OPINIÃO
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José Cláudio Mota Porfiro *

 

A vez dos orgânicos

Quando escrevi sobre os alimentos geneticamente modificados, ou transgênicos, fiz advertência relativa à necessidade de debates isentos de emoções. Recomendei observar os fatos com os olhos do cientista que tem como fim único ser útil ao homem, independentemente de sentimentalismos.

Há interesses de lado a lado. Para uns, a ordem natural não pode ser quebrada. Para outros, o homem deve fazer uso da inteligência para transformar a natureza em proveito dele próprio. Na verdade, uns querem vida saudável, outros querem transfigurar a natureza e outros querem dinheiro.

É interessante, então, fazer algum comentário sobre a produção dos alimentos orgânicos, aqueles adubados com esterco e paul. Convém deixar claro, aqui, que, mesmo os que partilham essa idéia, naturalmente, gostam, querem e precisam de dinheiro.

De um lado, pudemos observar este mês o lançamento de um projeto para o mercado de orgânicos, inédito no País. Trata-se de uma rede de franquia de restaurantes certificados pelo Instituto Biodinâmico (IBD), a ser implantada pela empresa DoctorFood, especializada na criação e em projetos para alimentação. Além dos pratos cem por cento orgânicos - de verduras e cereais a carnes e massas - o restaurante servirá uma dieta balanceada e sem frituras. A primeira loja será inaugurada em janeiro, em São Paulo, mas as ambições têm amplitude nacional. Um dos cuidados é fechar parcerias com fornecedores com atendam às regiões mais distantes do Brasil. A Native, fabricante de açúcar, café e produtos orgânicos, é uma das parceiras. A Fazenda São Marcelo, de carne bovina, é outra. Consideremos, no caso do Acre, o nosso já famoso “boi verde”.

De outro lado, segundo publicação brasileira digna de crédito, as vendas mundiais de alimentos orgânicos devem alcançar 25 bilhões de dólares no fim de 2003, conforme pesquisa realizada pela Soel - Fundação Agricultura e Ecologia, da Alemanha. Tal cifra brilha aos olhos de países em desenvolvimento. A margem de lucro também é atrativa. Segundo a publicação acima citada, o preço do orgânico é entre vinte e trinta por cento mais caro que o do produto convencional.

Nesse contexto, as exportações são o motor do crescimento do cultivo orgânico em países como o Brasil. Melhor: os europeus passaram a incentivar a sua própria produção e a fomentar o mercado interno dos outros países. O Brasil, segundo o estudo, deve produzir café, soja e frutas tropicais orgânicos, culturas não adaptadas à Europa. Outra oportunidade é o açúcar, pois os produtores preferem os produtos derivados da cana produzida organicamente em países tropicais. Considere-se, no nosso caso, o açúcar gramixó produzido no vale do Juruá.

São apenas dois aspectos que têm atraído as atenções de investidores da Austrália, da Itália e da Alemanha, os principais produtores de orgânicos do mundo. E não é preciso ressaltar que a tendência do mercado consumidor aponta na direção de uma alimentação, comprovadamente, mais saudável desde milênios.

Talvez por tudo isto nós devamos voltar a cultivar as velhas hortas de fundo de quintal. Como elas eram saudáveis!

É claro que poderemos ganhar dinheiro a partir de uma aposta fechada nas amplas possibilidades dos orgânicos.

* Pesquisador do DFCCS/UFAC

 

 
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Rio Branco-AC, 15 de novembro de 2003
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