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POLÍTICA

Padre Paolino diz que choque de cultura faz mal a índios do Purus

Religioso relata a Tião Viana o dia-a-dia dos nativos da floresta


MANDATO de Tião Viana tem dado atenção aos povos indígenas

Romerito Aquino

Considerado um dos maiores guardiões dos povos da floresta, onde vive há 50 anos obstinado em ajudar a população do interior do Vale do Purus a melhorar de vida, Padre Paolino Baldassari retornou recentemente de mais uma longa viagem de nova desobriga pelo rio Purus, onde batiza, casa, abençoa e cuida com muito orgulho e carinho das suas populações ribeirinhas.

Logo após retornar para Sena Madureira, lugar de sua paróquia, Padre Paolino escreveu mais uma das muitas cartas que envia ao senador e médico Tião Viana (PT-AC) retratando o que viu nas suas peregrinações rio acima e rio abaixo para cuidar do povo da floresta. Desta feita, a carta de Padre Paolino é um libelo de preocupações sobre os males que o choque de cultura vem provocando nas populações dos índios Kulina e Kaxinawá, que não estão sabendo lidar com o dinheiro que passaram a receber de aposentadorias, dos salários de professores e de outros pagamentos.

Segundo o padre, os índios da região estão deixando as aldeias abandonadas, preferindo ir para as cidades gastar o dinheiro com a família. A ida dos índios para as cidades, particularmente para Sena Madureira, acaba criando, com o fim do dinheiro, problemas sociais para eles mesmos continuarem vivendo fora de seus lugares tradicionais. Veja, a seguir, a íntegra da nova carta enviada pelo Padre Paolino ao senador Tião Viana, que tem sido um dos parlamentares do Congresso mais preocupado com o bem-estar dos índios brasileiros.

“Exmo. e caríssimo Senador Tião,

Saudações cordiais e sinceras. De volta de uma longa viagem do rio Purus a contato vivo com a realidade dos ribeirinhos e dos índios Kulina e Kaxinawá, gostaria de dar sempre notícias bonitas, mas muitas vezes devo dar notícias que não agradam muito.

O problema dos índios Kulina é o álcool. Até dizia um marreteiro que viaja sempre no rio Purus, que às vezes precisava de comprar uma galinha ou uma ovelha, que os índios têm, mas só vendem se tiver álcool, só álcool e isto dá muito desgosto.

Quando era mais novo, ficava com eles meses e trabalhávamos em roçados e havia verdadeira fartura, chegaram até ter quase 30 cabeças de gado em Santo Amaro e agora só têm 5, o resto foi vendido a troco. As barracas todas caídas e os índios viajando e criando problema em Manoel Urbano e Sena Madureira.

Nos tempos passados, tudo funcionava melhor, mas os cursos da Funai, da Uni (Uni-Índio) e do Cimi (Conselho Indígena Missionário) tiraram as lideranças e as levaram para todo lado e o povo ficava à toa e estes cursos ensinavam o caminho da cidade.

Viagem bonita, de graça, comida boa, voltando, contavam tudo e, portanto, todos queriam ir à cidade. Na cidade, pegavam doenças venéreas desconhecidas na aldeia. Não faziam mais os roçados e, às vezes, chegavam a passar fome. Foram dados muitos motores e embarcações, foi outro erro, aí começaram a viajar mesmo e agora que têm as terras deles não querem mais ficar nas terras deles.

Os aposentados, os professores e funcionários querem baixar uma vez por mês para retirar o dinheiro e cada um com a família e assim o dinheiro não dá para nada e a aldeia fica deserta e abandonada.

Os sanitários que foram construídos com tanto sacrifício estão todos abandonados porque a bomba (está) quebrada, o motor quebrado e os tanques caídos e arrebentados - só tristeza.

Eu fico triste, mas eles felizes, fazem barraquinhas nas praias, vão caçar jacaré ou roubar a macaxeira dos ribeirinhos e se sentem felizes porque, para eles, não existe tempo e eles falam não do dia, mas da lua. Não interessa a barraca, algumas canaranas são suficientes. A vida deles não muda.

 
 
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Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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