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Idosos saem da escuridão do analfabetismo

Homens e mulheres marcados pelas dificuldades da vida encontram, na terceira idade, disposição para continuar lutando por meio da educação

Marcos Vicentti
Com dificuldade para segurar o lápis, estudantes rabiscam as primeiras letras de suas vidas em vários pontos de 21 municípios acreanos


Leonildo Rosas

Há quatro meses, Joana Amélia de Alencar não conhecia nenhuma letra do alfabeto. Aos 85 anos sabia apenas escrever o próprio nome por linhas tortas, mas não compreendia o significado das letras escritas. Ela passou 84 anos e oito meses na escuridão propiciada pela caverna do analfabetismo.

Sua leitura do mundo começou a mudar quando foi convencida por amigos a participar do programa de alfabetização Alfa 100 do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova), realizado pela Secretaria de Estado de Educação, em parceria com o governo federal e a iniciativa privada.

A vida de Joana se mostrou dura desde cedo. Perdeu a mãe quando tinha apenas quatro anos. O pai nunca se interessou por ela. Sem pai e sem mãe, passou a viver de favores ou alugando sua força de trabalho para sobreviver. Entre as muitas atividades, cortou seringa. Hoje, é aposentada pela Previdência Social e complementa a renda costurando sob encomenda para uma clientela fixa.

Sua vida escolar encerrou-se há 78 anos, quando estudou por pouco meses numa escola no seringal Triunfo, no rio Abunã, local onde nasceu. Parou porque adoeceu e nunca mais voltou a uma sala de aula.

Com quase um século de vida, mora na casa da amiga Amazonina de Oliveira Nunes, há 19 anos, no bairro da Base. Como que tentando recuperar o tempo perdido, é uma das mais aplicadas alunas. Todos os dias, às 17h45, pega seus cadernos e se dirige para o centro comunitário do bairro, onde são oferecidas as aulas.

Seu esforço serve de exemplo para os colegas de sala de aula, que incluem jovens acima de 16 anos. “Fico triste quando não tem aula”, comenta.

A história de Joana é como a da maioria dos alunos acima de 50 anos que resolveram aprender a ler no crepúsculo da vida. São ex-seringueiros e seringueiras que, com a falência dos seringais e a conseqüente desvalorização do preço da borracha, vieram buscar a sorte na cidade grande. Diante da selva de interesses urbanos, esbarraram na falta de estudo para galgarem posições sociais e econômicas numa sociedade cada dia mais competitiva.

Com idades avançadas, sonham em, pelo menos, aprender a ler e a escrever. Para isso, contam, além da boa vontade, com o esforço e dedicação de jovens educadores recrutados nas próprias comunidades em que vivem.

São pessoas cuja palavra cidadania nunca fez parte dos seus vocabulários. Durante a maior parte dos anos foram somente mais um número nos censos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Agora, com a vista cansada pelos anos de dificuldades, freqüentam aulas nas mais diferentes localidades. Em escolas estaduais, salas em igrejas, centro comunitários, residências e associações. Não importa o local. O importante é atingir o objetivo de um dia, pelo menos, conseguir pegar um ônibus sem a ajuda de terceiro ou ler a Bíblia.

Na tentativa de compreender os motivos que levam pessoas com idades elevadas a procurar aprender a ler, a reportagem percorreu os quatros cantos de Rio Branco durante duas noites. Conseguiu levantar depoimentos que são verdadeiras lições de perseverança e fé na possibilidade de continuar aprendendo sempre, mesmo com as dificuldades impostas pela dureza da vida.

A cruz do analfabetismo

Diariamente, a dona de casa Regina Ferreira Barros, 75 anos, percorre os mil metros que separam sua casa do chapéu de palha da igreja católica localizado no bairro da Floresta.

Depois de um dia de trabalho puxado, cozinhando, lavando e passando roupas, ela encontra forças para sair pela estrada mal iluminada com o livro e o caderno debaixo dos braços.

Durante as duas horas de aula, consegue deixar um pouco os problemas cotidianos de lado. Só não esquece do marido Severino Barros, 79 anos, com quem é casada desde os 19.

Severino está doente. Fez várias cirurgias e os problemas de saúde se agravaram quando perdeu um dos 10 filhos, vitimado por um enfarto fulminante.

Cearense da cidade de Pedra Branca, Regina veio para o Acre quando tinha 14 anos. Durante a 2ª Guerra Mundial, seu pai veio como soldado da borracha. “Disseram que a gente voltaria em dois meses. Meu pai morreu e eu estou aqui até hoje.”

A vinda da família para uma terra tão distante interrompeu os estudos de Regina. Foi morar no seringal. Trocou o lápis pelos instrumentos de cortar seringa. Rompeu as relações com os livro e desaprendeu o pouco que sabia.

Depois de tantos anos, por meio do programa de alfabetização, ela diz que está relembrando alguma coisa, mas falta muito para realizar um grande sonho: ler a Bíblia sem soletrar.

Para ela, as aulas não servem apenas para aprender a ler. São importantes para esquecer os muitos problemas da vida por meio de brincadeiras que lembram os tempos de criança. “Aqui eu me divirto bastante”, afirma.

Não saber ler durante tanto tempo tem um peso diferente para Regina. Religiosa, ela busca na Sagrada Escritura a definição do que isso significa: “O analfabetismo é uma cruz que carrego durante tantos anos.”

Quem não sabe ler é como cego

Não conhecer as letras e não saber juntá-las para fazer a leitura é, para João Reis Vitor, a mesma coisa que viver cego tendo os olhos bons. Natural do rio Jurupari, em Feijó, ele está nessa “cegueira” há 73 anos. Espera começar a enxergar por meio da aulas que freqüenta todos os dias numa das cinco turmas da escola Ilka Maria de Lima, no bairro Mocinha Magalhães.

