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Leitura transforma vida de crianças da periferia

Elas encontram nos livros o refúgio para a realidade amarga do contato com a violência fora e dentro de casa

Marcos Vicentti


Andréa Zílio e Marcos Vicentti

Antes do prazer de folhear as páginas que despertam cada vez mais curiosidade, elas brincavam nas ruas empinando pipa, jogando futebol ou da tradicional “manja”, atividades saudáveis, mas que se tornam perigosas diante do contato com a violência. “Às vezes eu estava na rua e via o carro da polícia chegar fazendo barulho, correndo atrás de bandido, e isso me assustava”, diz o pequeno Breno da Silva, 9 anos, morador do bairro João Eduardo II.

As agressões psicológicas e até físicas também acontecem dentro de casa. Algumas dessas tantas crianças da periferia encontraram um refúgio nas Casas de Leitura, que lhes oferecem muito mais que uma nova forma de brincar.

Com os livros, seus novos amigos, elas conquistam no despertar pela leitura dias mais alegres e saudáveis, ganhando perspectivas de um futuro melhor a partir de um bom desempenho escolar, aprendendo a ler, interpretar, escrever e criar.

Mas a primeira barreira que algumas enfrentam é mostrar aos pais, que as impedem de ir às Casas por considerar perda de tempo, que o livro é importante e pode representar boas mudanças. “No início minha mãe não gostava que eu saísse de casa para vir para cá, hoje ela sabe que aqui eu aprendi muito”, diz Leidiele da Silva, 14 anos, estudante da oitava série.

Foi a partir da leitura que esses meninos e meninas se permitiram viajar no mundo imaginário das páginas que folheiam. A cada história que lêem surge um novo aprendizado. “Antes eu brincava na rua, até que um dia encontrei um homem morto na frente de minha casa. Quando eu fecho o olho e penso, parece que estou vendo ele. Agora eu gosto muito de vir para a Casa de Leitura e aqui aprendi a contar história, declamar e escrever poesia. Hoje cada livro que leio eu viajo, é como se eu tivesse dentro dele”, diz Romerio Souza, 11 anos.

Sem perder a noção da realidade em que vivem, mas se permitindo ter momentos de alegria e criatividade, as crianças que freqüentam as quatro Casas de Leitura em Rio Branco (Casa de Leitura da Gameleira, Chico Mendes, Matias e Centro Cultural Tucumã) são exemplos concretos de que ler pode ser transformador e só faz bem.

Mas esses lugares atraem leitores de todas as idades, desde bebês, que recebem a voz da mãe para relaxar e dormir a cada contação de histórias, a crianças, adolescentes e até mesmo idosos.

A principal mudança na vida do público infantil e adolescente é bastante perceptível. Entre os ganhos, eles ficam mais espertos, bons comunicadoras, valorizam o conhecimento e, principalmente, apresentam bom desempenho escolar.

Espaço de conhecimento

Um lugar que antes dava espaço somente ao mato e servia de esconderijo para usuários de droga, a Casa de Leitura Matias, no bairro João Eduardo II, há dois meses é literalmente uma luz no fim da rua, que agora se mantém iluminada e passa mais segurança aos moradores. Kerolen da Silva recorda bem o passado. “Antes aqui só tinha mato, era escuro e à noite vivia cheio de homem. Agora é um espaço bom para a gente visitar. Eu gosto muito de ler e venho todo dia”, comenta a menina, de 7 anos.

As Casas de Leitura mostram que espaços assim e um bom trabalho dos seus profissionais se tornam uma boa iniciativa, comprovando que investir no conhecimento traz sempre bons ganhos para a população. No Acre elas foram criadas pelo governo do Estado, por meio da Fundação de Cultura Elias Mansour, e são coordenadas pela Biblioteca Pública.

Garota nota 10

Antes, ler significava uma atividade enfadonha, chata, mas um dia Anaely Ferreira, 12 anos, ouviu de Ágata Adrião da Silva, 8, que a Casa de Leitura Chico Mendes era um bom lugar porque permitia o acesso aos livros e tinha pessoas que ensinavam ler de forma prazerosa. Ela decidiu acompanhar a amiga.

Anaely faz a quinta série e diz que não lia nenhum livro, a não ser trechos dos didáticos para fazer as tarefas escolares quando era exigido. Freqüentando a Casa, mudou de opinião. “Fui me interessando quando entrei aqui e todo dia queria conhecer os livros para saber o que havia dentro deles. Passei a decorar as histórias e quando vou paa sala de aula conto aos meus colegas”, diz.

Foi a partir da leitura que Anaely melhorou nas atividades escolares e seu grande mérito foi ter conquistado um prêmio como a aluna que mais tira boas notas, tornando-se a “garota nota 10”.

Além das prateleiras

Dentro das Casas, o conteúdo faz a diferença e as prateleiras apresentam autores renomados, entre eles Monteiro Lobato, Sylvia Orthof, Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Câmara Cascudo. Um cantinho é dedicado aos escritos da Amazônia. Há prateleiras e caixas dedicadas às obras sobre a região, outros somente sobre os poetas nacionais.

“Eu só brincava de boneca e assistia televisão, agora adoro ler, é muito bom. Acho que leio uns cinco a dez livros por mês e o meu favorito é A Menina do Laço de Fita. Quando terminar meus estudos, quero trabalhar numa casa assim”, diz Niely da Silva, 10 anos.

O gosto pela leitura

O aprendizado com os livros não é uma relação singular, ela acontece no coletivo, a partir da troca de informação em que as crianças interagem, aprendem umas com as outras.

A pedagoga que coordena a Casa de Leitura Chico Mendes, Maria Antonia, conta que é feito um trabalho de resgate das brincadeiras regionais, de roda, e usa também composições musicais, fantoches para conquistar os pequenos leitores e mostrar que a leitura é prazerosa, além de uma fonte de conhecimento.

Maria Antonia explica que ler é trocar, é comparar as experiências com as narradas pelo escritor, recriar idéias e rever conceitos. E na Casa de Leitura as crianças são estimuladas a interpretar o que lêem, aguçam seu senso crítico, dialogam e conseguem ampliar a percepção das coisas.

Um outro caminho

Segundo a doutoranda em teoria literária e gestora Aurélia Hubner, espaços como a Casa de Leitura que promovem têm especial a leitura partilhada, torna esse hábito um ato social que promove a integração entre os leitores e fortalece seus laços comunitários. Essa integração forma um cidadão capaz de partilhar as idéias e de viver realmente em comunidade.

Os personagens desses bairros da capital acreana mostram que se tornaram transformadores de seus destinos, tendo o livro como aliado para deixar no passado a infância escassa de brincadeiras, as cenas de violência presenciadas e viver um novo presente que, segundo elas, é literalmente um presente em suas vidas.

 
 
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Rio Branco-AC, 11 de fevereiro de 2007
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