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Caminhos da cura

Jardins da saúde: Fonte de vida

Moradores do Primavera criam hortas e jardins para melhorar a saúde


Doutor Radjalma e estudantes
do curso de Medicina observam
cultivo de ervas medicinais


Juracy Xangai

A tradição afirma e a ciência confirma que, definitivamente, nós somos o que comemos e se nos alimentamos de forma incorreta, certamente nossa saúde nunca será tão boa quanto desejaríamos. Mas nesses tempos em que tudo é pressa e atribulação, onde encontraríamos tempo e orientação para que, de maneira simples, com o que temos à mão, encontremos nosso equilíbrio físico que oferece conforto ajudando a equilibrar também o espírito?

O médico Radjalma Cabral de Lima, especialista em plantas medicinais e homeopatia, que está baseado no Centro de Saúde do Tucumã e atende no posto de Saúde da Família do bairro Primavera, defende o resgate da cultura popular como forma de fazer com que as pessoas reencontrem a satisfação e a saúde que tanto desejam.

A idéia atraiu a atenção de pesquisadores do Parque Zoobotânico da Ufac, Funtac e Embrapa, que ajudam como voluntários, e dos alunos do curso de Medicina da Ufac que estão estagiando ali como parte da disciplina de base da saúde da família. As secretarias estaduais de Saúde e Educação apóiam diretamente o projeto.

Para isso, sua equipe trabalha o projeto Jardins da Saúde, que a princípio se resume a estimular as pessoas a cultivar flores à frente de suas casas e nos quintais terem em cada casa uma horta com canteiros de verduras e ervas medicinais que quando usados da maneira correta e se transformam numa verdadeira farmácia doméstica, cuja principal função não é curar, mas evitar que as pessoas adoeçam. No final, os jardins são a mola que impulsiona as pessoas a apreciarem uma vida mais saudável em todos os sentidos.

“O nome Jardins da Saúde foi inspirado no nome do bairro, o Primavera, cujas ruas têm nome de flores e boa parte da população das pessoas é carente. A idéia parte do princípio de que adianta oferecer remédio para alguém cuja doença é causada pela fome e em desequilíbrios emocionais? A resposta é nada ou muito pouco porque às vezes seu corpo mal agüenta o remédio e a situação acaba piorando. Então é necessário orientá-los para que usem os recursos que estão ao alcance de suas mãos”, afirma o médico Radjalma, que está trabalhando em parceria com a direção da escola Darci Vargas, a associação de moradores e a equipe do posto de Saúde da Família.

PARTICIPAÇÃO POPULAR

Aproveitando o almoço do Dia das Mães como estímulo para a reunião da comunidade, o presidente da associação do Primavera, José Bernardo Filho, o “Panelada”, declarou seu apoio ao projeto e estimulou as famílias a participar dele. “O resultado foi até melhor do que eu esperava - mais de 300 mães estavam lá e, ao ver que um médico respeitava a tradição de usar ervas para tratar problemas de saúde e orientava sobre o uso de alimentos naturais para evitar doenças, elas se animaram e hoje nós temos verduras e ervas sendo plantadas nos quintais das casas, na escola e até no pátio da igreja”, disse.

SABERES DA COMUNIDADE

Radjalma lembra que, antes da descoberta da penicilina e da aspirina - a primeira extraída de um fungo (cogumelo) e a segunda, do salgueiro (árvore conhecida como chorão) -, as pessoas sempre se trataram e sobreviveram usando ervas e outros produtos naturais, mas esse conhecimento tradicional foi desprezado porque não tinha base científica.

“Nós respeitamos a cultura tradicional do ‘chazinho da vovó’ porque, embora ainda não haja confirmação científica de suas propriedades, as pessoas continuam usando e, se não fizesse efeito, elas teriam deixado de usar há muito tempo.”

Nas camadas mais humildes da população, que em geral tem dificuldade para comprar remédios das farmácias, o hábito do chazinho foi mais preservado, mas chega a ser usado de forma oculta. “Querendo parecer modernas, muitas pessoas acabam levando os mais idosos a não levar em consideração a experiência vivida ao longo dos anos. Esse preconceito precisa ser vencido porque há espaço para o respeito e a atuação das várias formas de busca da saúde que todos desejam e merecem”, prossegue.

