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Uma reverência à Comunicação

Depois de 40 anos sem vir ao Acre, Glória Perez mostra como a comunicação simples é eficiente para tratar das questões complexas do mundo jovem

Marcos Vicentti
Escritora foi homenageada durante assinatura do Termo de Cooperação que integra o Acre a dois projetos da Fundação Roberto Marinho


Renata Brasileiro

Com exibição de vídeos e uma palestra ministrada pela escritora acreana Glória Perez, cerca de 200 jovens de escolas Estaduais do ensino médio, participaram ontem, no Teatro Plácido de Castro, da assinatura do termo de cooperação que vai integrar o Acre aos Projetos Sexualidade: Prazer em Conhecer e Tá na Roda – Uma Conversa sobre Drogas.

Idealizado pela Fundação Roberto Marinho, o convênio firmado entre os parceiros Governo do Estado do Acre e o Ministério Público Estadual marca o início de uma série de atividades que abordam temas polêmicos envolvendo sexualidade e drogas, voltados para o público jovem.

O projeto, que segue uma metodologia educativa, entra em execução em janeiro do próximo ano e o diferencial da realização no Estado para o resto do país, está em atender além das escolas da rede pública, algumas casas de atendimento a crianças e adolescentes, como a Casa Reviver, Casa Mocinha Magalhães, Pousada do Adolescente, Recanto da Criança e outras entidades.

O secretário geral da Fundação Roberto Marinho, Hugo Barreto, disse que o projeto foi desenvolvido pela instituição devido a complexidade em trabalhar com os referidos temas “dentro do mundo dos jovens”, já que são pouco abordados dentro de casa e algumas escolas também não exploram os assuntos.

Segundo a promotora da Coordenaria da Infância e da Juventude, Kátia Guimarães, a meta é atender o maior número possível de jovens no Acre com o trabalho preventivo que prevê maior esclarecimento relacionado aos temas abertos. Ela ressaltou que depois de realizadas na capital, as atividades serão expandidas para todos os municípios, haja vista que no interior do Estado, é que está concentrado o maior índice de gravidez indesejada na adolescência, paralela a falta de informações, também relacionada aos malefícios do uso de entorpecentes.

Alunos conduzem debate

Em homenagem à escritora, alunos da Escola Modelo Glória Perez estiveram presentes no evento, que também contou com a participação do Colégio Estadual Barão do Rio Branco (CEBRB) e da Escola José Rodrigues Leite.

Antes de iniciar a série de questionamento à escritora, conduzida pelos próprios alunos, a estudante do 1o ano médio da Escola José Rodrigues Leite, Shayenna Perla, 15, interpretou um poema produzido por um grupo de alunos da escola dedicado à novelista. A homenagem destacou suas principais autorias e adaptações, entre elas Pecado Capital, Hilda Furacão, Barriga de Aluguel, Explode Coração e sua última trama, O Clone.

A novela O Clone ganhou destaque durante o debate com exibição de cenas que revelaram o perfil de dependentes químicos, interpretados pelos atores Débora Falabella e Osmar Prado.

Perguntas como o que levou Glória Perez a enfatizar o perfil de dependentes químicos dentro de campanhas e como foi trabalhar com personagens reais, foram algumas das curiosidades dos estudantes.

Glória atribui essa técnica de desenvolver campanhas dentro de novelas e seriados que vão ao ar, principalmente em horário nobre, “devido a maior abrangência de absorção dos temas, já que é abordado dentro de tramas que fisgam a atenção de milhares de telespectadores”.

A escritora ressaltou a novela Explode Coração, que com a campanha de menores desaparecidos, fez com que 150 crianças perdidas fossem reconhecidas e voltassem para casa. Além disso, o apelo dos pais em cenas incentivou a criação de uma delegacia especializada que trabalhasse na busca imediata de crianças desaparecidas.

“Antes, a polícia só acionava busca dos menores após 48 horas do desaparecimento. Era um absurdo. Imaginem crianças de 4 anos ou menos esperando esse tempo todo para serem encontradas nas ruas. E em casos de seqüestro, era certo que a criança não seria mais reencontrada, pois, 48 horas é o tempo suficiente para um elemento tirá-la do país”, enfatiza Glória.

Sexualidade, drogas e muito diálogo

Com a direção de Fernando Meireles (o mesmo diretor do filme “Cidade de Deus”), os programas “Sexualidade: prazer em conhecer” e “Tá na Roda, uma conversa sobre drogas” mostram, com a dose exata da linguagem adolescente, todos os problemas ligados à sexualidade e ao consumo de drogas. Os vídeos são recheados com depoimentos extraídos da novela “O Clone”, quando a autora Glória Perez fez uma reflexão refinada sobre o envolvimento de pessoas comuns que um dia resolveram experimentar algum tipo de alucinógeno e se tornaram dependentes.

O secretário da Fundação Roberto Marinho, Hugo Barreto, fortaleceu o papel do judiciário no processo educacional. “Desconheço o envolvimento do Ministério Público de outros Estados em que há esses programas. Temos que ampliar a experiência acreana para o resto do Brasil porque é com o sonho de todos que conseguiremos vislumbrar uma nova história”, disse Barreto, lembrando o mais expressivo nome da Igreja Católica da ala “progressista”, D. Hélder Câmara.

