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A farinha nossa de cada dia

Padre Paolino abençoa casa de produção que leva seu nome na comunidade São Bento, em Sena Madureira

Juracy Xangai
Casa de farinha recebeu o nome do religioso, que vive há 51 anos no Acre


Juracy Xangai

Líder espiritual dos seringueiros, colonos e índios que vivem nas calhas dos rios Purus, Iaco e Macauã, aos quais dedica 51 de seus 82 anos, o padre Paolino Baldassari emprestou seu nome à casa de farinha inaugurada na tarde do último sábado, na Associação São Bento, localizada a três horas e meia de barco subindo o rio Iaco e depois o Macauã, a partir de Sena Madureira.

Para comemorar a conquista, a comunidade matou uma novilha de mais de 150 quilos que foi servida durante a festa prestigiada pelo prefeito Nilson Areal, gerente do Banco do Brasil, Mauro D’Ângelo, representantes da Secretaria da Assistência Técnica e Extensão Agroflorestal (Seater), Joaquim Moisés, Gilcilene Queiroz, gerente do projeto das casas de farinha do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-AC), e “Boim”, gerente da Rádio Difusora de Sena Madureira, representando o governo do Estado.

Tudo começou há mais de 20 anos, quando o ex-seringueiro Lauro Silva baixou do alto rio Macauã desanimado com o preço da borracha que já não garantia o sustento da família e no caminho encontrou o padre Paolino, seu conhecido e a quem relatou o drama pelo qual passava. “Como todos os ex-seringueiros, Lauro vinha sem condições de viver na cidade, então sugeria que eles se organizassem numa associação para começar a produção de farinha. Aí consegui com minha família da Itália uma ajuda de R$ 600, que não era muito, mas com a ajuda de Deus e muito trabalho foi suficiente para comprarem mercadorias e ferramentas com a qual fundaram a comunidade São Bento, que sempre produziu farinha de primeira qualidade. Se não fosse isso, esses ex-seringueiros estariam, como outros, em Sena Madureira com seus filhos passando fome”.

Lauro Silva o seringueiro convertido em agricultor e líder comunitário que deu início à comunidade declarou: “Esta casa de farinha é um sonho que a gente tinha há muitos anos, mas não tinha dinheiro nem condições de construir com nossos recursos. Ela só existe graças ao Sebrae que foi nosso grande parceiro de todas as horas na pessoa do Leonardo e Alexandre, também do Moisés da Seater que sempre estiveram aqui nos orientando, nos incentivando e sem eles a gente não teria isto aqui.Também foi muito importante o apoio do Cirleudo nosso secretário de meio ambiente. Agora esperamos que neste ano o governo ou a prefeitura coloquem um bom operador de máquina para arrumar nossa estrada porque o do ano passado fez um serviço de porco que prejudicou muito nossas famílias dificultando a retirada de nossa produção”, lembra.

Sua esposa Rosa Maria Lima, 40, mãe de quatro filhos, moradora da colônia São João, onde está localizada a casa de farinha, lembrou: “Antes nossa casa de farinha era coberta de palha, forno de barro e piso de terra, então trabalhava como dava. Agora mudou muito, nós temos uma boa casa de farinha feita de alvenaria, com piso de azulejo, tela nas janelas e chaminé que não deixa a fumaça entranhar na massa, e com os cursos do Sebrae e Seater a gente agora produz uma farinha tão boa como eu mesma nunca tinha visto antes.”

Mas ainda existem problemas sérios a serem resolvidos. “A farinha é uma beleza, dá gosto de ver porque a gente se esforça para fazer o melhor, só que ainda precisamos conseguir um bom comprador porque os marreteiros continuam querendo pagar o mesmo preço da outra farinha, que era inferior a essa. A gente precisa conseguir pelo menos R$ 2 por quilo, mas eles não querem valorizar o trabalho da gente”, queixa-se a mulher.

Confiança na farinha

A comunidade São Bento está localizada na faixa ribeirinha do Projeto de Colonização Boa Esperança e recebe a segunda de uma série de seis casas de farinha que estão sendo construídas no município dentro do projeto de melhoria da mandiocultura financiado pela Fundação Banco do Brasil em parceria com o governo do Estado, por meio da Seprof, Seater, Sebrae e prefeitura de Sena Madureira.

Raimundo Martins de Oliveira, 35, proprietário das colônias Três Irmãos e Barros alto que somam 116 hectares onde cria mais de 200 cabeças de gado, começa a investir mais no plantio da mandioca. “Na roça a gente trabalha muito e ganha pouco porque as pessoas não sabem valorizar nossa produção. Falta melhor condição para a gente viver aqui. Eu mesmo, para garantir escola para os filhos, me mudei pra cidade e montei uma sorveteria, aí passo a vida neste vai e vem”, lamentou.

Mas ainda mantêm sua fé na agricultura. “Sabendo que a casa de farinha estava sendo construída, em setembro passado plantei dez mil covas de roça e neste ano vou dobrar a lavoura, a idéia é vender mandioca para a fazer farinha e se der bom resultado vou aumentar ainda mais a plantação para aproveitar bem este investimento que foi feito aqui”.

