OPINIÃO
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Sandra Starling *

 

Eu ponho fé na rapaziada

Assisti, numa tarde dessas, a um excelente programa - Globo Ciência -, transmitido pelo Canal Futura, de TV por assinatura. Tratava-se de um especial sobre inventos de talentosos jovens cientistas brasileiros, de nível técnico ou universitário. A despeito da falta de incentivos ou de recursos, nossos promissores inventores mostravam que não devem nada aos “professores pardais” das nações mais desenvolvidas.

Cito alguns exemplos. Um rapaz, em Vitória da Conquista, na Bahia, conseguiu inventar um aparelho de dessalinização de água, cujo custo gira em torno de 25 reais. O seu uso massivo pode significar uma revolução na economia nordestina. O custo médio de similares, hoje existentes no mercado, adequados ao consumo doméstico, está por volta de 2.500 reais. Outro estudante, no Rio Grande do Sul, desenvolveu um leitor ótico para deficientes visuais que custa menos de dez por cento de seus equivalentes importados. Pensando nos mesmos deficientes visuais, uma moça criou um semáforo a laser que torna segura a travessia de nossas vias por aqueles que não têm o sentido da visão. Já dois jovens cientistas do Rio de Janeiro lograram montar uma cadeira de rodas para tetraplégicos ou portadores de esclerose múltipla, capaz de movimentar-se em todas as direções com um simples sopro de seu usuário.

São amostras da genialidade e criatividade que, aqui e acolá, afloram em nossas escolas e universidades. E como se pode perceber, são pessoas preocupadas em fazer algo de relevância social, ajustado a nossas limitações de investimento. Isso ilustra o potencial de nossa gente e me enche de brio. Como cantava Gonzaguinha, “eu ponho fé é na rapaziada, que vai em frente e segura o rojão”.

Infelizmente, nem os nossos governantes, nem os nossos empresários, se deram em conta, na devida medida, da necessidade de prestigiar uma cultura de estímulo ao desenvolvimento científico e tecnológico, em larga escala, entre nossa juventude. Todos sabem que só a injeção massificada de capitais, combinada com um esforço tenaz de formação de quadros, cada vez mais qualificados em pesquisa e desenvolvimento de produtos e serviços de alto valor agregado, pode nos proporcionar a superação do subdesenvolvimento econômico. Esse mutirão começa por incutir em nossos alunos, desde a mais tenra idade, o gosto pelas ciências, a curiosidade pela matemática. Lamentavelmente, o desempenho de nossos meninos e meninas, nesses campos, comparado com os de outros países é simplesmente pífio, para não dizer vergonhoso.

É preciso que nossas crianças estejam imbuídas daquela diretriz que norteou a vida de Albert Einstein: nunca se dê por satisfeito com as respostas. E isso, ao invés de obstar uma visão de mundo multiculturalista, na verdade, acaba por favorecê-la. Tomo por referência meus netos que estudam em escolas públicas nos EUA. Parecem estar uns cinco anos à frente de seus coleguinhas brasileiros, em termos de conhecimentos gerais, instigados que são, sempre, a investigar, pesquisar, enfim, a ter prazer no simples ato de estudar.

Espero que o discurso inaugural do segundo mandato do Presidente Lula se traduza em efetivo apoio à educação de qualidade. Eu, por mim, como Gonzaguinha, quero continuar a ter “fé na fé da moçada”.

* Ex-deputada federal

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de janeiro de 2007
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