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POLÍTICA

Uma visita de saudade e confiança no futuro

Suplicy atende convite de Tião Viana e reencontra companheiros das lutas de Chico Mendes em Xapuri

Angela Peres/Secom
Suplicy e Tião Viana visitaram o túmulo do líder seringueiro Chico Mendes, em Xapuri


Tião Maia

Xapuri - O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) reencontrou-se ontem, em Xapuri, com os familiares e antigos companheiros do sindicalista Chico Mendes. Também visitou seu túmulo e a casa na qual o sindicalista foi morto a tiro em 22 de dezembro de 1988, no auge do confronto entre ambientalistas e defensores de programas de desenvolvimento com a derrubada da floresta. Elenira, hoje com 22 anos de idade, que tinha apenas quatro anos quando viu o pai morrer em seus braços, representou a família de Chico Mendes no encontro com o senador paulista.

O senador veio ao Acre a convite de seu companheiro de bancada, Tião Viana, vice-presidente do Senado, para participar, como palestrante, do debate “Prospecção de Derivados do Petróleo no Acre e Responsabilidade Socioambiental”, realizado ontem à noite, no Teatro Plácido de Castro. O debate contou ainda com a participação do diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Newton Reis Monteiro, da coordenadora do Meio Ambiente da ANP, Lúcia Gaudêncio, e do ambientalista Miguel Scarcello, presidente da organização não-governamental SOS Amazônia e cujos resultados serão publicados, em ampla reportagem, na edição de amanhã.

Diante do túmulo de Chico Mendes, Tião Viana e Eduardo Suplicy deram às mãos a homens e mulheres que fizeram e ainda fazem parte da histórica luta dos seringueiros de Xapuri rezando a oração “Pai Nosso”, num ato dirigido pelo padre Francisco das Chagas Monteiro. “Isso aqui mostra que o mal não vence. A morte dele não foi em vão porque seu sangue na terra foi como uma semente que fez surgir novas organizações e novas lideranças na luta cujo fim é a preservação da vida”, disse o padre, um ex-seringueiro de 56 anos de idade.

Em Xapuri, Suplicy e Tião Viana também visitaram as instalações da futura fábrica de preservativos que vai utilizar como matéria prima o látex de seringal nativo, um projeto do governo do Acre em parceria com o Ministério da Saúde que começou a ser implantado na gestão do ex-governador Jorge Viana e que deverá ser inaugurado no próximo mês de maio, pelo governador Binho Marques, possivelmente com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Convidado para a solenidade de inauguração pelo coordenador de produção da fábrica, Raimundo Mendes de Barros, Suplicy disse que se esforçará para estar presente ao ato. O ex-vereador e seringueiro Raimundo Mendes de Barros, também conhecido por “Raimundão”, é primo e um dos mais combativos aliados de Chico Mendes e sua causa.

A fábrica de preservativos vai gerar emprego e renda para pelo menos 800 famílias de seringueiros da região de Xapuri e do Alto Acre que vivem da exploração de seringais nativos. Quando estiver em pleno funcionamento, deverá atender boa parte da demanda do Ministério da Saúde na distribuição do produto cuja aquisição, junto às fábricas nacionais e internacionais, chega a 600 milhões de unidades ao ano e deverá chegar a 1,2 bilhão nos próximos dois anos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Ao entrar na casa simples onde viveu e morreu o líder sindical, o senador Eduardo Suplicy mostrou-se visivelmente emocionado. Ali ainda estão intactos por quase duas décadas e em exposição, os livros preferidos – embora poucos, cerca de uma dúzia-, os móveis, os utensílios domésticos e até mesmo as pedras de dominó com as quais Chico Mendes jogou com os Policiais Militares que lhe serviam de segurança até momentos antes de receber o tiro fatal.

O senador paulista também conheceu a sede do Seringal Cachoeira, nos arredores de Xapuri, local onde foi realizado o ultimo “empate” liderado por Chico Mendes – o empate consistia numa manifestação de resistência pacífica através da qual os seringueiros impediam a derrubada da floresta porque simplesmente, em meio ao ronco das motosserras e das ameaças dos operários a soldos dos devastadores, permaneciam dentro do mato. “Os trabalhadores, muitos até conhecidos nossos, tinham medo de derrubar a mata com a gente dentro e assim conseguimos evitar que muitas árvores fossem mortas”, dizia “Raimundão”, enquanto contava essas e outras histórias de seringueiros e guiava Suplicy e Tião Viana pelas trilhas em meio à floresta nativa. O “Seringal Cachoeira” era a propriedade reivindicada pelo pecuarista Darly Alves da Silva, pai do assassino confesso de Chico Mendes, Darcy Alves Pereira.

Eduardo Suplicy lembrou que conheceu Chico Mendes pessoalmente tanto em encontros em São Paulo como também no Acre, onde esteve nos anos 80. “Visitar seu túmulo e a casa onde ele morou com sua família constitui uma fonte de renovação para mim e, acredito, para todos os brasileiros, para reafirmar o compromisso de lutar pelos ideais de justiça e de preservação da floresta com a combinação de aproveitamento da riqueza natural como bem dos seres humanos no sentido de realização de justiça, de solidariedade e de fraternidade que eram os ideais de Chico Mendes”, disse Suplicy. “Eu já havia estado aqui em Xapuri em condições anteriores, mas, para mim, voltar aqui sempre será um momento de renovação de energia e de fé sobre como nós, brasileiros, temos que nos empenhar para que as riquezas tão extraordinárias da Amazônia possam ser bem aproveitadas e renovadas a fim de que mais brasileiros e toda a humanidade possam aproveitar disso com o sentido de racionalidade, como Chico Mendes nos ensinou e para isso ele deu sua vida”, afirmou.

Suplicy também afirmou que um dos exemplos petistas de grande expressão no país é exatamente o senador Tião Viana. “Sou testemunha da seriedade do seu trabalho e de seu equilíbrio. Assim como fez merecer a maior votação proporcional dada a um senador, em Brasília, no Congresso Nacional, Tião Viana consegue ter o respeito inclusive dos nossos adversários’, disse.

Tião Viana afirmou, por sua vez, que o senador Eduardo Suplicy é um exemplo de luta pela ética na política. “O Suplicy já nem é ele mais, é um símbolo de ética na política”, disse o senador acreano. “Viemos aqui numa visita de lembranças e de saudade, mas também de confiança no futuro. Estamos vendo o processo de industrialização de Xapuri, da indústria de taco, de madeira manejada, da indústria de preservativo. Estamos lutando para mudar o futuro econômico e social do Acre e, ao mesmo tempo, traçando estratégias novas de desenvolvimento e de afirmação das nossa independência”, afirmou.

 
 
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Rio Branco-AC, 13 de abril de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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