OPINIÃO
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Renan Calheiros *

 
A morte da rainha da Literatura

Ela dizia que tinha preguiça de escrever e que não relia os seus livros por que ficava encabulada. Achava que sua obra estava longe do seu ideal de perfeição. E justificava: "Porque você sabe que a gente tem um ideal da perfeição e que a gente não chega a ele, não chega a ele e fica danada da vida porque não chegou àquilo que você queria fazer...". A grande professora, escritora, jornalista, cro-nista, teatróloga e tradutora Rachel de Queiroz era uma mulher modesta e, por isso, tratava com desprezo a vaidade excessiva: "A pessoa que faz uma idéia muito grande de si mesma, desconfie dela. É bom ficar sempre com um pé atrás". Esta cearense batalhadora era assim: modesta, humilde, se recusava a cultuar sua personalidade e, por isso, viveu na simplicidade, fazendo questão de preservar suas raízes.

A passagem dessa nordestina, na madrugada da última terça-feira, em sua casa no Rio de Janeiro, quase aos 93 anos, é uma e-norme perda para a literatura, para o jornalismo e para a política. Enfim, perde toda a Nação uma de suas filhas mais ilustres. Sua obra, desde o magnífico e atualíssimo "O Quinze", escrito por uma Rachel ainda menina, nos idos de 1930, passando pelo "Caminho das Pe-dras", de 1937, "As Três Marias", de 1939, até "Memorial de Maria Moura", no auge de sua forma literária, publicado há pouco mais de dez anos, revelou uma cronista de linguagem viva e enxuta, capaz de retratar o cotidiano com perfeita visão social.

Rachel expôs sempre sua preocupação com o sofrimento dos nordestinos mais humildes, mas traçou também, com muita proprie-dade, o perfil psicológico do coronelismo que caracterizou a personalidade dos homens da região. Primeira escritora a ingressar na Aca-demia Brasileira de Letras, em 1977, Raquel quebrava assim um tabu e abria caminhos para a valorização das mulheres na literatura, nas artes, enfim, na cultura brasileira.

É impossível não concordar com as palavras da escritora Nélida Piñon, que conviveu com a escritora cearense na Academia Bra-sileira de Letras: "a Rachel tinha uma visão abrangente e cosmopolita do Brasil. Há seres que são dotados com conhecimento formal e também com conhecimento vindo através do convívio com a vida e com as pessoas. Rachel tinha essa sabedoria", disse a colega. O Presi-dente da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva, também se referiu a ela com muita propriedade: "Inovadora, ela seria toda a vida, na crônica, na literatura, no jornalismo. Raquel foi a mulher mais importante que o Brasil teve no Século XX. Ela abriu espaço para a mulher na literatura brasileira", afirmou.

Foi ela quem praticamente inaugurou a literatura do Nordeste. Buscava no sofrimento da seca a visão do mundo e do homem. Sempre ativa na vida política, Rachel nunca deixou de escrever crônicas. Ditava para a irmã os textos que publicou até o início deste ano. Os últi-mos livros que lançou eram para crianças. Nada deixava Rachel de Queiroz tão feliz quanto transformar-se na dama do sertão. Assim ela era considerada pelos caboclos sertanejos, ao lado dos quais gostava de se refugiar no meio da caatinga. Mais precisamente, na fazenda "Não me Deixes", município de Quixadá, sertão do seu Ceará. Costumava passar lá meses a fio, independentemente de ano seco ou de bom inverno, chuvoso. O sol inclemente apenas contribuía para que ela amasse mais ainda aquela terra vermelha e poeirenta, a vegetação cinza de tão estorricada, o açude seco, o gado recorrendo à palma espinhosa, mas salvadora no curral.

Rachel dizia que não tinha o sangue na terra, mas que a terra corria no seu sangue. Era esse amor atávico à caatinga e aos cheiros das imburanas com seus troncos dourados e dos mandacarus em flor que a levava sempre a seu torrão, a 154 quilômetros de Fortaleza. Não era preciso ver chuva nem caatinga verde para a permanência lhe dar prazer. O que ela gostava mesmo era de sentir a poeira do sertão, ver pássaros, o dia amanhecendo muito cedo, o açude seco ou com água. Era ali também que gostava de ficar com sua máquina de escrever, numa construção afastada, para criar seus romances e crônicas.

Com a morte desta grande escritora, perdemos todos: o Brasil, o Nordeste, o Ceará. Cala-se uma voz que, ao seu modo, escre-vendo em livros, para jornais, teatro e televisão, trabalhou pelo reconhecimento e pelo engrandecimento de um País tão grande territorial-mente, tão complexo cultural, política e socialmente, de tanta diversidade cultural, de imensas potencialidades naturais, mas ainda muito injusto. Este artigo é a homenagem que tinha a prestar a esta grande mulher, a esta grande alma que agora, certamente, se juntará a outros imortais.

* Líder do PMDB no Senado e ex-Ministro da Justiça

 

 
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Rio Branco-AC, 9 de novembro de 2003
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