A prática confirma as declarações do médico, que tem orientado os funcionários do centro de saúde a recolher informações das famílias sobre os tipos de ervas e para que são usadas, ao mesmo tempo em que as orientam a usá-las para ajudar no tratamento de diversos problemas de saúde.

Um dos que recebeu essas orientações foi o auxiliar de enfermagem Erzeni Ramos, carioca, 34, pai de um filho. “A princípio eu tinha minhas dúvidas, mas observei que, usando folha de capeba, conseguia fechar em três dias os cortes que levavam mais de uma semana sendo tratados com remédios da farmácia. Eu me animei. Recolho toda a informação possível, mas faço tudo sob a orientação do médico.”

Enquanto era atendido por Erzeni, o funcionário público aposentado Sebastião da Costa Silva, 72, pai de nove filhos e que sofre de hipertensão, empolgou-se. “Semana passada mesmo, a enfermeira me deu a boa notícia de que minha pressão estava certinha e continua assim desde que tenho usado o chá de alho todo dia. Também curei um problema sério de dor no estômago tomando chá da folha de mamão seca”, recorda.

UNIVERSIDADE DO POVO

Os 41 alunos do primeiro período de Medicina da Ufac, bem como outros 40 do segundo período e mais 40 do terceiro, além dos 19 que restaram da primeira turma, começaram há duas semanas seu estágio junto à comunidade e que vai durar três anos. “Estamos trabalhando dentro da disciplina de base da saúde da família. Nosso objetivo é prevenir as doenças, para isso entendemos que o médico precisa estar mais próximo do paciente para que confie nele e fale com mais liberdade. Ao mesmo tempo, aprendemos com eles como têm conseguido curar-se de maneira alternativa usando seu conhecimento tradicional.”

Octávio Pilon de Ângelo, também estudante de Medicina afirma: “Sei que os chazinhos funcionam. Minha mãe até hoje nos prepara um chá para combater os mais diversos problemas e tem dado certo”.

DOUTORA NATUREZA

Rosa Maria dos Santos, 69, mãe de doze filho, nasceu na Serra dos Pereira, no Ceará, de onde migrou para o Acre trazendo os conhecimentos que herdou da mãe. “A gente vivia num lugar pobre e sem recursos, quando alguém adoecia tinha de se valer dos chás e remédios que Deus colocou nas plantas. Minha mãe sabia muita coisa e ajudava as pessoas, eu prestei atenção e aprendi, herdei isso dela e hoje também ajudo as pessoas. Minha filha também gosta de fazer isso porque o povo é pobre e nem todo mundo consegue ficha nos hospitais, pois falta dinheiro para pagar consulta ou remédio.”

Em seu quintal, em meio a dezenas de espécies de plantas e verduras que usa e doa às pessoas para aliviar suas dores, ela recebe os alunos de Medicina e faz ecoar a sabedoria popular. “Quem faz medicina só pelo dinheiro não pode ser um bom médico. Tudo que a gente faz deve fazer com amor, que, aliado com a fé, funciona para curar qualquer coisa. Porque nesta vida tudo vai conforme a vontade de Deus e ele quer que a gente seja feliz”, observa Rosa.

O QUE DIZ A TRADIÇÃO

Ao longo de milhares de anos, acossadas pelos mais diversos males, as pessoas foram experimentando ervas e outros produtos da natureza na busca da saúde. Nessa experiência empírica, foram identificando muitas que, depois, a ciência confirmou que realmente funcionam e outros aguardam ser examinados para possível aprovação. “Tudo deve ser usado com prudência, de preferência buscando orientação de quem entende, porque devemos respeitar a tradição”, recomenda o médico.

COUVE : Hortaliça que deve ser consumida de preferência fresca e crua na forma de salada ou sucos com ou sem leite, para aproveitar melhor seus nutrientes, pois é muito rica em ferro, sais minerais e vitaminas. Popularmente é tida como boa para prevenir o surgimento do câncer de mama, gastrite e úlcera. Cientificamente é reconhecida como excelente cicatrizante e muito eficiente no combate à anemia. Possui quase todas as vitaminas do complexo B e substâncias que facilitam a absorção das vitaminas A (da visão) e D (que evita a osteoporose ao facilitar a absorção de cálcio pelos ossos). Ajuda a metabolizar gorduras - o popular “afinar o sangue” -, evitando a formação de placas de gordura nas veias ou que ajuda a prevenir acidentes no sistema de circulação do sangue melhorando, assim, a nutrição das células e protegendo o organismo contra doenças.