Os programas “Sexualidade_ prazer em conhecer” e “Tá na Roda, uma conversa sobre drogas” já é apresentado para os adolescentes dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Maranhão. “Tínhamos que estar envolvidos com a solução desses problemas. O Ministério Público, através da Coordenadoria de Defesa da Infância e da Juventude, não poderia ficar omisso em relação a tudo isso que está acontecendo ao nosso redor”, afirmou o procurador-geral, Eliseu Buchemeier.

Os programas fazem parte de um kit composto por três fitas de vídeo, e um livro. Todo o material é entregue a entidades que desenvolvem trabalhos com adolescentes.

De acordo com a Secretaria Nacional Anti Drogas, dos 156 mil casos diagnosticados ano passado no país, 15% atingiram jovens com idade entre 15 e 24 anos. Além disso, ainda de acordo com a secretaria, mais da metade dos 170 milhões de brasileiros são atingidos direta ou indiretamente pelas drogas legais ou não. O secretário da Fundação Roberto Marinho informou ontem que, no Brasil, dos 2,5 milhões de partos realizados no ano passado, 28% foram feitos em adolescentes. Isso envolve, aproximadamente, 700 meninas.

Ao final da solenidade de assinatura, o governador Jorge Viana preparou a segunda surpresa para a escritora. Entregou o diploma de Glória Perez de conclusão da 4ª série primária. Surpresa com a homenagem, Perez disse que “essa foi um nocaute porque eu jamais esperei tamanha atenção”.

Autora faz juventude refletir sobre a condição de “estar jovem”

Os alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Glória Perez, localizada no conjunto habitacional Xavier Maia, estavam inquietos. A notícia de que a escritora que leva o nome do centro de ensino chegaria acompanhada do governador do Estado, Jorge Viana, mudou a rotina da escola, que tem orientação pedagógica com ênfase no Ensino das Artes e na Comunicação. Oficialmente, a Escola Glória Perez foi inaugurada ontem. Na prática, ela já educa aproximadamente 1,1 mil alunos distribuídos em três turnos, desde o início de abril.

Depois das visitas que fez às salas de aula e aos laboratórios, Glória Perez fez um breve discurso de saudação aos conterrâneos que estão iniciando um período educacional direcionado à comunicação e às artes. “É impressionante a beleza do trabalho que está sendo desenvolvido na Educação do Acre”, reconhece a escritora. De fala direta e lógica, a autora foi simples quando tentou explicar a emoção de estar de volta à terra natal após 40 anos. “Haja coração”, brincou, fazendo alusão a uma de suas criações, a novela Explode Coração.

“NASCI” - “A Glória orgulha a todos nós”, confessou Arnóbio Marques diante dos alunos que já se espremiam para poder conseguir um autógrafo da artista. Os alunos fizeram homenagens e o governador Jorge Viana anunciou a primeira surpresa da manhã. Trouxe a professora que alfabetizou Glória Perez há quase 50 anos. Iracila Magalhães é uma professora aposentada. Em 1953, ensinou os traços das primeiras letras daquela que viria a ser uma das mais prestigiadas escritoras do país. “A rapidez com que ela aprendia as coisas”, respondeu a professora quando perguntada se havia algo na pequena Perez que chamava atenção. De fato, Glória iniciou os estudos com a professora em março e em maio já sabia ler e escrever. “Era impressionante”, recorda Magalhães. “A primeira poesia que ela escreveu tinha o título de ‘Nasci’. Ela é uma pessoa especial, sem dúvida.”

Artistas acreanos propõem produção televisiva a Glória Perez

Andréa Zílio

Um bate-papo entre artistas. Assim foi a conversa da escritora Glória Perez com os profissionais de música, teatro e cinema acreano, no início da noite de ontem, no Museu da Borracha. Entre os principais assuntos discutidos, a possibilidade de se fazer uma produção de novela ou minissérie no Acre.

Com a agenda repleta de programações foi impossível não ocorrer o atraso de quase uma hora, mas a simpatia de Glória e o bate-papo foram a recompensa dos artistas locais que por alguns momentos viram a esperança de ver produções da Amazônia veiculadas pela Rede Globo.

Glória fez um resumo de sua história, relembrando o primeiro trabalho de sucesso como colaboradora de Janete Clair. Falou da dificuldade em sair de um lugar pequeno para uma metrópole. “Quando saí do Acre, ainda era território. Aqui não havia nada e fui buscar meu crescimento como pessoa. Assim como muita gente, também me senti pequena. Mas vocês não imaginam o quanto somos fortes”.

Ela contou um pouco da maratona exaustiva e prazerosa que é fazer uma novela. São seis capítulos por semana, cada um com 36 páginas. Uma corrida que dura nove meses. Disse ainda que por diversas vezes quis fazer alguma produção no Estado, mas sempre teve como resposta a dificuldade de se fazer uma produção onde não há estrutura.

A escritora afirmou que não desistirá da idéia de fazer uma produção no Acre. Citou a minissérie como algo mais provável de acontecer. Depois os artistas locais falaram da realidade cultural no Estado e propuseram pensar na produção da minissérie juntamente com a Fundação Elias Mansour, para elaborar um projeto e apresentar à Globo. (Com a Assecom)

 
 
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Rio Branco-AC, 15 de novembro de 2003
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