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Glória Perez avisa: novela das drogas não tem capítulo final

Próximo drama da autora acreana terá peões de rodeio e competições. Falta só a bandeira de luta

Marcos Vicentti
Glória escreveu primeira
poesia no 3º mês de alfabetização


João Maurício Rosa

Quando desembarcou em Rio Branco, anteontem, a escritora Glória Perez estava chegando de uma viagem a Las Vegas. A cidade norte-americana dos cassinos também é famosa pelos rodeios. E os vaqueiros serão tema da sua próxima novela das oito. Mas, como suas duas últimas novelas, é muito pouco dizer que os peões de rodeio serão o tema central. “Terá peões, competições de montaria em touros, o peão vai a Las Vegas, mas não é tudo”, informou no Teatro Plácido de Castro, após o lançamento do projeto “Sexualidade: Prazer em Conhecer” e “Tá na Roda - Uma Conversa sobre Drogas”, que o governo do Estado está implantando em parceria com a Fundação Roberto Marinho.

Em “Explode Coração”, Glória expôs ao Brasil o drama das mães de filhos desaparecidos e, em “O Clone”, que a dependência química é um pesadelo presente na casa de praticamente todos os lares brasileiros. “Quando a família não tem nenhum parente vítima da dependência, sente-se constantemente ameaçada de vir a tê-lo. É um drama sem fim”, lembra.

Glória está aceitando sugestões para sua próxima bandeira de luta, agora enredada entre os boiadeiros. Mas ela revela que não tem tido muita satisfação com os resultados deste engajamento. “A televisão tem o poder de fazer com que o país inteiro debata o assunto. Se a instituição for rápida e correr neste momento, fazendo alguma coisa, ela consegue mudar. A novela não consegue mudar, mas a instituição muda. Infelizmente eu não tenho tido bons frutos a este respeito”, contou ela à platéia de secundaristas que superlotou o teatro.

Ela lembra que enquanto a novela Explode Coração estava no ar, mais de 100 crianças desaparecidas foram reencontradas por seus pais e outras tantas nos anos que se sucederam ao capítulo final. Na época não havia delegacias especializadas e os pais só podiam dar queixa depois que a criança estava fora de casa por 48 horas, tempo suficiente para trocar de país.

“Então, durante a novela Explode Coração a gente conseguiu criar até uma delegacia especializada no desaparecimento de crianças. Mas foi só acabar a novela e a delegacia foi fechada. É triste que seja assim porque poderia ser diferente se a gente tivesse uma sociedade civil organizada capaz de comprar este tipo de coisa, empenhada na construção de um modelo novo”.

Glória acredita que a modificação de um modelo não é possível sem um entrosamento com a população. E usa o Acre como exemplo. “Isso é uma das coisas que mais me comoveu nestas poucas horas em que estou no Acre 40 anos depois. É ver o entrosamento da população com este projeto de governo de educação, de reestruturação da cidade, de ver a paixão com que a população se envolve nisso. Mas a gente tem que acreditar. Porque, quando não é só um projeto que vem do governo, mas quando a população entende e está envolvida em fazer isso, ela faz. A gente pode ter certeza que o Acre vai ser diferente”, disse.

DROGAS - Quando imaginou a trama de “O Clone”, Glória fez uma sondagem sobre a preocupação do momento. Detectou que as drogas rondam em todos os lares das pessoas com um mínimo de informação. “A dependência química está dentro da casa de cada um de nós. Ou através de um dependente mesmo, ou do medo que a gente tem que algum de nossos parentes se torne um dependente”.

Telespectadores mais céticos chegaram a acreditar que ela forjou os personagens reais que davam depoimentos em capítulos esparsos pela novela. Mas eram tão reais, como os monólogos do viciado interpretado por Osmar Prado. A construção das personagens exigiu um trabalho de pesquisa com visitas diárias e gravações em clínicas de recuperação.

