COTIDIANO

Reencontro com a paz

Sena Madureira, cidade que já registrou uma série de crimes hediondos, tem agora índices de homicídios bem abaixo da média

Assecom
Equipe de segurança do
município comemora resultados


Tião Maia

Sena Madureira - Para uma cidade que nos últimos anos produziu provavelmente as manchetes mais violentas da imprensa acreana, Sena Madureira, a 145 quilômetros da capital, em matéria de segurança pública, tem o que comemorar no ano de seu centenário, a ser celebrado no próximo dia 25 de setembro: faz pelo menos seis meses que não é registrado crime de homicídio no município, tanto na zona rural como urbana, e outros tipos de crimes, inclusive de trânsito, também vêm diminuindo.

Isso significa que, em matéria de segurança pública, a se manter os números atuais, Sena Madureira, com uma população estimada em 40 mil habitantes, entra para a lista dos melhores lugares de se viver no país, onde os crimes estão dentro do chamado “limite tolerável” do sistema de segurança. Instituições estudiosas da violência nas cidades brasileiras, como o Instituto Fernando Braudel, de São Paulo, citam como “tolerável” o índice de 15 homicídios por ano para cada grupo de 100 mil habitantes. A média nacional de crimes de homicí-dios no Brasil, país que registra o índice de 40 mil mortes por ano, é de 21 homicídios por cada grupo de 100 mil habitantes. Esse número revela que o Brasil, cuja densidade demográfica representa apenas 2,8% da população mundial, é responsável pelo índice de 11% de todos os homicídios ocorridos anualmente no mundo, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Dados como o apresentado acima, comparados a Sena Madureira, dão a impressão de que o município nem fica no Brasil. De 1999 a 2003, a média de crimes de homicídios na cidade era de seis mortes por ano. Foi nesse período que foram registrados crimes hediondos como, por exemplo, o estupro seguido de morte da estudante Luziene Queiroz, então com 17 anos, cujo crime até hoje está sem solução apesar de cometido com requintes de perversidade poucas vezes registrados na crônica da violência. Outro caso, registrado em 2000, também assustou Sena Madureira quando o produtor rural Francisco Bezerra, então com 63 anos de idade, foi encontrado morto no chamado porto de catraia do Babá, às margens do rio Yaco, com visíveis sinais de tortura: ele teria sido assassinado a golpes de socos e pontapés e dois índios da etnia Kaxinawá foram indiciados como suspeitos, já que na véspera do crime foram vistos bebendo em companhia da vítima.

Mas, esse período de mortes violentas já vai longe e alguma coisa está mudando em Sena Madureira. No quinto mês de 2004, as autoridades de segurança comemoram índice zero de homicídio em Sena Madureira – embora tenha havido uma morte num quarteirão onde moram várias famílias, quando um pai reagiu a uma tentativa de estupro da sua filha e matou, a facadas, o agressor. “Nós não contabilizamos isso porque se trata de um caso isolado, aparentemente de legítima defesa. O que consideramos é que, em relação à média de crimes, isso vem baixando e se não fosse esse caso isolado, acho que bateríamos o recorde de uma cidade com uma população relativa sem nenhum homicídio nos primeiros cinco meses do ano”, disse o tenente PM José Messias, chefe do policiamento militar na cidade. “E olhe que, para cá, vêm ocorrências de Santa Rosa do Purus e Manuel Urbano”, acrescenta.

“É um dado fantástico”, comemorou, em Rio Branco, o delegado-geral de polícia, Walter Prado. “Nós acompanhamos isso com muito entusiasmo e temos consciência de que em Sena Madureira já estão se refletindo as ações e o planejamento do governo para a área de segurança.”

bares fechados - A principal razão do reencontro de Sena Madureira com a paz seria a aplicação da portaria da Secretaria de Justiça e Segurança Pública normatizando o horário de abertura e a classificação dos bares da cidade. Os bares considerados de terceira categoria, que funcionam nos bairros periféricos, abrem, no máximo, até as 20 horas durante a semana e, nos feriados e finais de semana, vão até as 22 horas. Já os de segunda categoria, localizado nas áreas centrais da cidade, vão até as 22 horas na semana e até a meia-noite nos finais de semana. “Aqui não temos os chamados bares de primeira categoria, que podem contratar segurança privada e funcionar até as madrugadas”, diz o delegado de polícia civil do município, Alberto Dellacosta. “Creio que o rigor da aplicação da portaria está ajudando a recuperar a ordem pública, porque não temos homicídios e até as brigas de ruas, que resultavam em ameaças e tentativas de homicídio, também estão diminuindo. Mas, mesmo assim, a gente não descuida: fazemos rondas diárias e mapeamos os lugares eventualmente mais violentos”, disse.

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de maio de 2004
   GIRO GERAL
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Com Ancelmo Góis
 
 
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