ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias

Biblioteca da Floresta
Sertanista Meirelles (ao centro) fala , por três horas, sobre sua vida e seu trabalho na proteção aos índios isolados da extensa fronteira acreana-peruana ao jornalista Elson Martins e ao antropólogo Txai Terri Aquino, na Biblioteca da Floresta Ministra Marina Silva

O velho do rio do sol: um contador de histórias das florestas dos brabos

Olha o Meirelles aqui de novo no papo! Ele veio a Rio Branco, acompanhando sua filha caçula, Maria Meirelles, 17 anos, que está se preparando para o vestibular de engenharia florestal na UFAC. Orgulhoso da filha estudiosa, “o velho do rio”, como é carinhosamente chamado pelos seus amigos próximos, após alugar um apartamento e comprar o necessário para sua Mariazinha, estará viajando para a aldeia Sawawo, dos Ashaninka do alto rio Amônia, no lado peruano da fronteira.

O Prêmio Chico Mendes do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que ele recebeu no final de 2007, fez muito bem ao velho sertanista do Bariya, “rio de muito sol”, como os Huni Kuin (Kaxinawá) denominam o Envira em sua “língua verdadeira” hãtxa kuin. Desconfio até que um novo amor antigo anda povoando os sonhos coloridos do nosso sertanista. Amor de velho é mais forte, confiável e menos aventureiro (fala experiência!), sobretudo quando o azul dos olhos nos lembram o oceano Atlântico, do Oiapoque ao Chuí

Por conta do prêmio, Meirelles anda alegre, mais solto, falando “sem censura” sobre sua vida e o trabalho que protagoniza na proteção aos “brabos”, ou “parentes”, como costuma falar a respeito de grupos indígenas ainda isolados, que vivem nas cabeceiras dos rios Envira e Tarauacá e de seus inúmeros afluentes, na longa fronteira que o Acre compartilha com o Peru, de Assis Brasil, no vale no alto rio Acre, até o longínquo município de Marechal Thaumaturgo, no alto rio Juruá.

Quinta-feira passada, por exemplo, ele concedeu uma longa entrevista-depoimento de três horas ao jornalista Élson Martins e a este Txai, que brevemente estará disponível no site da Biblioteca da Floresta Ministra Marina Silva.

Aliás, por falar na nossa Marina, parabéns pelo seu aniversário de 50 anos. Tempo da maturidade! Por conta disso, o silêncio respeitoso dos acreanos fala mais alto que qualquer nota de desagravo pelas críticas que a nossa ministra anda recebendo pelo aumento dos desmatamentos da Amazônia, como se ela sozinha, e não todos os brasileiros fossem os responsáveis por isso.

O essencial é absorver as críticas e redobrar esforços no sentido de salvar a última grande floresta tropical do planeta, como tenta fazer o nosso sertanista Meirelles em relação aos últimos povos isolados da Amazônia.

De espírito limpo, todo mundo sabe que a destruição da Amazônia é conseqüência direta da expansão do capitalismo, da globalização e dos grandes negócios no planeta.

Os terráqueos, sem nacionalidades e ideologias, são os responsáveis pela destruição da grande Floresta Tropical, cuja maior parte está em nosso país.

Não adianta queimar a Marina que nem a floresta. Ela, apesar de ser muito religiosa e acreditar em Deus (graças a Deus!), não é nenhuma Joana D´Arc. Os tempos são outros, de novo século e milênio.

Enfim, a duras penas, Meirelles também está aprendendo que o seu trabalho junto aos isolados não implica necessariamente no seu próprio isolamento voluntário. Assim, em meados de dezembro do ano passado, pouco antes de receber o prêmio do MMA, no valor de R$ 20 mil reais (isso, sim, que é Prêmio! E não os simbólicos ouriços de bronze!), o nosso sertanista se reuniu com lideranças e agentes agroflorestais indígenas no Centro de Formação dos Povos da Floresta, da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), entidade que ele dirigiu por dois anos no início da década de 80.

