponte foi construída para um período de dez anos e já está ultrapassada. Hoje, se você observar, principalmente nos finais de semana, já há engarrafamentos ali. Se nós estamos pensando em atrair turistas para a região, que é potencialmente muito forte neste setor, então temos que pensar em melhorar a infra-estrutura das nossas cidades.

Como será possível atrair turistas para a região?

Com infra-estrutura. Para isso é necessário que a iniciativa privada também faça sua parte, instalando bons hotéis, bons restaurantes. O turismo ali é um grande potencial porque estamos a poucas horas de Laz Paz, na Bolívia, e de Cuzco, no Peru, que recebem, em média, três milhões turistas por ano. Se nós conseguirmos atrair para a região do Alto Acre algo em torno de um por cento disso, transformaremos a nossa região num autêntico corredor de turismo. O governo do Estado, com a ajuda dos deputados de sua base na Assembléia e no Congresso Nacional, tem trabalhado neste sentido, à medida que melhorou as vias públicas de Epitaciolândia, principalmente na entrada da Bolívia para o Brasil, asfaltou a BR-317 até Assis Brasil e está construindo duas pontes, uma em Brasiléia, em fase de conclusão, e outra em Assis Brasil, em fase de licitação, que serão autênticos monumentos de integração e de atração de turistas. Eu me sinto parte disso e acho que estamos contribuindo para o desenvolvimento da nossa região e atendendo os pontos aos quais nos propomos no início do mandato.

E o que pode fazer um deputado para influir no que diz respeito à produção? O que senhor tem feito?

Aonde tenho ido, tenho procurado fazer um debate que discuta o seguinte: o Acre, ao longo do tempo, teve uma visão deformada e errada porque sempre esteve com suas ações voltadas para a máquina pública. Isso era uma coisa cultural. E hoje nós temos um governo, que nós ajudamos a construir, focado na produção, que vem, aqui em Rio Branco, melhorando o Distrito Industrial que já existia, e até criando um outro novo, para atrair empresas. Quando falamos em produção na região do Alto Acre, vemos de novo o governo montando consórcio com empresas privadas da Bolívia para extração do potencial dos castanhais da região e o esforço, com articulação de cooperativas, para garantir a compra da produção e garantir preços para o produto dos pequenos agricultores. Um deputado pode contribuir muito neste sentido e estamos fazendo nossa parte. Aliás, essa é também uma das grandes preocupações do deputado Ronald Polanco. È aí que voltamos a ter preocupações com a ponte entre Brasiléia e Epitaciolândia. Vamos lutar para que, até o final do governo de Jorge Viana, possamos ter ali uma ponte à altura desse novo momento que o Acre vai viver, com a importação e exportação de produtos numa região de fronteira com um potencial de mercado que envolve milhões de pessoas.

O senhor se mostra muito otimista, não há como negar. Vendo-o falar assim, convém perguntar: por que as coisas, o desenvolvimento propriamente dito, com a produção de grãos, por exemplo, não aconteceram antes?

Eu sou bancário de formação, funcionário do Banco da Amazônia, trabalhei muito tempo na área de carteira de crédito e tenho uma opinião sobre isso. Pelo conhecimento razoável que eu tenho de como funciona essa estrutura, acho que há um procedimento errado. O Banco da Amazônia, por exemplo, financiou a produção de uma forma incorreta, sem permitir a assistência técnica e sem qualquer tipo de estímulo ao produtor. Isso, ao invés de trazer satisfação às famílias que estavam assentadas e que trabalhavam na região, aconteceu o contrário. Algumas pessoas pegaram dinheiro emprestado, mas não conseguiram produzir. Mesmo com a atuação de cooperativas como a Capeb, uma conquista de muitas pessoas, de muitos produtores, a produção em si esbarra em vários gargalos porque os recursos foram aplicados de forma incorreta - não porque o banco não tenha liberado o dinheiro, mas porque essa liberação deu-se numa época errada, outra vez a assistência técnica falhando. A propósito, na área de assistência técnica, mesmo com todo o esforço que o governo tem feito, reside um grande problema para área de produção. Definitivamente, nessa área o governo não conseguiu acertar. Um exemplo desse problema está relacionado à pimenta longa, uma grande esperança dos nossos produtores e que efetivamente não deu certo. Eu atribuo o insucesso às políticas erradas na hora do financiamento, da falta de assistência técnica. Continuo insistindo que se trata de uma grande saída para o Acre, com mercado certo e com grande capacidade de competitividade internacional. Desde que voltemos a reanimar os produtores e envolvê-los nesse grande potencial econômico.

