OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Solidariedade

Nosso tempo, já há muito tempo, não vem dando para gastar com os outros. Nossa moeda do tempo é gulosa e não sacia. Nos enganamos, achando que já temos muitos problemas próprios para resolver. Criamos mais problemas e mais desculpas. Disfarçamos que a fome ali adiante não nos interessa, que a falta de ocupação, de teto, de oportunidades, de acessos, é tudo culpa desse ou daquele ente público. Mas é notória e pública nossa dissimulação. Culpamos essa ou aquela ficção, um governo, duas ou dez pessoas, centenas de coisas, qualquer fatalidade, até imaginamos algo inexplicável, imponderável, diante da miséria concreta. Esquecemos, de propósito, das voltas que o mundo nos dá.

Pessoas que a gente vê, olha, e segue adiante, sem tempo para enxergar e sentir. E gente que a gente não vê, porque a quase ninguém interessa ver e gastar tempo, que é moeda de interesse muito peculiar, é riqueza que não aceita subdivisões. Pessoas que estão nas cidades, nas ruas, nos prédios, nas esquinas, nas casas e barracos, nos subterrâneos e nas calçadas, nas favelas, subúrbios, nas praças e nas igrejas, nos bares e nos mercados, gente para todo lado, e no centro da miséria, no auge da fome, à beira da violência, da total incoerência. Gente que está nos campos, nas matas e seringais, gente quase escondida, gente que pouco diz ou mostra, gente por trás da própria condição, gente da desilusão.

Gente humilde, assim deixada para ser esquecida, que de tanto, por ela não interessa possibilitar, sequer a chance. Esquecer é fácil e simples, nem é preciso planejar. É trabalhoso lembrar, estender abraços, dar passos para adiante da necessidade, efetivar a solidariedade perdida, esquecida, deixada para outra hora. Passando longe, continuando sem ver, vamos continuar fingindo, dormindo, aceitando. Para quem pode sentir, o embrulho dará laços na consciência. A pedra dará tombos no caminho, bem no meio. Mas o tempo, a passagem, outra bobagem, a imprecisão da ação, o acaso da situação, tudo isso, depois não vai adiantar.

O instante do ser que olha e cala, tanto o do que precisa e já não diz, quanto o do que poderia e já não se importa, é o instante que abraçaria o mundo, que valeria a vida. E sem descontos, porque não há barganha para olhos triste, para sorrisos emudecidos, para mãos vazias, nem sempre estendidas. O tempo que achamos que não temos, poderia não ser perdido, usurpado. E esse instante é todo dia possibilitado, aqui e ali, em muitos instantezinhos, em vários olhos, em tantos vazios e em outros cheios de silêncio. Enquanto isso, passa o tempo que precisamos não perder, o tempo que já não cabe em nós, o tempo que adiantaria. E seguimos tropeçando, num tempo que não será de ninguém.

 

 
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Rio Branco-AC, 18 de julho de 2004
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