| COTIDIANO | |
Uma nova vida no Mocinha Magalhães Bairro ganha asfalto, creche, centro de saúde, rede de água e esgotos e casa para quem morava em área de risco |
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OMocinha Magalhães, que até há bem pouco tempo era um dos bairros que ofereciam as piores condições de vida a seus moradores, hoje tem suas ruas principais asfaltadas, redes de água, esgoto e drenagem instaladas. Ganhou creche e centro de saúde e famílias que viviam em áreas de risco ou de proteção ambiental estão sendo removidas para casas novas. Assim os moradores do Mocinha Magalhães ganham uma nova vida graças à organização da comunidade e às obras que vêm sendo realizadas pela prefeitura de Rio Branco através do Projeto Habitar Brasil (HBB), aprovado pelo Ministério das Cidades e que tem sua execução fiscalizada pela Caixa Econômica Federal. Embora ainda haja muito a ser feito, os moradores não escondem sua satisfação com as obras já realizadas e alguns até reclamam com pressa para que outros benefícios cheguem logo. Com um pouco mais de 50 hectares invadida no início dos anos 90, o bairro Mocinha Magalhães, situado entre os conjuntos Rui Lino, Tucumã e Distrito Industrial, é habitado por mais de 820 famílias que antes moravam numa das áreas consideradas de pior qualidade de vida de Rio Branco. Essa situação favoreceu a aprovação do projeto de urbanização do bairro pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Sua escolha entre milhares de outros enviados por prefeituras de todo o Brasil aconteceu porque ele apresenta o diferencial de propor, além da melhoria da infra-estrutura de água, esgoto e demais serviços públicos, a remoção e o reassentamento, no próprio bairro, das 126 famílias que viviam em áreas de risco ou de proteção ambiental. Isso representou uma verdadeira reforma agrária urbana permitindo a regularização fundiária para que os invasores passem a ter títulos e ser donos efetivos do local onde vivem. Casa nova A dona de casa Kátia da Silva Ribeiro, 31, era uma das moradoras da rua da Ingá, que tem sua maior parte coberta pelas águas do igarapé São Francisco a cada chuva forte. Sua família foi removida, a casa antiga demolida e o terreno integrado à área de proteção ambiental do igarapé para o uso e lazer da comunidade. “Toda vez que chovia mais forte, a gente que morava na Baixada da Ingá tinha de pegar as coisas e correr para a casa dos vizinhos. Na minha casa a água chegava até a janela, era uma tristeza. A casa era muito ruim e balançava todinha quando a gente andava dentro dela”, recorda Kátia. “Agora ganhei uma casa nova na rua do Calçadão. A casa é de alvenaria e muito boa, tem espaço pra gente ampliar, faz dois meses que mudei para cá. Parece que é um sonho!” Reclamações Já o marceneiro Bruno Alves Brito, 18, pai de um filho, e a esposa Drieli, 21, continuam morando num barraco construído com restos de madeira.“Toda vez que chove forte a água invade o terreno todo e a gente tem de sair daqui. Com a água vêm um monte de formigas, baratas, rato, tudo que não presta, é uma tristeza”, afirma Drieli. “Nossa casa está muito ruim, chove dentro e balança bastante. Para mim essa obra está muito demorada, eu queria era me mudar logo para a casa nova. Se eu tivesse dinheiro não estava morando mais aqui”, reclama Bruno. A também marceneira Jessivânia Francisca da Silva, 29 anos, moradora da Baixada da Ingá e vizinha de Drieli, explicou: “Depois que a prefeitura começou a fazer essas obras aqui, nosso bairro melhorou muito, todo mundo está feliz, mas eu estou triste porque ainda não recebi a minha casa. Quando receber a minha casa o Mocinha vai ficar 100%”. Novo ânimo Funcionário da Emurb, Francisco Lima dos Santos, 43, vive numa casa improvisada com laminados de madeira na parte alta da rua da Ingá há cinco anos. “Nossa condição aqui era tão ruim que nunca me animei a fazer uma melhora na casa e até estava economizando dinheiro para fazer moradia em outro lugar. Agora, que arrumaram a rua, instalaram encanamento para água e esgoto e ainda me deram um banheiro de presente, resolvi gastar as economias e construir uma casa de alvenaria. Tenho fé de que até dezembro vou estar morando na casa nova”, afirma. Raimundo Garcia Cabeça, 84, é um dos fundadores do bairro e sempre enfrentou a lama e outras dificuldades que afetavam a vida de todos os moradores, até quando tinha algum problema de saúde. Recuperando-se de uma dengue, na sexta-feira, foi ao módulo de saúde em busca de remédio