SALSINHA : Usada crua ou como tempero em refogados, é ótimo diurético, melhorando o funcionamento dos rins e do fígado.

CAPEBA: Planta comum nos quintais acreanos, é tradicionalmente usada na forma de emplastros postos sobre furúnculos para que vazem. Também serve como chá para beber e emplastros para infecções pélvicas. Pode ainda ser consumido na forma de salada.

CRAJIRU: Usado popularmente para fazer lavagens vaginais e banhos de assento tanto para homens quanto mulheres para aliviar e até resolver problemas de infecção nessa região. Seus resultados não animadores.

MASTRUZ : Popularmente usado para facilitar a cura de ossos quebrados porque facilita a absorção da vitamina D. É excelente contra os vermes, mas deve ser usado com cuidado porque é tóxico - então as doses podem ser fortes, mas usa-se repetidas a cada quinze dias por pelos menos três vezes para quebrar o ciclo dos ovos dos vermes que permanecem no organismo. Usado como expectorante ou suco pelos que apreciam seu sabor.

ERVA-DE-JABUTI: Planta de folhas grossas e carnudas que nascem à beira de calçadas e muros, a erva-de-jabuti é popularmente usada crua em saladas ou em cozidos com excelente resultado para diminuir as taxas de triglicerídeos do sangue. Nos seringais, usa-se para “levantar” doentes.

ABÓBORA: Tradicionalmente, usam-se suas flores macho, aquelas que não têm abóbora, para tirar o sumo e combater dores de ouvido. Socadas utilizam-se para curar queimaduras na pele ou como máscara fácil para tratamento de beleza. Suas folhas maduras são secadas à sombra, e moídas podem ser misturadas aos cozidos e sopas como reforço de vitaminas e sais minerais. Os brotos refogados (cambuquira) ou consumidos em saladas são muito ricos em vitaminas do complexo B e sais minerais. A semente é tradicionalmente usada para combater vermes, inclusive usam se moídas misturadas ao doce para conseguir melhor eficiência no combate às lombrigas e à solitária. A tradição diz que também auxilia na prevenção ao câncer de próstata e problemas circulatórios do sangue. Sua casca pode ser secada ou cozida e depois moída para misturar a outros pratos para enriquecê-los com suas vitaminas e sais minerais.

MAMÃO: A tradição diz que mastigar suas sementes ajuda a prevenir e a melhorar os problemas das hemorróidas. Também combate os vermes e ajuda a digestão. Deve ser consumido de vez, mas não se deve riscar para tirar o leite, que é bom para o organismo.


PICÃO-PRETO: Tradicionalmente usado pelos portadores de hepatites, é tido pelo Fundação Oswaldo Cruz como a que vem apresentando resultados mais animadores no combate à malária.

MEDICINA AYURVÉDICA

Carioca formado em medicina e especializado em plantas medicinais e homeopatia pela Universidade de Pernambuco, Radjalma Cabral é um dos poucos profissionais de saúde no país que tiveram a oportunidade de fazer o curso de medicina Ayurvédica realizada durante o governo do presidente José Sarney, quando Roseane, sua filha, uma entusiasta da medicina alternativa, conseguiu trazer ao Brasil sete monges do Tibet para ensinar essa técnica a profissionais brasileiros.

A medicina Ayurvédica surgiu de forma organizada mil anos antes de Cristo, tendo, portanto, mais de três mil anos. Ayurvédica é palavra indiana que quer dizer “ciência da vida”. Seus adeptos acreditam que todos os seres vivos são compostos de cinco elementos - terra, fogo, ar, água, céu - e pregam a necessidade da harmonia entre o indivíduo e o meio ambiente.

Mais que uma ciência médica, a medicina Ayurvédica é uma filosofia de vida usada mundialmente para prevenir e curar doenças. É mais vastamente praticada em Bangladesh, Índia, Nepal, Tibet, Paquistão, Siri Lanka e demais países do sul da Ásia.

 
 
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Rio Branco-AC, 16 de julho de 2004
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