Para tal, contou com o apoio e articulação da Vera Olinda e da Malu Uchoa, da CPI-Acre, e dos antropólogos Gilberto Azanha e Maria Elisa Ladeira, representantes do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), organização não-governamental que vem apoiando os processos de regularização das terras indígenas habitadas pelos últimos povos isolados da Amazônia e promovendo estratégias de proteção às suas pequenas e diversas comunidades.

Na próxima semana, o nosso bravo sertanista irá se reunir em Sawawo com líderes Ashaninka do Brasil e do Peru. Vai participar das discussões sobre o loteamento das florestas peruanas às grandes empresas madeireiras, mineradoras e petrolíferas.

Na base da Frente de Proteção Etno-ambiental do Rio Envira, onde trabalha, o sertanista vem observando a constante descida de grandes quantidades de toras de madeiras de lei, notadamente aguano (mogno) e cedro, bem como de lixos provenientes de atividades madeireiras do outro lado da fronteira. Todo mundo sabe que o Envira nasce bem dentro da selva peruana. E como último morador brasileiro deste rio, ele vem denunciando a intensificação da devastação da floresta nas cabeceiras daquele rio, protagonizada por empresas madeireiras peruanas de Pucallpa, “a capital do mogno”, principal cidade da selva alta peruana, no alto rio Ucayali.

Para o sertanista Meirelles, as conseqüências das atividades madeireiras nas cabeceiras do Envira e no seu entorno, no outro lado da fronteira, têm sido muito graves. A pior delas foi a flechada que ele recebeu no rosto (veja os detalhes no último texto deste papo), sem falar nos tiros de espingardas que os Ashaninka do Envira e seus companheiros da Frente de Proteção Etno-ambiental do Rio Envira têm sido alvos, além dos constantes roubos e saques nas casas dos Ashaninka e ribeirinhos, moradores do Liberdade e de outros antigos seringais do alto Envira.

Acho que ele vai a Sawawo com o firme propósito de buscar aliados na luta que protagoniza pela proteção efetiva aos últimos povos isolados da Amazônia.

Embora já tenha feito o “dever de casa”, como ele mesmo diz, ao contribuir para a regularização de três terras indígenas destinadas aos povos isolados na longa fronteira acreana com o Peru: duas nas cabeceiras do Envira e uma no alto rio Tarauacá.

O sertanista também tem contribuído para inovar o processo de demarcação física de terras indígenas ocupadas por índios isolados. Tem ainda se empenhado na criação de postos de vigilância e fiscalização ligadas à base da Frente Envira.

Sabe ainda que na nova conjuntura, marcada pelas invasões de madeireiros peruanos, não pode continuar sozinho nessa luta. Por isso, está buscando, em primeiro lugar, o apoio das lideranças, professorres e agroflorestais indígenas, alguns dos quais compartilham terras com povos isolados e, em segundo, discutir essa questão dos “brabos” amplamente com representantes dos governos federal e estadual, além de participar de encontros, assembléias e articulações políticas transfronteiriças.

Recentemente, Meirelles vem reivindicando junto a “comissários” (no sentido do Elio Gáspari) do governo do estado a realização de sobrevôos nas florestas dos altos rios Envira e Tarauacá, bem como de seus principais afluentes, inclusive sobre as cabeceiras do igarapé Santa Rosa e do rio Humaitá. Pretende, assim, monitorar o processo migratório de grupos isolados do Peru para as florestas acreanas, bem como avaliar as áreas de atuação das madeireiras peruanas ao longo de nossas fronteiras comuns.

Para finalizar, quero agradecer ao Meirelles pelos seus dois últimos papos. Além de um dedicado e perseverante sertanista, o velho do rio do sol é também um excelente contador de história, como se pode comprovar pelos textos abaixo de sua autoria. Valeu, Meirelles, pelos belos papos!

