OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 


Memória da arqueologia acreana (XII)

A partir de 1999 a criação do Departamento de Patrimônio Histórico da Fundação Elias Mansour abriu importantes perspectivas, não só para a arqueologia acreana, mas também para o trabalho de preservação, recuperação e difusão do Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre em seus mais diversos aspectos.

No início de 1999 o Palácio das Secretarias estava em completa ruína. O porão inundado, as paredes descascadas, infiltrações por todos os lados. Havia forte suspeita de que o prédio estava condenado e um certo temor entre os que ali trabalhavam. Ainda assim o Palácio das Secretarias tão maltratado serviu de abrigo provisório para a Fundação Elias Mansour e outras secretarias do governo acreano que tentava se reorganizar. Afinal as péssimas condições deste prédio publico refletia claramente a situação em que se encontrava o próprio Estado do Acre. Salários atrasados, desmandos generalizados e um povo desesperançado.

Ao Departamento do Patrimônio e Memória, como foi chamado inicialmente, coube uma pequena sala com quatro arquivos e dois funcionários. Estes arquivos e funcionários continham toda a memória remanescente de anos de trabalho de diversas equipes de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural. Havia muito o que fazer então.

Graças à coordenação precisa e estimulo constante do Presidente da nova Fundação de Cultura e Comunicação Elias Mansour Antonio Alves e à sensibilidade do Governador Jorge Viana, ambos absolutamente conscientes da necessidade de valorizar a bela e importante história do povo acreano, o Departamento cresceu aos poucos, mas de forma consistente.

Foi possível assim, ainda em 1999, revisar a lei estadual de Patrimônio Histórico que já existia mas nunca havia sido implementada de fato, estabelecer um fundo para recuperação do patrimônio acreano e retomar trabalhos que haviam sido iniciados por administrações anteriores, como por exemplo o tombamento e revitalização do revolucionário seringal Bom Destino, sobre o qual havia um processo contra o governo do estado em andamento no Ministério Público Estadual.

Do mesmo modo foram abertas muitas linhas de trabalho novas e que buscavam contemplar a multiplicidade étnica, histórica e cultural da sociedade acreana. O Departamento passou a atuar então na recuperação de prédios, monumentos e sítios históricos, na abertura de novos museus e espaços de memória e na valorização dos povos indígenas acreanos. Mas também na retomada de antigas tradições que estavam em desuso, defesa e salvaguarda de sítios arqueológicos em parceria com a 1ª SR do IPHAN-Manaus, na publicação de várias revistas temáticas e reedição de textos importantes para constituição da história regional, enfim, em muitas e diferentes áreas por que múltipla e diversificada é a sociedade acreana.

Com a ampliação do trabalho a equipe do Departamento também cresceu. Reuniu historiadores, arquitetos, antropólogos, sociólogos e estudantes de diversas áreas do conhecimento, chegando a ter mais de 120 profissionais distribuídos nos vários equipamentos públicos espalhados por municípios que nunca antes haviam sido atendidos por nenhuma política pública de Patrimônio Histórico e foram administrados pelo Departamento ao longo dos últimos oito anos.

Mas como o tema central deste artigo, e da série que estamos encerrando hoje, não é historiar a trajetória do Departamento de Patrimônio Histórico da FEM - apesar dessa ser uma lacuna que ainda precisa ser preenchida - mas destacar a história da pesquisa arqueológica no Acre e o papel desempenhado por seus pioneiros que se caracterizaram pela seriedade e responsabilidade no trato com um patrimônio que pertence a todo o povo acreano, temos que retomar o fio da meada original.

Não vou detalhar os diversos trabalhos realizados pelo Departamento de Patrimônio Histórico da FEM na área de arqueologia, até porque isso já foi feito em artigo anterior desta coluna. Mas é importante ressaltar que essa área nunca ficou descoberta e teve permanente assistência por parte do Departamento, em especial através do Museu da Borracha. Por outro lado, em abril de 2002 – integrando a programação do IIº Encontro de Cultura Indígena do Acre, Rondônia e sul do Amazonas - a Fundação Elias Mansour em parceria com o CIMI publicou a revista “Povos do Acre: História Indígena da Amazônia Ocidental” na qual pude escrever um texto denominado “História Nativa do Acre” onde tracei uma breve síntese da pré-história acreana e sua relação com os atuais povos indígenas do Acre.

Este texto depois foi republicado na revista “Chico Mendes Vive – 15 anos” do CTA e em parte nesta mesma coluna. E está sendo mencionado porque representou o início de uma nova linha de trabalho que me parece a mais relevante para o Acre neste momento uma vez que a sociedade acreana valoriza profundamente sua história e é extremamente importante dota-la da profundidade necessária para ultrapassar o limite de 150 anos imposto pela historiografia brasileira. A história dos povos dos rios Aquiri, Purus, Juruá, etc. é milenar e seu conhecimento nos leva a inevitável conclusão de que o Acre já existia muito antes de Manoel Urbano da Encarnação realizar sua primeiras explorações nos rios acreanos e revela uma face ainda desconhecida de nossa história. E só a pesquisa arqueológica responsável e sintonizada com a história dos povos indígenas (atuais e pré-históricos) pode realizar isso.

Em 2004 uma nova pesquisa arqueológica ocorreu no Estado do Acre para complementação do EIA-RIMA relativo às obras da BR-364 no trecho entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá. Estas pesquisas foram conduzidas pelo arqueólogo Miguel Leoni Gaissler e equipe e logrou localizar quatro novos sítios arqueológicos na área de influencia indireta da BR-364 e mais uma vez nos coube prestar a esse pesquisador todas as informações disponíveis sobre a arqueologia acreana, como, aliás, foi uma regra no Departamento de Patrimônio Histórico da FEM em relação a todos os pesquisadores sérios que aqui chegaram nos últimos anos.

Finalmente, uma outra equipe de arqueólogos da Sciencia, esteve recentemente em Rio Branco (em 2006) prestando consultoria para a salvaguarda de sítios arqueológicos durante a implantação de torres de transmissão de energia elétrica pela Eletronorte. Mas, infelizmente, acerca deste trabalho temos ainda poucas informações que espero, em breve, poder atualizar para os leitores desta coluna.

Para concluir esta série é imprescindível registrar que no ano 2000 perdemos (todos os que a conheceram, mas principalmente a sociedade acreana, acredito) a Profª. Mauricélia Sousa, a Celinha, que a partir de seu exemplo de dedicação e integridade continua inspirando e orientando todo o trabalho que foi e tem sido realizado por muitas mãos a partir de seu excepcional talento para a pesquisa e para o trato com as pessoas.

Infelizmente ela não teve tempo de concluir sua dissertação de Mestrado que tratava exatamente da arqueologia acreana e dos sítios com estruturas de terra geométricas, que foram profundamente estudados nos últimos anos como demonstramos nesta série. Independente disso é evidente que foi ela que possibilitou o avanço da pesquisa arqueológica no Acre e junto com o Sr. Artur Jerosh e o Prof. Ondemar Dias se constituem nos verdadeiros pioneiros da arqueologia acreana e assim merecem todo o nosso respeito e consideração. Por isso, portanto, essa série é uma necessária homenagem à Célia e a tudo de bom que ela nos legou.

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2007
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