| OPINIÃO | ||
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Florentina Esteves * |
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Sem lenço e sem documento Gosto de andar por aí, sem destino – como se diz, sem lenço e sem documento – pelo simples prazer de descobrir a cidade. Digo “descobrir” porque ela vem crescendo tanto que cada dia uma nova praça, uma nova rua, um novo bairro estão surgindo. E lá vai ela se espraiando. Nascida e sempre morando no Segundo Distrito, pra mim, ir ao “outro lado” – como se dizia no tempo das catraias, - é ultrapassar nossas fronteiras , ir a outras paragens nem sempre conhecida. E a gente se sente quase forasteiro. Não é o mesmo que ir ao Quinze ou à Seis de Agosto. Estas, quase nada mudaram. São as mesmas casas de madeira, telhado pontudo, uma ou duas janelas à frente e, às vezes, uma varanda. Também um jardinzinho caprichosamente cuidado, de onde surge, de repente, um latido nervoso. Muito raramente vê-se entre as casas de madeira, alguma de alvenaria. Estas, todas gradeadas, denunciando a insegurança que tomou conta da cidade, pela violência. Mas não sendo capazes de alterar a fisionomia de rua ou do bairro. Trocando em miúdos, o Segundo distrito e seus mais importantes bairros do Quinze e da seis de Agosto guardam a tradição daquela Rio Branco do tempo do Acre Território. E para “casar” com esta fisionomia, o governo restaurou a rua Eduardo Assmar aos moldes de cinqüenta anos atrás. E fez-se a harmonia do bucolismo. Andar no Primeiro Distrito, porém, é como estar em outra cidade. Atravessando a ponte, de pronto se nos depara a imponência do palácio do governo, a elegância e a modernidade e luxo do prédio da Assembléia, e, ladeando esses dois edifícios, em alvenaria, bancos e lojas. Subindo mais um pouco – pasmem! – um shopping center, em frente à praça onde se situam os prédios históricos da Polícia e da Prefeitura. Um parêntese: os mais jovens sabiam que onde hoje é a prefeitura foi uma cadeia pública? E depois da cadeia foi hotel? Se nos afastamos do centro da cidade, os bairros também nos chamam a atenção por sua modernidade e elegância. E a essa feição urbana não faltam bem cuidadas praças e jardins. Um bairro, em especial, do “outro lado”, considero o melhor, se não um dos melhores da cidade: é o Bosque. Mora-se bem e se tem junto a comodidade de um comércio variado e bem sortido, sem falar nos restaurantes, hospitais, bancos, academias, postos de gasolina e clubes recreativos. E como as casas do Bosque incorporaram a modernidade! Não lhes falta amplo jardim, e às vezes, mesmo uma bela piscina. Vive-se bem no Bosque. Só é pena que lhe falte vegetação, árvores na rua, praças arborizadas, alguma coisa que justificasse seu nome, de um passado nem tão distante. Mas é o preço do progresso... Porém eu dizia que gosto de sair por aí, pelo prazer de redescobrir a cidade. E sempre com roupas bem à vontade e a pé, não me escapam os detalhes. Pois ontem me bateu a nostalgia do “Papoco”, que hoje se redime de sua má fama chamando-se D. Giocondo. E vejam o antagonismo do pecado versus religião... Pois lá eu fui, à procura de algum vestígio que justificasse a antiga denominação. E sobe rua, desce rua, de repente me vi na beira do rio. Atracadas, algumas embarcações que servem de bar e restaurante. Bem à nossa moda, bem Acre, em comunhão com o rio, com nossa história. Fiquei um tempo ali a ver o movimento, mas sendo cedo, ninguém estava no restaurante que valesse a pena uma ida minha lá. E fui continuar minha andança, quando descobri que estava já na cabeça da ponte velha, sem ter alimentado a fantasia de rever aquele Papoco. Nada. Este, se ainda existe, deve ser apenas para os iniciados e em desoras. Naquela hora matutina, somente donas de casa varrendo a frente da casa, ou aguando o jardim. Nada que povoasse imaginações. Um bairro bucólico e pacífico como qualquer outro da cidade. Para me compensar da frustração, já que estava na cabeça da ponte metálica e perto do mercado velho, fui lá alimentar a nostalgia daquele dia. Embarafustei por seus labirintos, comprei incenso na Toca do Coelho. E pra quê comprei incenso? Que fantasias quereria eu exorcisar? Nem eu sei. * Professora e Escritora |
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