PS: Não se esqueça, compadre Meirelles, neste domingo, às nove horas da manhã, estou lhe esperando lá em casa, junto com o Nixiwaka, o Élson, a Mariana, a Ana e outros amigos para gente almoçar junto. O prato principal, e único, vai ser curimatã, traíra e tilápia assadas no moquém, com “molho-trisca”, macaxeira cozida e uma caldeirada de tambaqui, que só o Meirelles, como ninguém, sabe preparar tão bem. Não espalha, não! Não quero que a famosa torcida rubro-negra fique sabendo. Enquanto isso o Botafogo já está na decisão da Taça Guanabara: 2 a 0 no tricolor. Botafogool! (Txai Terri Aquino).

PORQUE ME CANDIDATO AO PRÊMIO CHICO MENDES

José Carlos do Reis Meirelles Jr.

Prezados senhores (as) avaliadores do Prêmio Chico Mendes do MMA,

A tecnologia pode matar ou aproximar pessoas. Com alguns grupos indígenas isolados, ela tem mais matado que aproximado. Já comigo tem me tirado do isolamento de 35 anos de mato (maneira carinhosa de chamar a floresta), através da Internet.

Por amigos comuns soube do Prêmio Chico Mendes. E como, no limiar dos sessenta anos, a timidez morre de velha e a modéstia adoece, resolvi me inscrever, por acreditar que, de alguma forma, tenho contribuído para a preservação da Amazônia.

Então, vamos às apresentações de praxe. Sou José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, tenho 59 anos, paulista de nascimento e acreano por opção. Fiz um curso de engenharia mecânica até o terceiro ano e entrei na FUNAI em 1971.

Trabalhei com os Urubu-Kaapor, ou “tupinambás tardios”, como certa vez disse o antropólogo Darci Ribeiro. Em 1973, fiz os primeiros contatos com o povo Awá-Guajá, feito de que pouco me orgulho, pois contato com povos isolados são sempre desastrosos.

Em 1976, fui convidado para trabalhar no Acre, onde a Funai estava implantando uma unidade, pelo indigenista José Porfírio Carvalho. Fui para as cabeceiras do rio Iaco, trabalhar e aprender com os Manchineri e Jaminawa sobre os altos rios amazônicos. Em 1980, fui demitido da Funai por discordar da política indigenista implantada pelo regime militar e por participar da criação da Sociedade Brasileira de Indigenismo (SBI), em Brasília.

Trabalhei junto com o antropólogo Txai Terri Aquino nos primórdios da Comissão Pró-Indio do Acre, de 1981 a 1984, quando fui recontratado pela Funai. Neste período, creio, o que ficou de minha colaboração para os índios, foram as primeiras propostas de reconhecimento das terras indígenas Kaxarari, Mamoadate, Kaxinawá de Nova Olinda e Arara do Bagé. Contribuí, assim, para elevar a consciência dos índios em relação a seus direitos e a retomada de suas terras.

Em 1988, participei da criação da nova política da Funai em relação aos povos isolados, baseada não mais no contato, mas na proteção efetiva a seus territórios, seus recursos naturais e suas culturas, além de garantir seu direito de permanecerem isolados. E conseguimos uma nova maneira de demarcar terras indígenas para povos isolados, sem contatá-los, o que sem dúvida é um tremendo avanço.

Depois de uma longa viagem de reconhecimento das florestas das cabeceiras dos rios Jordão, Tarauacá e Envira, em 1987, fui trabalhar nas cabeceiras do Envira no ano seguinte com a finalidade de proteger os povos isolados que habitam naquela região.

Conseguimos demarcar duas novas terras indígenas para esses povos, que na realidade são três ou quatro povos isolados distintos, e a terceira terra deverá ser demarcada no ano de 2008. São as terras indígenas Kampa e Isolados do Rio Envira, Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira.