João trabalhou desde os 10 anos cortando seringa. Parou há seis anos Reconhece que nunca foi um grande seringueiro porque cortava cerca de mil quilos por ano. “Tinha gente bem melhor”, revela.

Há cinco anos veio para Rio Branco se tratar de um problema de saúde na clavícula. Sem condições financeiras, não teve o atendimento devido nos hospitais públicos. “A doença sarou por conta própria”, acredita.

Ele diz que, ainda menino, chegou a estudar por algum tempo no Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). Desistiu porque tinha que trabalhar. Estudando há um mês, ainda não conseguiu aprender nada. Alega que problemas na vista impedem o aprendizado.

As dificuldades, no entanto, não abalam sua fé. Acredita que superará as dificuldades e na possibilidade de conseguir um emprego. “Se a vida prolongar, posso até arranjar um outro trabalho.”

Aprender para a ler a Bíblia

Incentivada pelos filhos, Raimunda Augusta da Silva, 67 anos, espera um dia conseguir ler a Bíblia. Ela nasceu num seringal em Santa Rosa do Purus. Quando chegou a Rio Branco morou durante 10 anos no projeto de assentamento Humaitá.

Mãe de nove filhos, avó de 10 netos e de mais de 28 bisnetos, ela estuda na escola Ilka Maria Lima, no Mocinha Magalhães. Diz que, quando chegou à capital, estudou durante três meses, mas foi obrigada a parar para trabalhar como laminadora numa empresa de beneficiamento de borracha.

Aplicada, consegue escrever o próprio nome, mas tem vergonha de fazê-lo em público com medo de errar. “Prefiro melar meu dedo e colocar nos papéis porque foi esse o lápis que Deus me deu”, declara.

A vergonha para escrever não aparece quando Raimunda precisa pegar o ônibus para se locomover do centro da cidade à sua casa. Sem cerimônia, aproxima-se das pessoas e pergunta o que está escrito na fachada dos veículos. “Com muita dificuldade, estou conseguindo identificar o ônibus do conjunto Tucumã”, revela.

Teresa conhecia apenas o “T” de seu nome

Nas horas vagas, Teresa Ferreira da Silva Almeida, 57 anos, aproveita para estudar as lições passadas pela professora durante as aulas no salão da igreja Quadrangular, no bairro Major Mendonça.

Teresa reforça seus estudos numa casa simples construída em madeira. O ambiente onde mora é marcado pela pobreza. Não há sofá e as divisórias que separam os dois quartos da sala são feitas de papelão. Na parede, panelas de alumínio sempre bem areadas são os enfeites no cômodo que serve como sala e cozinha.

Teresa é de Tarauacá. Nasceu e morou quase toda sua vida no seringal Monte Belo, no rio Muru. Veio para a capital a convite de um companheiro. Chegando aqui, separaram-se. Sozinha com nove filhos, comprou um terreno numa área de invasão.

Diz que voltou estudar porque se sente envergonhada por não saber nem assinar o próprio nome. “Quando aprender vou ter a oportunidade de conversar bem com as pessoas. Antigamente, conhecia apenas a letra ‘T’ do meu nome. Agora, conheço todas”, garante.

Enquanto não se familiariza com a leitura, Teresa necessita da ajuda de terceiros até mesmo para pegar o ônibus. Nesses casos, recorre à ajuda do filho caçula, Raimundo Roseney, 17 anos, que interrompeu os estudos no 1º ano do ensino médio.

A interrupção dos estudos do filho parece não incomodá-la porque, segundo ela, “filho de pobre nunca vira doutor”.

Vigia concilia trabalho com estudo

Moacir Firmino da Silva, 60 anos, não vai todos os dias às aulas na escola Elias Mansour Simão Filho, no bairro Taquari. Ele freqüenta dia sim, dia não, porque tem que conciliar os estudos com o trabalho de vigia numa empresa de venda de medicamentos no Primeiro Distrito.

Os dias de aula perdidos são compensados na horas que está em casa. Sua filha mais nova, que está na 4ª série do ensino fundamental, repassa-lhe as lições e tira todas as dúvidas.

Pai de 10 filhos, Moacir mora numa casa humilde, no Taquari II. Os cômodos são divididos por redes espalhadas para acomodar todo mundo na hora de dormir. De “luxo” a residência tem apenas um televisor preto-e-branco de 14 polegadas e uma velha cama de casal, onde ele e a esposa, Maria do Espírito Santo, dormem com as crianças menores.

Com um sorriso constantemente iluminando seu rosto, ele garante que as dificuldades vividas hoje são considerada maravilhas face à vida que levavam no seringal Inuni, em Boca do Acre (AM). “Daqui pra lá são oito dias num motor bom. Tem gente por lá que não conhece nem dinheiro”, admite.

Com os filhos acometidos pela malária, veio para Rio Branco há seis anos. Passou três desempregado. Revela que sempre teve muita vontade de assinar o nome. “É muito ruim não saber.”

Há quatro meses na escola, ele já sabe escrever o próprio nome com dificuldade. Na semana passada, aventurou-se a escrever uma carta para a professora. Quem não gostou da idéia foi sua esposa. Analfabeta, ela diz que não estuda porque “tem a cabeça perturbada”, mas se mostra firme no ciúme: “Esse velho está começando a ficar enxerido”, reclama.

 
 
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Rio Branco-AC, 16 de novembro de 2003
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