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Milho: fartura e esperança no campo

Antigo seringal Carão, que foi zona de conflitos, agora é um dos principais pólos de produção agrícola da capital

Juracy Xangai
Estoques de milho testemunham a fartura que o campo mecanizado pode proporcionar aos produtores


Juracy Xangai

O ronco da colhedeira que vai devorando pés de milho enquanto os grãos enchem a caçamba é como música aos ouvidos do produtor Juarez Rodrigues da Silva, 51, dono da colônia Jogo da Vida, no quilômetro 52 da rodovia Transacreana, dentro do Projeto Carão. Lá ele semeou em dezembro passado, já fora de época, 16 hectares de milho, de onde espera colher pelo menos 1.080 sacas.

“Moro aqui há 23 anos. Nesse tempo sempre botei roçado queimando e plantando na cinza. Trabalhando mecanizado é muito diferente, mas isso a gente ainda está aprendendo. Ano passado choveu demais, a semente e o adubo atrasaram e só pudemos plantar em dezembro, então a produção está menor. Se plantar de 15 de setembro a 30 de outubro, a produção será muito melhor. Mesmo assim, gostei da experiência e neste ano vou plantar 20 hectares”, garante.

Juarez é um dos oito produtores mais conhecidos como o grupo do G-8 que, orientados pelas secretarias da Agricutura e Pecuária (Seap), Assistência Técnica e Extensão Agroflorestal (Seater) encararam o desafio de pedir empréstimo do Banco do Brasil para comprar trator, carreta de dois eixos, grade pesada de 14 discos, grade niveladora de 16 discos, plantadeira de três linhas, roçadeira hidráulica e espalhador de calcário.

O financiamento dos R$ 150 mil, sendo R$ 54 mil para custeio da mecanização, foi liberado através da linha do Programa de Incentivo à Agricultura Familiar (Pronaf D) com três anos de carência e mais sete para pagar com juros de 3% ao ano. Pagando em dia o banco ainda dá desconto no final.

Descaminhos

Sem poder mais desmatar, os agricultores entenderam que precisavam mecanizar a terra. Pediram ajuda ao governo, que não tinha máquinas suficientes para atendê-los, mas o secretário da Seap, Mauro Ribeiro, sugeriu o financiamento facilitado e prometeu apoio aos produtores.

Todo mundo se interessou, mas apenas 16 entraram no processo do empréstimo solidário em 2004. Porém, a demora e a burocracia fizeram com que a maioria desistisse. Sobraram cinco produtores, mais três foram convencidos a voltar e formou-se então o grupo dos oito. Eles são liderados por José Augusto Pinheiro da Silveira, 40, presidente da Associação dos Produtores Unidos para Vencer, com sede no quilômetro 52 da Transacreana, dentro do projeto de assentamento sobre a área do antigo seringal Carão.

Um a menos

O agricultor José Pereira de Araújo, 56, era um dos que já no ano passado estava pronto para plantar seu milharal junto com o pessoal do G-8, mas na última hora desistiu e agora está decidido a plantar.
“Ano passado eu estava bem animado para fazer lavoura, mas o banco demorou tanto a liberar o crédito da aração que quando o dinheiro chegou já tinha passado o tempo do plantio, por isso desisti. Se neste ano eles liberarem o crédito no tempo certo eu vou plantar 14 hectares de milho e quatro de arroz. Sem poder derrubar, a única alternativa para a gente sobreviver é fazer agricultura mecanizada, assim a produção é muito boa”, disse.

Correção o rumo

Juarez era um dos produtores que estava sempre à frente estimulando os demais ao financiamento, mas admite. “Quando vi a terra mecanizada me deu um frio na espinha.

Peguei o financiamento para plantar milho - aqui nunca vi ninguém ganhar dinheiro com milho, meu negócio sempre foi gado - e resolvi plantar capim. Estava na loja comprando 16 sacas de semente quando chegou o secretário Mauro Ribeiro e me convenceu de que devia plantar milho, atendi e neste ano vou plantar mais ainda.”

Plantando no sistema manual tradicional, por mais que a semente seja boa, a produção varia de 90 a 120 sacas por hectare. No caso da agricultura mecanizada, com a terra corrigida pelo calcário e as plantas nutridas com adubo, essa produção fica na média de 240 sacas ou mais um pouco.

A produção de Juarez, como de alguns outros, está sendo menor. Primeiro porque foi plantado quase três meses depois do tempo certo para a semeadura; segundo é que o encharcamento do solo e a formação de verdadeiros igapós no meio da plantação fizeram com que ele perdesse mais de três hectares do milho plantado.

Esses problemas serão corrigidos com um bom planejamento a ser feito neste ano.

Campo está ficando vazio

Desde a década de 50, com o início do processo de industrialização, a zona rural brasileira vem perdendo sua população para as cidades.

Isso traz como efeito negativo a concentração da terra em grandes fazendas, geralmente dedicadas a monoculturas como o gado, cana ou soja, fazendo com que vá sendo cada vez menor a oferta de alimentos como frutas, verduras e legumes tradicionalmente produzido pelos agricultores familiares.

Embora tenha menos de 20 anos de existência como projeto de colonização, o Carão é um exemplo dessa situação. A grande maioria dos filhos dos produtores ali assentados saiu para a cidade, deixando no campo apenas os mais velhos, que já estão cansados para dar continuidade à produção, por isso vão vendendo as propriedades que aos poucos foram fazendas ou espaço para o lazer de famílias da cidade.