Implantamos duas bases da Frente de Proteção Etno-ambiental Rio Envira, uma justamente nas cabeceiras do Envira e a outra no alto curso do rio Tarauacá. Provavelmente, em 2008, se tivermos apoio dos governos federal e estadual, implantaremos outra no Igarapé Santa Rosa. Todas elas com a finalidade de proteger os territórios tradicionalmente ocupados por esses povos não contatados, que optaram pelo isolamento voluntário. Cremos, sinceramente, ter dado aos povos isolados da região tranqüilidade para continuar e existir como querem: isolados.

De dois anos para cá, no entanto, uma nova realidade se apresenta nos altos rios acreanos. A exploração de mogno, em grande escala, nas cabeceiras dos rios Juruá, Envira, Amônia, Purus e Madeira, por madeireiras peruanas exportadoras de madeiras de lei. A maioria das áreas exploradas é justamente constituída por povos isolados, provocando migração forçada para o território brasileiro e criando situações de aparecimento de “índios brabos”, onde nunca se pensou existir.

Além disso, madeireiros peruanos que trabalham com índios contatados, estão fazendo que estes venham para o território brasileiro, se fingindo de brabos, estão atirando nos índios Ashaninka do Envira e no nosso pessoal da Frente do Envira. Ninguém sabe mais quem é quem nos altos rios de nossas fronteiras.

Quando pensávamos que tínhamos feito o dever de casa, demarcando e regularizando três terras para os povos isolados no Acre, nossos vizinhos peruanos resolvem explorar irracionalmente as florestas das cabeceiras dos altos rios em seu país. E os povos isolados, correndo de um lado para outro, desalojados de seus antigos territórios. É um novo desafio!

Três acidentes, relatados, em anexo, mostram bem as diferenças da fase antiga e da atual. A demarcação da TI Kampa e os isolados do Envira, quando os isolados queimaram a sede da Frente Envira – O Povo que Planta Pedra. A flechada que recebi – As lições de um domingo de verão. E, mais recentemente, o tiro no nosso mateiro Beré – O paco-paco do Beré.

Tenho dúvidas se o “currículo” acima é suficiente para concorrer a um prêmio tão importante como este, dedicado ao nosso valoroso Chico Mendes. Mas, como disse no início, a timidez morreu de velha e a modéstia adoeceu. Atenciosamente,

Feijó, 29 de Outubro de 2007.

As lições de um domingo de verão

José Carlos dos Reis Meirelles Jr.

Era domingo, dia 06 de junho de 2004, nas cabeceiras do Envira. O início do verão deixava o céu azul, acima da neblina típica das manhãs de junho, anunciando um dia de sol sem nuvens. O Bariya, “rio de muito sol”, como o Envira é chamado na língua hãtxa kuin do povo Kaxinawá, de águas limpas e cristalinas, revela seu leito arenoso e as matrinchãs, pacus, curimatãs, jitubaranas, surubins e capararis saem da clandestinidade das águas barrentas do inverno, para a visibilidade cristalina do verde claro do verão. Um convite para quem gosta de pescar de anzol e linha. Pesca semi-esportiva, pois é bem verdade que a matrinchã fisgada no pé do salão do poço acima de casa, irá para o fogo lento, assada com escama e degustada ao “molho-trisca”, com macaxeira cozida, no jantar cedo de domingo.

Juntei minhas tralhas. Caniço fino para pegar iscas de matupiri e piaba-loura, massa de farinha bem liguenta, vara de carretilha com linha 060 para peixes maiores, a calibre 20 e a boroca de cartuchos para a segurança ou um eventual queixada, que nesta época do ano engorda comendo coco de murmurú e búzio de igapó, chafurdando em bandos o baixo do rio, o terçado de bainha de cedro, o chapéu de palha e tempo de sobra pra ruminar a vida na algibeira.

Matrinchã é peixe arisco. Barulho em canoa, salabanco pra arremessar a linha, espantam o jantar. Pensamentos domingueiros de caniço na mão e filosofia preguiçosa de banco de canoa não carecem de acompanhante.