O senhor disse, no começo dessa entrevista, que tem também preocupações com o sistema de segurança pública. O que o preocupa tanto naquela fronteira?

Começa pela palavra fronteira. Eu acho que nós precisamos engajar o Exército, a Polícia Federal e as polícias Civil e Militar, além da Polícia Rodoviária Federal e estadual, todo os tipos de policiamentos para conter o avanço do tráfico na nossa fronteira. Nós temos, por exemplo, um bairro em Epitaciolândia, o José Hassem, onde está registrado o maior índice de jovens que praticam os mais diversos crimes - e olhe que não estou falando de crimes de bater carteira. Falo de crimes hediondos, de decapitação, mutilação de pessoas. Crimes praticados por jovens que em sua grande maioria estão encarcerados na penitenciária de Rio Branco. Pelo menos 50 famílias daquele município procuram o meu gabinete por mês pedindo para intermediar pelos seus filhos que estão presos. Nos procuram também para providenciarmos transportes para que as mães, principalmente, possam visitar seus filhos. São crimes cometidos quase sempre pelo fluxo fácil da passagem de drogas. É claro que o tráfico decorre do estado de miséria das pessoas, que não é culpa desse ou de governos passados. É um problema estrutural da sociedade brasileira. Mas acho que providências poderiam ser tomadas para conter esse avanço, a destruição das famílias da nossa fronteira, se a segurança fosse feita com mais vigilância. Eu tenho certeza de que se o Exército se envolvesse na política de fato policiar nossas fronteiras a coisa melhoria. Vou tentar envolver a bancada federal nisso para ver se a gente tira o Exército de dentro dos quartéis para que não aconteça na nossa região, que é uma tríplice fronteira, o que acontece no Rio der Janeiro. No meu entendimento, o Exército pode ajudar a Polícia Federal neste papel de policiamento da fronteira. O traficante de droga é ou não é um inimigo externo? Me parece que é. Então, isso é papel do Exército.

O senhor é autor de um projeto de lei, já sancionado pelo governo, para a inclusão de matéria política no currículo escolar desde o ensino fundamental. Qual é o objetivo?

Quando pensei nisso, meus assessores chegaram a questionar, dizendo que eu estava tentando reeditar a velha matéria de OSPB, aquela coisa antipática da ditadura. Não é nada disso. O que eu quero, o que eu sonho - e acho que o Congresso Nacional pode inclusive aperfeiçoar isso, estendendo para algo mais amplo – é que o cidadão comece a discutir seu papel político na sociedade ainda criança, nos primeiros anos da escola. Não adianta oferecermos condições de voto a um adolescente de 16 anos se, na pré-adolescência, ele não tomou nenhum contato com a política, com a cidadania. Se houver matéria curricular que ensine o estudante a votar, a observar os partidos, a se voltar para a sociedade e a cidadania, certamente haverá um eleitor a menos para eleger o mentiroso, o bandido, o comprador de voto. O meu sonho é a melhoria do sistema eleitoral. O Brasil, aliás, dá aula em matéria eleitoral para a América Latina e outras partes do mundo, mas, em matéria de cidadania, me parece que falta melhor preparar o eleitor, o cidadão. Todos os dias enfrento gente pedindo emprego para seu filho, pedindo dinheiro porque acha que política é isso, é o clientelismo. Acho que cabe a nós, políticos, mostrarmos, com caminhos concretos, que a política é algo mais amplo, mais bonito, mais importante do que o atendimento individual do problema de um ou de outro. Esse é o meu sonho.

 

 
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Rio Branco-AC, 9 de maio de 2004
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