Liderando as 36 famílias filiadas à Associação São Bento, das quais 25 participam do projeto da farinha, Sebastião Gomes de Férias, 37 anos, pai de dois filhos esclarece que: “Esta casa de farinha é um sonho realizado e a primeira coisa que podemos garantir é que vamos produzir muita farinha da melhor qualidade, até porque essa é mesmo a tradição em nossa comunidade. Orientados pelo Sebrae e Seater nós fizemos os cursos de boas práticas na produção da farinha e agora no dia 22 o Sebrae vai nos oferecer um treinamento para a gente aprender a negociar melhor os nossos produtos”.

Além de produzir alimento de primeira qualidade, os mandiocais estão dentre as poucas culturas que ainda consegue garantir sua sustentabilidade ambiental pelo reuso das áreas diminuindo a necessidade de desmatamentos. “Quando a gente prepara uma área podemos plantar mandioca três anos seguidos, daí deixa encapoeirar e só volta pra ela três anos depois por mais três anos e, se a terra for mecanizada produz melhor ainda”, garante Raimundo Martins.

Conquistar mercado

Atuando há 32 anos junto aos produtores familiares de Sena Madureira, pela Seater, o técnico agrícola Joaquim Moisés esclareceu que a casa permite produzirem uma média de 300 quilos de farinha por dia, o que daria uma média de sete mil quilos por mês. “Até o final deste mês outras três casas de farinha estarão entrando em funcionamento no município atendendo assim, mais de 160 pequenos produtores de farinha. A partir daí estará sendo trabalhada uma cooperativa que se encarregará de fazer a comercialização de da produção junto às mercearias e supermercados”.

Já o administrador de empresas Reyes Leonardo de Lima Loureiro que em parceria com o agrônomo Alexandre atuam no projeto de melhoria da qualidade da farinha pelo Sebrae, explicou que : “Das seis casas, duas estão inauguradas e outras três estão prontas para inaugurar nos próximos dias. A primeira está em plena produção no Pólo Agroflorestal Elias Moreira que beneficia 14 famílias, estado do São Bento 25 famílias, as do São Miguel, Novo Amparo e Cachoeirinha 15 famílias associadas cada uma, mas outras não associadas vão vender mandioca para que estas funcionem o ano inteiro”.

Leonardo lembra que cada casa de farinha financiada pela Fundação Banco do Brasil custa em média R$ 12 mil, o que inclui a compra de um batelão com capacidade para o transporte de oito toneladas do produto, servido a todas elas. “Um ano depois da inauguração da casa do pólo eles já dobraram sua produção e multiplicaram sua renda, isto porque, antes, a média de faturamento estava na faixa dos R$ 50 a R$ 100 por mês, quando hoje faturam de R$ 400 a R$ 500 porque além de aumentar a produção, eles hoje conseguem o dobro do preço pela farinha de melhor qualidade, assim, conseguimos nosso objetivo maior que é inclusão social”.

Investindo na produção familiar

Animados com a construção da casa de farinha as 14 famílias associadas do pólo plantaram um hectare coletivamente e mais um hectare cada uma, já no São Bento foi feito um plantio comunitário de seis hectares, mais um hectare por família. Tudo sem contar a produção das seis comunidades próximas que agora começam a negociar a venda de suas raízes para fábrica de farinha onde o uso será alternado com cinco famílias de cada vez para não descuidar dos roçados.

“É uma satisfação ver acontecer em nossa gestão uma medida prática e tão eficiente quanto estas seis casas de farinha mais um batelão financiados pela Fundação Banco do Brasil dentro do programa de Desenvolvimento Regional Sustentável que a nosso ver é fundamental para estimular o desenvolvimento da produção familiar garantindo a melhoria da renda e de suas condições de vida”, declarou Mario D’Ângelo gerente do Banco do Brasil em Sena Madureira.

Ele informou que, também em parceria com a prefeitura de Sena, a FBB está financiando por meio do programa DRS a instalação de um serviço de coleta seletiva e fábrica de reciclagem de lixo naquele município. “Em dois anos e meio de trabalho este programa que tem o Sebrae e a Seater na linha de frente está mudando positivamente a imagem do campo, gerando renda e inclusão social ao reavivar uma avocação regional para esta atividade economicamente produtiva que buscamos estimular”. Como exemplo prático, o quilo da farinha que antes era vendida a R$ 0,60, agora já atinge R$ 1,50 pela qualidade que agrada aos consumidores.

Novas casas

Com a inauguração das novas casas do São Miguel e Novo Amparo previstas para o dia 19 de maio e a da Cachoeirinha para o dia 25 deste mesmo mês, o prefeito Nilson Areal fez questão destacar que: “Produzir farinha de boa qualidade é uma vocação tradicional do povo de nosso municípios e que veio ser melhorada com estas seis casas de farinha, mas nós não vamos parar por aqui, pois vamos construir outras como forma de melhorar a renda dos produtores e promover a garantia alimentar. Agora cabe a nós e aos produtores valorizarem bem esta conquista aumentando a produção para colocar no mercado com um bom preço porque esta farinha está mesmo muito boa”.

 
 
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Rio Branco-AC, 9 de maio de 2007
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