Arrumada a canoazinha de imburana de fundo chato para passar no razeiro e, quando encalha, leve de puxar, abastecido o motor de rabeta a gasolina, remo servindo de banco, a calibre 20 trespassada no ombro pela bandoleira, o barbicacho do chapéu de palha puído passado no queixo, lá vou eu batalhar a comida de cada dia. Só comigo mesmo.

Na mesma madrugada de domingo, um grupo de oito a dez homens, de um povo que não sabe o que é domingo, zangado com algum ataque que sofrera, de um povo diferente, ou do mesmo povo a que pertence os que moram abaixo da boca do igarapé Xinane, prepara uma tocaia.

Quatro ou cinco homens no rio e o mesmo número no igarapé. Sabem muito bem que este ano, por obra e arte dos repiquetes do Envira, o único canal do rio e do igarapé passa muito perto de onde estão emboscados. O barranco tem de três a quatro metros de altura, possibilitando a flechada de perto e de cima para baixo. Melhor lugar para tocaia não há.

No porto de casa, onde vivo há 20 anos na base da Frente de Proteção Etno-ambiental Envira, um pouco abaixo da boca do Xinane, puxo a correia do motor e sento na pá do remo escorado nas bordas da canoa e vou subindo o rio Envira. No pensamento, desejando uma boa pescaria para garantir a mesa farta daquela noite de domingo e, quem sabe, o quebra-jejum do dia seguinte, junto a todos os companheiros, como é praxe entre nós.

Da tocaia, vê-se o porto de casa, a canoa subindo lentamente... Quem será beneficiado com a vingança? A turma do rio, ou o pessoal do igarapé?

Na confluência do igarapé Xinane com o rio Envira formou-se uma pausada pela queda de uma urucurana. Suas raízes, aparentando uma enorme mão de gigante emergindo das águas, deixam livres somente uns três a quatro metros de canal até o barranco. É justamente ali que, pelo capricho da natureza, sou obrigado a passar.

Na passagem, ainda nos prólogos da filosofia a ser criada no domingo de pesca e esquecida na segunda de trabalho, senti uma pancada forte na parte esquerda do rosto. Uma pancada forte no rosto nos faz, instintivamente, fechar os olhos. Neste átimo de tempo, achei que tivesse, por distração, errado o canal e batido com o rosto nas raízes da urucurana. Abri os olhos e vi a taquara braba cravada em meu rosto.

Os parentes! Descarga de adrenalina para mascarar a dor e vencer o medo. Arranquei a flecha com a mão direita. A esquerda me dava conta que ela tinha varado todo rosto e saído na nuca. Com as pontas dos dedos, senti a ponta fina da flecha como agulha. Virei a canoa para o razeiro, desliguei o motor, pulei dela e, correndo, me abaixei. Outra flecha passou por cima da minha cabeça, tão perto que senti o vento e o zunir das penas no meu ouvido! Continuei correndo em ziguezague, meio de banda e de costa, feito caranguejo assustado com guaxinim. Foi como consegui me desviar de outras flechadas. Cheguei à praia da margem oposta, dei um tiro de advertência para o alto e gritei para o pessoal da base da Frente Envira.

A sensação de calor no pescoço, peito e pernas tinha agora explicação. A calça e a camisa estavam ensopadas de sangue, que continuava a brotar do ferimento. Pensei logo na carótida. Se foi atingida, tinha ainda uns dois minutos de vida. Foi o tempo que os mateiros da frente, numa outra canoa, demoraram a me encontrar na praia. Embarco nela e retornamos imediatamente para casa.

As flechas dos parentes descem o rio de bubuia. Recolhemos cinco delas, inclusive a que acertou o alvo, como após se concluiu, depois de demoradas observações, escarapiscências e baforadas de porroncas, próprias dos mateiros que trabalham conosco. A pancada foi tão grande de rachou o pendão da tacana da flecha, no encastôo da ponta de taboca.

