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| Ameaça aos tracajás do rio Abunã Ambientalistas abandonam atividades de proteção a animais ameaçados de extinção em protesto à falta de pagamento |
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Navegadores antigos contam que o rio Abunã, que divide a fronteira do Acre com a Bolívia, sempre foi de navegação difícil por ser de aspecto selvagem, com muitos balseiros e paus atravessando o leito navegável. Mas um dos itens das dificuldades incluía seres vivos. “Era tanto tracajá no rio que muitas vezes a gente chegava a quebrar a palheta do motor nos cascos dos bichos”, conta o navegador Alberto Susuaruna de Abreu, 52 anos, há mais de 30 subindo e descendo o rio. “Quando os tracajás são novos, de casco mole, o motor ainda se salva. Mas quando a gente topava com aqueles de casco duro, a palheta quebrava na hora”, acrescenta. A abundância de quelônios que incomodava os barqueiros e fazia a alegria dos nativos que se alimentavam de sua carne e de seus ovos, de cerca de uma década para cá, passou a ser uma espécie de lenda e motivo de preocupação, principalmente para os ecologistas. Moradores e viajantes começaram a perceber que a ocorrência dos animais nas praias, mesmo em período de desova, diminuiu sensivelmente. A causa é a ação predatória do homem e dos animais que se alimentam dos ovos e dos próprios quelônios. A diminuição da espécie na região, com claros sinais de que poderia caminhar para a ameaça de extinção, levou um grupo de ambientalista a se reunir e montar um projeto visando garantir a perpetuação da espécie. Mas agora, por falta de apoio financeiro, o projeto também está ameaçado tanto quanto o futuro dos pequenos animais. O projeto foi criado no ano 2000 por ambientalistas ligados à Associação de Moradores de Plácido de Castro (Amplac), município próximo à sede do que seria uma futura base de pesquisa, às margens do rio, a duas horas de barco do Porto Dias, localidade pela qual os moradores de Acrelândia também acessam o Abunã. O trabalho consiste em, no período de desova, reunir os ovos num berçário no qual, depois de 90 dias, ocorre o que os ambientalistas chamam de eclosão: os pequenos tracajás, do tamanho e redondos como um biscoito, ainda com os casco mole, saem dos ovos e permanecem dentro da areia, à espera do recolhimento. Depois desse período, são levados para uma espécie de incubadeira dentro do rio. Ali eles convivem de seis meses a um ano, quando são definitivamente levados ao seu habitat natural forte o suficiente para enfrentar seus predadores. “O maior predador desses animais são os peixes e os jacarés. O homem também contribui muito para colocá-los entre as espécies ameaçadas de extinção”, diz o ambientalista Antônio Abrão Libdy Kerdy, um dos coordenadores do projeto Quelônios do Rio Abunã. O recolhimento dos ovos num só local é uma forma de melhorar a vigilância e garantir uma “eclosão” com o mínimo de perdas possíveis. Nos ninhos naturais, encontrados de formas dispersas ao longo das praias, os ovos e os pequenos tracajás são presas fáceis de animais e do próprio homem. É por isso que no “berçário” instalado às margens do rio Abunã a vigilância é de 24 horas. Os vigilantes, como Valdemir Pereira da Silva, de 24 anos, chegam a portar armas. “A gente fica de olho nos bichos, em jacarés e até mesmo onças que tentam cavar a areia em busca dos filhotes. Mas nos preocupamos também com o bicho homem, que vem aqui, de noite, tentando resgatar os ovos e os filhotes”, conta Valdemir. “Parece que os ovos e os próprios tracajás alcançam bons preços no mercado clandestino de animais”, acrescenta. O projeto de proteção aos animais está ameaçado porque o coordenador Abrão Kerdy e o fiscal de praia Valdemir Pereira da Silva são os únicos a resistir no trabalhado para garantir a desova deste ano. Fruto do trabalho de recolhimento da desova deste ano, ali no berçário estão recolhido cerca de 30 mil ovos – tudo devidamente catalogado. As outras pessoas envolvidas com o trabalho, incluindo 13 fiscais de praia e um coordenador, debandaram por falta de pagamento. “Nós apelamos às autoridades, mas não fomos atendidos. Não podemos negar que o Governo do Estado, através do Imac, nos ajuda com alimentação e liberação de combustível para as voadeiras com as quais a gente se locomove ao longo do rio. Mas em relação ao pagamento dos rapazes que fiscalizam e recolhem ovos nas praias, que é cerca de um salário mínimo por mês, a situação é muito difícil. Nas condições atuais, no ano que vem, infelizmente, vamos ter que paralisar o projeto”, diz Abrão Kerdy. Em protesto ao não pagamento, o coordenador parou de hastear as bandeiras do Brasil, do Acre, da Bolívia e do Município de Acrelândia na entrada da sede do projeto. “É um protesto contra o isolamento a que fomos condenados”, acrescenta Kerdy. Projeto precisa de R$ 40 mil, mas Pesacre diz que não tem responsabilidade por pagamentos Para administrar o projeto de proteção aos quelônios do Abunã, de acordo com a coordenação, seriam necessários R$ 40 mil a cada seis meses, o período que compreende a desova, o nascimento e a soltura dos tracajás na água. O dinheiro vinha através de convênio de várias entidades e instituições. Este ano, porém, faltou a verba para o pagamento do pessoal que faz o trabalho de campo, os chamados ficais de praia. “Para que a gente possa continuar, é preciso a garantia do pagamento de pelo menos R$ 12 mil em atraso e de mecanismos que não nos permitam mais passar por esses sacrifícios”, afirma Abrão Kerdy. “Nós estamos aqui numa atividade quase missionária e queríamos que o poder público, através das organismos de preservação da natureza, também fizesse sua parte”, acrescenta. O pagamento do pessoal responsável pela fiscalização das praias, segundo Kerdy, foi assumido pelo Pesacre – entidade não-governamental envolvida com a preservação do meio ambiente. A coordenação da ONG nega ter assumido o compromisso para o pagamento. “Nós conhecemos o projeto do rio Abunã e prestamos assessoria ao pessoal da Amplac, mas jamais assumimos o compromisso de fazer pagamentos porque o Pesacre não tem recursos para isso”, disse a coordenadora da Organização, Miriam Jacqueline. “Nós sabemos da problemática do pessoal e estávamos assessorando o projeto em busca de recursos junto ao Fundo Nacional de Meio Ambiente, mas jamais assumimos a responsabilidade por qualquer tipo de pagamento”, acrescentou.
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| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Com Leonildo Rosas |
| ANCELMO GÓIS |
| Com Ancelmo Góis |
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