OPINIÃO
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Maria Regina Canhos Vicentin *

 

O peso do mundo

Nestas últimas semanas fomos bombardeados por notícias chamativas: “Mãe joga bebê na lagoa”, “Mãe atira recém-nascido na caçamba de lixo”, “Namorado da mãe arremessa criança de um ano do segundo andar”, “Mãe queima os três filhos com colher quente”, “Mãe tenta empurrar a filha de quatro anos em local de tráfego intenso”, entre outras amenidades. Num primeiro olhar todos somos tentados a imaginar que se trata mesmo do fim dos tempos. Quem já leu 2Tm 3, 1-5 sabe bem do que estou falando. Biblicamente, é prevista uma crise de impiedade para os últimos dias, entretanto, não podemos nos esquecer que o próprio Jesus afirmou: “A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do céu, nem mesmo o Filho, mas somente o Pai” (Mc 13, 32).

Num dos volumes da obra “César e Cristo”, o autor relata que havia certo imperador romano que tinha por hábito prazeroso atirar moedas pela janela somente para ver a população empobrecida pisotear-se ao tentar obtê-las. Sem dúvida um passatempo pra lá de macabro. Isso sem contar as inúmeras atrocidades já cometidas, inclusive em nome de Deus, que nem vale a pena lembrar. Só pra dizer que o mundo já foi bem ruim, e que tudo isso pesa grandemente na alma de pessoas sensíveis, amorosas, e imbuídas de um espírito cristão.


Vou reproduzir a fala do Dr. Benedito Miranda, médico psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em nosso primeiro encontro para discussão do como se dá “A Psicoterapia no Século XXI” e “Como fazer Psicoterapia hoje?”. Segundo o psicanalista, o mundo é uma escola, e como tal, sempre a mesma escola. Dando a entender que as pessoas é que vão evoluindo e não o mundo. De início me pareceu algo espiritista, levando-se em conta a doutrina kardecista acerca do “mundo de provas e expiações”. Nesse sentido, obviamente, a escola continuaria sempre a mesma, pois o intuito seria aprender através do sofrimento.

Tal consideração me levou a alguns questionamentos que ora divido com os meus leitores: Se Jesus acreditasse nisso, será que teria vindo à Terra? Qual a finalidade de sua mensagem de amor num mundo fadado a ser sempre igual? A vinda de Cristo e sua morte resultou em nada? Nossa escola há de ser sempre a mesma, sem evolução? Que tal refletirmos um pouco acerca desse tema, e avaliarmos o que temos feito para contribuir com a remodelação do mundo. Ou será que ele vai continuar sempre o mesmo, regido pelos instintos animais e pelo egocentrismo? Até que ponto somos responsáveis por isso? Haverá mudança sem ações concretas nesse sentido? “De que aproveitará, irmãos, a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Acaso esta fé poderá salva-lo? Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos”, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tg 2, 14-17). Dá pra sentir como isso pesa? Dá pra sentir o peso do mundo?

* Psicóloga, Bacharel em Direito, Pós-graduada em Educação,
Especialista em Psicologia Clínica e Jurídica, e Escritora.

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Rio Branco-AC, 19 de fevereiro de 2006
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