OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Ventania e rumo seguinte

O vento deu as costas para meus olhos que te procuravam desde antes do frio que agora está em todo lugar. Era quase certo não te encontrar, por isto, melhor procurar só com os olhos e ir vendo outros. Melhor ir deixando pedacinhos de saudade em cada um dos outros olhos em que não te vejo, mesmo havendo sempre algo para ver e despertar. Esse vento não te trazia e era frio, muito frio, sem sentimento, sem esperadas notícias, vento para passar logo, para levar alguns maus pensamentos, vento para ir embora, vento para seguir logo para outro longe. E neste frio grande, para quê ainda vento, senão para acariciar e embalar novos momentos?

O frio foi embora com aquele vento, os olhos puderam abrir-se mais e outros refletiram neles algum lugar para perder a vontade de encontrar a saudade. Era quase certo te guardar perdida, por isto, melhor ir deixando as lembranças. Ir juntando pedacinhos de desejo em cada uma das mãos em que não te afago, mesmo havendo sempre algum calor para sentir e transpirar. Esse nascente calor que agora está em tudo, se não te trazia, anunciava a primavera, que não passa logo, que produz sentimentos e aproxima. Se não te encontro, sigo com a mão em que posso pegar. Só assim não perco um rumo (que pode te revelar) e não deixo de seguir.

Seguindo, despertei de frente para o momento que nos recria e identifica. Eu e a estação do presente, rumo nascente para ir seguindo, bons pensamentos para ir colhendo, cada pedacinho acariciando, em cada mão dada, um vento para viajar, viajo e sigo. Ainda que eu não te encontre, é quase certo que vou te ver. Ou te guardar. O sentimento não vai passar logo, aquece o frio, faz aproximar. Por isto sigo, não te espero. Por isto espero te encontrar mas não te espero. Sigo com olhos errantes, em estações de novas cores percorro o calor em mãos encontradas, um vento sopra para continuar. Só assim mantenho o (teu) rumo e não deixo de seguir.

Viajo agora sem calor nem frio. A chuva ajuda a deixar as pegadas e o sol pode ser a lâmpada que ilumina alguma idéia. Por isso, vão ficando alguns fios, como varadouros, como estradas, como filetes. Tudo é meio de seguir, é pista para te deixar, assim mesmo, esse te deixar dúbio, esse sem rumo que vai deixando marcas, esse gostar que vai saindo para permanecer, esse viajar que não perde o olho para trás, sem deixar de seguir, essa caminhada que precisa aprender com os ventos, com os grandes ventos, que fazem voltas, que levam e trazem, que conduzem mas também revoltam, que brigam em redemoinho mas também acariciam, que seguem voltando.

 

 
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Rio Branco-AC, 19 de fevereiro de 2006
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