“Eu já tinha ouvido psicólogos, policiais ou sociólogos falando sobre este assunto, mas nunca tinha ouvido a voz de um dependente. Eu queria fazer uma campanha que não fosse moralista, mas que realmente abrisse este espaço para aqueles que não tinham ainda tido voz para a população saber como ele se sentiu diante deste problema. Procurei pelos dependentes, conversei longamente com eles, fui pessoalmente gravar nas clínicas. As cenas que vocês viram na novela eram reais, fui pessoalmente fazer as gravações”, afirmou.

Nas entrevistas com os pacientes, Glória ouviu deles o que esperavam da novela. “Eles desejam que a sociedade reconheça que eles são pessoas doentes, porque a dependência corrói o caráter também, não que a falta de caráter leve à dependência. Então, eles são considerados pessoas que caíram na dependência por não ter caráter quando o processo é o contrário”.

Os pacientes, segundo a novelista, pediram o espaço para enviar um recado para aqueles que não experimentaram drogas ainda ou àqueles que estavam experimentando, mas que ainda tinham tempo de recuar. “Um recado fidedigno de gente que só tem histórias de perda. Porque eles perderam tudo. É só uma questão de tempo. Perdem os bens materiais, o patrimônio afetivo, cortam vínculos com a família, com os princípios. É terrível, a pessoa chegou ao limite, vendeu a casa e o leite das crianças e o mais trágico é quando a própria pessoa começa a ter consciência do estado em que chegou”, descreveu Glória para cerca de 500 adolescentes.

Para encerrar, ela lembrou de uma recente propaganda de cerveja e exortou: “não experimentem”.

Da música e poesia aos dramas; do Direito à dramaturgia

Glória Perez chegou a estudar Direito e Filosofia no Rio de Janeiro antes de tentar a carreira de roteirista de novelas, que começou a consolidar quando teve que substituir Janete Clair, falecida durante a exibição de “Eu Prometo”(1983/1984). Mas seu destino parecia estar traçado quando ainda vivia no Acre.

“Eu ensinava e ela aprendia, mas ela nunca gostou de matemática. Gostava mesmo é de poesia e redação. Seus primeiros versos foram feitos no terceiro mês de alfabetização, chamavam-se “Nasci”. Seu pai, o ministro Miguel Ferrante, guardou os versos no cofre até morrer. Quando voltava de férias do Rio, escrevia lindas crônicas demonstrando tristeza com a desigualdade das favelas”.

O depoimento da professora Iracyra Magalhães, 71, professora particular da alfabetização de Glória Pérez, revela que a menina teimava para a literatura. Iracyra lembra os tempos em que, recém formada normalista, deixava a fazenda de seu pai, onde hoje está o Parque da Maternidade, para lecionar na casa dos Ferrante, na esquina das ruas Benjamim Constant com a Floriano Peixoto, em frente à Rádio Difusora.

Por coincidência, a casa que ainda conserva a fachada original, é hoje uma escola particular, mas de outros idiomas.

Glória também tinha facilidade em latim e francês conforme demonstram seus boletins escolares ainda guardados no Colégio Acreano. Sua professora de francês era sua prima, Florentina Esteves, que chegou a ser secretária estadual de Educação e hoje é escritora.

Sexta-feira passada, no Teatrão, as duas ex-professoras estavam sentadas entre alunos secundaristas, assistindo a uma lição de Glória Perez, que conheceram como Glória Maria Rebello Ferrante. Filha de Maria Augusta, ou apenas Guguta, com o professor e advogado Miguel Jerônymo Ferrante, depois promotor da Justiça Federal no Território do Acre, juiz federal em Brasília, Rio e São Paulo, onde é nome de um Fórum e, mais tarde, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Na aula da ex-aluna, Iracyra e Florentina não ouvem nada sobre poesia e música, as paixões da adolescente. “Ela tinha uma alma poética. Tocava acordeão e era tão terna que, aos 13 anos, pediu para ser madrinha de minha filha. Tornou-se minha comadre ainda adolescente”, conta a advogada e educadora Maria Martins, moradora da mesma casa da rua Eduardo Assmar, onde Glória costumava passear com sua mãe. “Se não fosse pelos conselhos.

 

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Rio Branco-AC, 16 de novembro de 2003
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