| COTIDIANO | |
A esperança nas asas do Búfalo Isolados pela floresta amazônica, moradores de cidades, vilas e aldeias aguardam o socorro que sempre vem do céu |
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Há muito mais sobre os céus da Amazônia que as nuvens carregadas para as chuvas do inverno. Há homens que com suas máquinas voadoras arriscam a vida, todos os dias, para vencer o isolamento da população ilhada pela floresta a fim de fazer chegar ali os medicamentos, alimentos, livros e socorrer doentes para levá-los a hospitais com maior recurso. São os pilotos e tripulantes dos 12 Búfalo C115 do primeiro Esquadrão do nono Grupo de Aviação. Desde 1976 eles atendem todas as bases do Exército e os moradores das cidades, vilas e aldeias indígenas localizadas em toda a Amazônia desde o Acre até o Pará. Num verdadeiro ato de heroísmo, mergulham da segurança dos céus para pistas enlameadas e que, de tão curtas, comprometem a própria segurança das aeronaves e de sua tripulação. Mas a missão de integrar a Amazônia tem de ser cumprida, conforme explica o tenente-coronel Ivo Bezerra da Rocha, 42 anos, pai de um filho, comandante-geral do primeiro Esquadrão que esteve visitando o interior do Acre nesta semana atendendo os Correios. “Nossa missão é abastecer as bases do Exército e atender a população da Amazônia com o transporte de cargas e pessoas necessitadas. Uma vez levamos 18 índios de uma mesma família de Santo Atanázio, em Roraima, para serem atendidos no hospital de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Esse correr riscos e salvar pessoas já está integrado à rotina deste nosso trabalho. Aqui vivemos uma aventura a cada dia, ou várias”, declara o comandante Ivo, sem conseguir esconder uma ponta de satisfação. Pelos céus do Acre Encarregados de cumprir missão transportando objetos e móveis destinados a preparar os novos postos dos Correios e Banco Postal que estão sendo inaugurados em março nos municípios de Jordão e Marechal Thaumaturgo. O comandante Ivo e sua tripulação atenderam pedido das secretarias de saúde e educação para que transportassem medicamentos e livros didáticos destinados a atender as unidades de saúde e escolas de Santa Rosa, Tarauacá e Feijó, Cruzeiro so Sul e Marechal Thaumaturgo. Desde quarta-feira até ontem, atenderam também as bases do Exército em Santa Rosa e em Thaumaturgo. Transportando cidadania Até hoje, aposentados e pensionistas do INSS, bem como para dispor de serviços de financiamento ou fazer um simples pagamento de conta de água, luz, saque ou depósito em conta, os moradores de lugares como Jordão são obrigados a descer uma média de três a quatro dias de batelão até Tarauacá, e os Marechal Thaumaturgo três dias até Cruzeiro do Sul. Os móveis, cofres e equipamentos transportados pelo Búfalo nesta semana garantirão o funcionamento dos correios naquelas localidades a partir de março quando seus moradores receberão através do banco postal suas aposentadorias, salários da prefeitura, pagar contas, manter contas correntes e de poupança, usar talão de cheques, ou seja, integrar-se ao sistema financeiro nacional. “Pouca gente sabe disso, mas para poder receber suas aposentadorias os idosos de Jordão precisam perder pelo menos dez dias em viagem de ida e volta a Tarauacá. Isso consome a maior parte do dinheiro, então se sujeitam a deixar seus cartões e senhas com os comerciantes de Tarauacá que fornecem os produtos adiantado e vão sacando o dinheiro que cai na conta. Serve, mas tira a liberdade das pessoas de poderem comprar onde e como quiserem”, afirma o vice-prefeito de Jordão Siã Kaxinawá. Ele complementou: “Estamos muito contentes com a inauguração do posto do Correio no Jordão, porque isso vai permitir que o dinheiro da própria prefeitura e das aposentadorias circule na cidade, as pessoas vão fazer suas compras lá mesmo e isso vai ajudar a desenvolver o comércio e o setor produtivo de nosso município. Essa é uma grande ajuda que o governo está dando pra gente”. Epopéia da rabeta O índio kaxinawá Francisco Pinheiro Sales, 72 anos, pai de tantos filhos que já não lembra mais a conta, desceu dois dias e meio desde o Jordão até Tarauacá e terá de subir pelo menos mais quatro, apenas para poder financiar, com sua aposentadoria, um motor de rabeta para a canoa do filho Eduardo. “Vim pegar o cartão com o patrão da loja para poder comprar o motor pro meu filho poder trabalhar, a canoa é a condução para nossos produtos. Lá onde a gente mora ainda não tem banco para fazer mexer com dinheiro, se já tivesse a gente não tinha que fazer uma viagem dessas”. Buscando saúde - Sebastiana Linhares Melo de Araújo, 60 anos, mãe de 12 filhos não está doente, mas viajou com urgência para acompanhar o marido que está internado em Rio Branco e vai passar por duas cirurgias. “Meu marido está bastante doente, queria ir para ficar com ele, mas a passagem está muito cara e não tenho como pagar. Graças a Deus veio este avião do governo para ajudar a gente”. Ao lado de Sebastiana, a dona de casa Maria Aldeci de Araújo Lima, 29 anos, mãe de cinco filhos, aguardava com dois deles a hora de embarcar no Búfalo com destino a Rio Branco. Ela explicou: “Vou a tratamento de saúde porque estou com problema nervoso. Os meninos, estou levando para ficarem com o avô que se mudou para Rio Branco e vive se queixando de que está muito sozinho. Como é muito apegado aos dois levo para ficarem fazendo companhia ao avô”. Correios em todo lugar “Jordão e Marechal Thaumaturgo terão inaugurados seu posto do Correio e banco postal ainda neste mês de março. A cerimônia contará com a presença do presidente nacional da empresa, do governador Jorge Viana e Senador Tião o qual apresentou emenda parlamentar que garantiu o dinheiro necessário para construir estas novas unidades de atendimento à população do interior”, anuncia João D’Ávila o gerente geral dos Correios no Acre. Sua assessora pessoal, Rosa Maria Helena Meireles foi destacada da sede em Rio Branco para Tarauacá a fim de apressar os últimos retoques antes da inauguração da agência de Jordão. “Na primeira viagem de quinta-feira, além dos móveis para Jordão, o avião trouxe também uma Komby, a primeira do correio que vai rodar pelas ruas de Tarauacá. Quanto aos móveis para o novo posto, eles agora vão subir o rio Tarauacá por pelo menos seis dias para conseguir chegar no Jordão. Não é fácil, mas tem de ser feito”. |
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