para aliviar uma forte enxaqueca. “Antes a gente sofria muito aqui, agora está bom, a gente tem onde se socorrer”, diz. Nova geração Na sexta-feira foi o primeiro dia de inscrição das 85 crianças que serão atendidas pela recém-construída creche Irmãos Mi e Bino, nome dado pela comunidade em homenagem às duas crianças que morreram afogadas nas águas do São Francisco no início deste ano. A creche atenderá 60 crianças de três anos e 25 de dois anos e vai gerar 30 empregos. “Até agora tenho sido obrigada a levar minha filha junto comigo quando vou fazer faxina ou preparar salgadinhos. O pessoal não gosta e por causa disso já perdi vários empregos. Com a creche vou poder trabalhar sabendo que minha filha está bem. Vou sofrer porque nunca fiquei afastada dela, mas vai ser bom para nós duas”, explica Francileuda Leite, 24. Meia felicidade Morador da rua da Banana, João Francisco de Souza, 65 anos, possuía um lote de 70 metros de frente por 90 de fundo onde há 14 anos cultivava uma horta que teve de ser dividida para dar lugar à construção de oito casas e uma rua. “O asfalto é bom para todo mundo, só não gostei porque precisaram do meu terreno para construir as casas. Eles me deram uns materiais de construção, mas fiquei sem a horta de onde eu tirava uma média de R$ 40 a 60 por dia, por isso eu digo que foi bom para os outros”, queixa-se. Flores - Mais de 700 moradores participaram das 31 turmas dos cursos oferecidos pela prefeitura em parceria com o Sest/Senat. Entre eles, o da produção de flores e plantas ornamentais atraiu a atenção do grupo de Mulheres Trabalhando com Arte (Mutarte), que improvisou um viveiro, no qual estão produzindo mudas que serão usadas pela prefeitura no projeto de ajardinamento do bairro. No quintal da casa de Livaneiva Paiva da Silva, 28, está o viveiro onde também trabalham Maristela Oliveira de Mesquita, 35, e demais integrantes do Mutarte. “Nosso grupo é composto por 15 mulheres. Fazemos artesanatos com pet, barbante, decoramos sandálias, ímãs de geladeira, bonecas, trabalhos em EVA e muito mais. Nos animamos muito com o curso para a produção de mudas de plantas e flores que estão ficando muito bonitas”, afirma. A comerciante Lisiane Filgueira de Souza, 24, mora no bairro há nove anos, quando o pai montou o primeiro comércio da comunidade, na rua da Melancia. “Naquela época havia tanta lama que a gente tinha de colocar sacos plásticos nos pés para poder ir à escola. Até mercadorias faltavam porque era difícil trazer até aqui dentro. Também tinha muito marginal. Agora o asfalto está aí na porta, ganhamos escola, creche, posto de saúde e centro comunitário, a polícia tem acesso e nós já estamos planejando uma reforma para melhorar a aparência do nosso comércio porque o local está melhor, mais valorizado”, destaca Lisiane. Projeto em três tempos O economista Márcio Veríssimo, coordenador-geral do projeto Habitar Brasil, informou: “Mais do que um projeto de construção e infra-estrutura, ele prevê a transformação social da comunidade a fim de que seus integrantes possam viver melhor e ascender socialmente. Por isso as ações não se limitam ao asfaltamento dos 1.700 metros das ruas da Melancia, Laranja, Tucumã e parte da Banana, mas se estende pelo reparcelamento dos lotes, remoção e reassentamento de moradores. Além da instalação de redes de distribuição de água e coleta de esgotos, estão sendo construídos 300 banheiros de 1,60 por 2,20 metros, equipados com tanque de lavar roupa, pia, chuveiro, vaso sanitário e caixa d’água de 500 litros. Dependendo do caso, os moradores estão recebendo kits de até R$ 2.300 para realizar melhorias em suas casas. Os três eixos do projeto estão baseados na Mobilização Comunitária, Educação Ambiental e Geração de Trabalho e Renda. Mobilização comunitária: Está sendo iniciada este ano com cursos e seminários para fortalecer a associação de moradores e grupos da comunidade. Isso será feito através do Centro Comunitário. Educação Ambiental: Acontecerá pela realização de campanhas e palestras de conscientização sobre a importância de cada um para o bem-estar da comunidade. Uso racional da água, não jogar lixo nos esgotos e terrenos baldios, reciclagem e preservação dos prédios públicos. Geração de trabalho e renda: Continuidade na realização de cursos e treinamentos de capacitação para que as pessoas sejam inseridas no mercado de trabalho. Estimular a formação de duas cooperativas - uma de produção e outra de serviços.
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