| OPINIÃO | ||
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Rodrigo Cesar * |
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| Semelhança dos fatos 10 de dezembro de 2006: morre de morte morrida o ditador chileno Augusto Pinochet. 30 de dezembro de 2006: morre de morte matada o ditador iraquiano Saddam Hussein. Além da semelhança de falecerem no mesmo mês do mesmo ano, há também (e principalmente) a de serem ambos ditadores assassinos, funcionários da máquina de moer gente. Ambos responsáveis por interminável sofrimento por atrocidades cometidas no passado, seja ele distante ou recente, que persiste ainda hoje, nos mais profundos sentimentos de netas, netos, filhas, filhos, maridos, esposas, irmãos, pais e mães que perderam um pedaço seu para a monstruosidade da ditadura. Sistema que em ambos os casos (chileno e iraquiano) são terrorismo, tortura e assassinato patrocinados e respaldados pelo Estado, pela Justiça. Esta última poderíamos escrever entre aspas, pois é inconcebível considerar justo o amparo legal a uma arbitrariedade de tamanha violência. No dia em que a humanidade comemora mais uma vez a Declaração Universal dos Direitos Humanos, um de seus maiores violadores deixa de existir. Há quem diga que a morte foi pouco para ele. Seria cômico, se não fosse trágico, o fato de noticiários apresentarem a morte (morrida) de Pinochet como a perda de um grande estadista e líder político, colocando-o no mesmo patamar daquele aclamado pelos milhares de manifestantes chilenos que comemoravam e brindavam ao respeito à vida, à paz, à solidariedade e à esperança no dia 10 de dezembro: Salvador Allende. Esqueceram de um sutil detalhe: um foi eleito pelo voto, numa demonstração da democracia, o outro tomou o poder pela força, assassinando o primeiro. Isto sem falar na diferença entre os governos e também que sua ditadura adotava práticas, no mínimo, macabras: encher o Estádio Nacional, não para jogos de futebol, mas para fuzilamento em massa; praticar sadismo com Victor Jara (músico que teimava em cantar mesmo preso no estádio e depois de ter suas mãos arrancadas para não mais tocar, antes de ser assassinado); soltar presos nas Cordilheiras sem agasalho nem comida, com destino à morte; fazer a população assistir aos cadáveres que boiavam nos rios, entre outras. Mas a democracia prevalece. E foi supostamente em nome dela, da liberdade e da luta contra o terror que, com apoio do maior terrorista de todos, George W. Bush, depois que manipularam o tribunal e assassinaram três advogados de defesa de Saddam, finalmente foi concluído o trabalho que seu pai iniciara na Guerra do Golfo: o iraquiano foi enforcado em pleno século XXI. Mas, como são generosos e prezam pelos mais belos sentimentos humanitários, prometeram retirar as tropas do iraque ainda este ano. Mais doze meses de guerra e sofrimento no Oriente Médio, afinal, se todos aqueles que tem sobrenome árabe são suspeitos, porque poupar energia em aniquilá-los todos? E os puritanos defensores da liberdade, cuja representação máxima está afixada na forma de estátua em Nova Iorque, permanecem imaculados... Versão tupiniquim desta história: “Na noite de sábado, horas antes da morte de Augusto Pinochet, o general que comandava a ditadura no Brasil quando o chileno ascendeu ao poder em 1973 foi homenageado pela futura elite militar do país. A turma de formandos deste ano da Escola Preparatória de Cadetes do Exército intitulou-se “General Emílio Garrastazu Médici” e o celebrou como patrono.” dizia trecho da reportagem da Folha de São Paulo de 12 de dezembro. O Brasil, que, assim como outros países latino-americanos, também foi vítima de uma ditadura militar apoiada pela CIA, permanece sem saber do período nefasto de seu passado e sem fazer seu ajuste de contas - aquilo que os chilenos não conseguiram fazer com Pinochet e companhia. Os arquivos da Ditadura Militar permanecem fechados sigilosamente. 1º de abril está chegando. Desta vez, não para celebrar o dia da mentira ou somente para relembrar o amanhecer do primeiro dia de muitos anos de chumbo que viriam após o golpe de 64, mas principalmente para reivindicar a abertura imediata dos arquivos da ditadura. No dia 1º de abril, façamos como os chilenos no dia 10 de dezembro, brindemos ao respeito à vida, à paz, à solidariedade e à esperança. * Diretor de Biomédicas da UNE e militante da Juventude do PT-RJ |
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