O agricultor Pedro Pinheiro, 52, tirou da terra o sustento para os nove filhos, dos quais apenas um, já casado e com dois filhos, permanece na propriedade - os demais mudaram-se para a cidade. “Criei meus filhos na colônia, mas assim que puderam foram embora para a cidade. Aqui na roça a gente trabalha muito o ano inteiro para ter pouco retorno.”

Lamentando sua situação ele faz uma avaliação geral: “O maior problema hoje é que as colônias estão fracassando porque só estão ficando os mais idosos. Depois dos 40 anos a gente já não tem mais a mesma força e disposição para trabalhar, o serviço é pesado, o dinheiro é pouco. Os jovens querem ter chance de melhorar de vida e se aventuram na cidade”.

Ele disse ainda que está em busca do financiamento para mecanizar a terra, pois fica melhor de trabalhar. “Vou aumentar o lucro e, quem sabe assim, até algum dos meninos se animem em continuar tocando a colônia”.

Já o produtor Altevir Anorato Cassimiro, 53, está completamente sozinho porque até a esposa resolveu ir para a cidade morar junto com os filhos e pressionam para que o pai venda a colônia e vá para a cidade também. “Vim de Tarauacá faz 30 anos, morei em Rio Branco e por não ter estudado nunca consegui um bom emprego. Então há 20 anos enfrentei a invasão e vim aqui para dentro, onde criei minha família. Por causa dos filhos ajudei a fundar a escola que funcionava dentro da minha própria casa, cuidei de cada um deles até irem para cidade. Fiquei sozinho.”

Sem mágoas, conta orgulhoso que um dos filhos já está na faculdade e outros dois terminando o ensino médio. “O que eu podia fazer por eles eu fiz, mas por minha vontade eu não saio da colônia. Minha vida é aqui”, decreta.

Também em busca de financiamento, Altevir Amorato esclarece que quer mecanizar e plantar pelo menos seis hectares de milho, mandioca e arroz.

“Com a terra preparada, daí para frente tudo é mais fácil, então vamos ter mais produção, mais dinheiro e, quem sabe assim, os filhos comecem a entender e a valorizar a terra da colônia”, declarou.

Vencendo desafios

Em janeiro de 2004, os 40 produtores filiados à associação Unidos para Vencer estavam tão desestimulados que foi difícil conseguir número suficiente para formar a nova chapa da diretoria.

Ninguém podia mais desmatar para plantar, a Transacreana estava intrafegável - para piorar as coisas, rompeu no quilômetro 70 -, a escola da comunidade estava para ser fechada. O solo degradado fez com que o brachiarinha e o brachiarão morressem, as pastagens empobreceram e no seu lugar o que ainda resta é muita tiririca, grama e capim nativo, baixando a produção do boi, única coisa que ainda estava conseguindo gerar alguma renda.

“A coisa estava muito feia, então convidamos o pessoal da Seap, Incra, Seater, Ibama, Imac, educação e saúde para virem aqui dentro, estávamos em mais de 150 produtores, falamos dos problemas que estavam afetando as mais de 500 famílias que vivem aqui na área do Carão e a gente não gostou do que eles tinham a dizer pra gente”, recorda José Augusto, presidente dessa associação.

A reunião serviu para duas coisas principais, buscar o financiamento do trator e para unir as várias associações de produtores do Carão em defesa de seus direitos. Pressionaram daqui e dali, conseguiram manter a escola, ajeitaram a estrada que estava rompida e deram até uma melhorada no serviço da assistência técnica.

“Passamos dois anos lutando feito doidos, perdendo dias e dias de trabalho com viagens perdidas e outras aproveitadas atrás de autoridades, banco e para resolver os problemas dessa burocracia que mata a gente. A maioria dos produtores já nem acreditava que o financiamento fosse sair, mas quando conseguimos assinar o contrato no dia 17 de janeiro”, recorda.

Então, surgiu outro problema sério, ninguém sabia operar o trator e manejar as máquinas. Outro desafio para vencer a burocracia até conseguir acertar um curso pelo Serviço Nacional de Aprendizado Rural, então os produtores se animaram e 40 participaram do treinamento.

“Por fim, ninguém acreditava que fosse dar milho bom para pagar o financiamento e a maioria estava mesmo inclinada a plantar capim, precisamos nos reunir e conversar bastante para resolver a questão e assim, cinco produtores plantaram um total de 58 hectares de milho. O resultado está sendo tão bom que, se Deus quiser e o banco liberar crédito no tempo certo, nós vamos plantar pelo menos 250 hectares neste ano”.

A afirmação de José Augusto está fundamentada no fato de que durante a reunião realizada pela associação na última quarta-feira, participaram mais de 40 produtores, todos em busca de regularizar seus cadastros a fim de conseguir o financiamento para mecanizar a terra e custear a produção.

A reanimação também é motivada pelo fato de que, organizados, conseguiram além do apoio do governo do Estado através da Seater, Seap, portas abertas no Banco do Brasil e apoio da Secretaria Municipal da Agricultura de Rio Branco (Safra), que inclusive emprestou um trator e carreta para ajudar na colheita da produção que está acontecendo agora. Tam bem é bom lembrar que as análises de fertilidade do solo foram realizados pelos laboratórios da Universidade Federal do Acre (Ufac).

Mas resta um problema: “A agricultura em nosso Estado esteve tão abandonada que no município de Rio Branco já nem existe mais nenhum armazém para estocar a produção. Por causa disso, a Safra nos emprestou um caminhão que está levando nosso milho para ser estocado no Bujari. Nossa luta agora é para que o governo construa um armazém aqui na linha da Transacreana porque estamos sendo, neste momento, o maior pólo de produção familiar no município”.

 

 

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Rio Branco-AC, 14 de abril de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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