Mais animado cheguei a casa. Afinal, a lesão na carótida tinha sido descartada, apesar de eu ainda sangrar muito. Fui logo socorrido por minha filha Paula e devidamente enfaixado. Meu filho Artur, que à época trabalhava na Terra Indígena Vale do Javari, no Posto Quixito, em plena floresta de Atalaia do Norte, sudoeste do Amazonas, tinha sido avisado via rádio e a notícia ganhava o mundo de meus amigos e de minha família em Feijó, Rio Branco, Brasília e Ribeirão Preto.

Ponderei com minha filha que a descida a Feijó, em canoa pequena, exposto ao sol, cinco a seis dias de viagem, era impraticável. A saída era minha retirada de helicóptero. Pelas nove da manhã a hemorragia estancou, mesmo assim me encontrava bastante fraco.

A soma dos esforços da FUNAI, na pessoa de seu presidente Mércio Gomes; da Frente Javari, representada pelo Márcio e pelo meu filho Artur; do Governo do Estado do Acre, pelo governador Jorge Viana e; da Secretaria de Estado e Meio Ambiente (SEMA), na pessoa do professor Edegard de Deus; do Senado Federal, pelo nobre senador Tião Viana; dos bons amigos que fiz na vida, em nome da Ana Lange; e da minha família, mãe, esposa, irmãos, filhos e netos culminaram com a chegada, no final da tarde do mesmo dia, de um helicóptero do Esquadrão de Busca e Salvamento da Força Aérea Brasileira, com médico, enfermeira e todo material necessário para fazer uma cirurgia de emergência, se fosse o caso.

No dia seguinte, medicado e bem melhor, fui transportado com minha filha até a cidade de Tarauacá, onde um avião Caravan da Força Aérea - próprio para transporte de feridos - me aguardava. Cheguei a Rio Branco às nove da manhã e me internei para recuperação. Foi quando fiquei sabendo que por questão de milímetro a flecha não atingiu a carótida e a medula cervical.

Desse inesquecível e sofrido domingo de muito sol, ficaram algumas lições para a vida:

- vou ter que seguir as normas de segurança, que nós mesmos criamos e, justamente, uma delas é não andar só;

- vou ter que construir uma pista de pouso, apesar da movimentação indesejada que provoca em terras de povos isolados, é utilíssima nas emergências;

- não temos ainda o controle efetivo do território dos parentes isolados, facilitando invasões em suas terras por caçadores, pescadores e madeireiros, que quase sempre culminam em confrontos armados e mortes de ambos os lados;

- a criação de um Posto de Vigilância na foz do D’Ouro com o rio Tarauacá é indispensável; e pelo lado do rio Purus, em seu afluente Santa Rosa, outro Posto deverá ser criado; nesta região, em sobrevôo realizado no mês de março de 2004, juntamente com a antropóloga Maria Elisa Vieira e o engenheiro florestal Leonardo Santana, integrantes do GT de identificação e delimitação da TI Riozinho do Alto Envira, localizamos três malocas de isolados, com possibilidade de outras mais;

- ou protegemos, de fato, os territórios dos povos em isolamento voluntário, e digo povos, no plural, pois nesta região existem pelo menos de três a cinco povos isolados distintos, ou a flechada que o parente me deu foi em vão; não me matou como provavelmente fizeram com os seus, nem contribuiu para a paz em seus territórios, que provocaria o distanciamento saudável entre nós e eles, justamente por nossa incapacidade de controlar as invasões de suas terras.

Se bem conheço a índole dos parentes, tenho certeza que eles voltarão para terminar o serviço, que ficou pela metade. Vão descobrir que estarei lá, nas cabeceiras do Envira, de novo, até que sua proteção efetiva ou outra flechada nos separe, definitivamente (Rio Branco, 16/06/04).

Txai Terri
Meirelles discute com lideranças, professores e agentes agroflorestais indígenas do Acre (Ashnainka, Kaxinawá e outros grupos Pano do estado no Centro de Formação dos Povos da Floresta, da Comissão Pró-Índio do Acre

 
 
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Rio Branco-AC, 17 de fevereiro de 2008
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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