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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 3 de janeiro de 2003
A estrada ao Pacífico e o
desenvolvimento do Acre (I)

Alejandro Antonio Fonseca Duarte

Desde o histórico dia 20 de dezembro de 2002 a cidade de Iñapari ficou mais perto de Rio Branco e Brasiléia; e a cidade de Puerto Maldonado ficou mais perto de Cobija. O trecho que faltava desde a inauguração dos primeiros 60 quilômetros entre Assis Brasil e Brasiléia finalmente foi concluído. Assis Brasil já não é mais um município isolado no Acre.

Dentre os diferentes destaques da Estrada ao Pacífico, está também o de ser protagonista junto a muitos atores. A importância da Estrada vem principalmente porque as vias de comunicação são básicas para o desenvolvimento. São fundamentais para o Acre.

E, como vamos fazer para medir o desenvolvimento?

O cenário

O protagonista entra em cena e diz:

- Estou aqui novinha e asfaltada desde dezembro de 2002.

Nesta data dois dos principais indicadores sociais que refletem a situação no desenvolvimento do Acre, são:

Uma taxa de mortalidade infantil de 35,47 por cada 1000 nascidos vivos (IBGE 2000). No entanto se considera aceitável uma taxa inferior a 10.

A maior taxa de fecundidade infantil do Brasil (153,9). Isto significa que, para cada grupo de mil mulheres acreanas de 15 a 19 anos de idade, mais de 150 delas já tiveram pelo menos um filho. Outros estados campeões nesse indicador desfavorável são Amazonas (140,5), Amapá (139,1) e Maranhão, com similar índice (IBGE 2000).

Estes dois indicadores resumem a situação educacional, de saneamento básico e de saúde pública na região. Por outro lado eles se correlacionam positivamente com indicadores semelhantes para a região norte, nordeste e amazônica do país. A relação entre educação, saúde, pobreza e meio ambiente pode ser vista também através da concentração das terras, da prática de uma pecuária extensiva e da agressão ao meio ambiente, que na floresta se traduz em desmatamento e queimadas predatórias. Hoje as emissões de carbono devido aos desmatamentos no Brasil são de 140 milhões de toneladas, que somados aos 60 milhões de toneladas vindos da queima de combustíveis fosseis, representam o aporte anual da nação para o aquecimento global do planeta (justo é dizer, que está bem abaixo das emissões realizadas pelos países desenvolvidos, principalmente Estadas Unidos e Inglaterra).

No dia 16 de dezembro último o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em representação do Governo Federal anunciou que foram destruídos 18.226 quilômetros quadrados de matas na Amazônia durante o ano 2000, estimando que para 2001 a destruição fique em torno de 15.787 quilômetros quadrados (para inicio de 2003 o INPE promete divulgar o dado oficial). Para recordar, no ano 1999 o desmatamento na Amazônia ficou perto de 17.200 quilômetros quadrados. A área total desmatada já chega a 600 mil quilômetros quadrados. Ao ritmo dos acontecimentos, entre os anos 2020 e 2025 já se terá desmatado ao redor de 1/5 da Amazônia brasileira. No transcurso da próxima geração teremos atingido um patamar crítico na destruição irreversível da Floresta Amazônica.

Uma geração é o tempo pertinente para sentar as bases de uma nova educação no país.

Nos moldes atuais a destruição da Floresta não presta serviços úteis, como poderíamos pensar ao analisar os resultados do censo brasileiro do ano 2000 (IBGE). Nos municípios com até 20 mil habitantes os ganhos por mês não superam R$ 160,00 para 50 % da população com algum tipo de renda. Tanto em municípios pequenos, quanto maiores, a situação de renda da mulher é sempre pior. Em soma 39,5 milhões de pessoas vivem com até R$ 300,00 por mês.

Uma estrada como a BR 317, que no trecho recém asfaltado entre Brasiléia e Assis Brasil corta a floresta, pode levar ao incremento dos desmatamentos. Está evidenciado que eles ocorrem sensivelmente numa faixa de 50 quilômetros para cada lado do eixo da estrada. Cálculos conservadores, aplicados à parte brasileira da fronteira tri-nacional (Brasil-Bolivia-Peru), podem nos levar a admitir que nos próximos anos, só nessa região se somem ao desmatamento inútil mais de 2.500 quilômetros quadrados de floresta, vitimas, principalmente, do fogo acidental ou para o manejo agropecuário e do corte legal ou ilegal de madeira.

Então sabendo que é assim, devemos estar preparados para isso não acontecer, para nos prevenirmos disso.

Está-se falando da parte Leste do Acre onde a destruição da cobertura vegetal é predominante, em relação ao resto do Estado. Isso chama a atenção para um maior cuidado no que corresponde a possíveis mudanças climáticas associadas à mencionada destruição, como por exemplo, uma modificação do ciclo da água (regime local das chuvas).

Dentre os atores que vão entrando em cena, muitos dizem:

- Vou fazer a minha parte para contribuir favoravelmente com o avanço social e a preservação ambiental.

Eu acho que a Universidade Federal do Acre é um desses atores, que andará na direção e no sentido do avanço social e a preservação ambiental.

Modelo de desenvolvimento - Existem estudos que baseados em pressupostos do comportamento no passado dos fatores que determinam ou influenciam um resultado, e considerando influências do presente e do futuro até onde seja possível prever, emitem um prognóstico ora realista, ora pessimista, ora otimista de como será a evolução de um aspecto dado, provocando uma certa situação num momento futuro.

Assim, existem modelos de desmatamento; modelos de aumento da temperatura regional e global; modelos de desenvolvimento econômico e social (para estes está de moda chamá-los de sustentáveis); etc.

Parece ser uma verdade irrefutável dizer que dada a complexidade multidimensional dos problemas que os municípios, os estados, as nações e toda a humanidade enfrenta, qualquer modelo pragmático de desenvolvimento estaria condenado ao fracasso, com a agravante do tempo perdido na aplicação das políticas derivadas de modelos fracassados de antemão.

Um exemplo, os enormes investimentos realizados na Amazônia têm deixado aumento de áreas de florestas destruídas, intromissão negativa nas sociedades indígenas, descuido da saúde publica, etc. e por outro lado uma crescente divida externa do Brasil.

Ante essa realidade parece que somente existe um modelo de desenvolvimento baseado na seguinte fórmula:

Y = f (X), onde X é educação de qualidade e Y, desenvolvimento.

O que significa:

O Desenvolvimento depende da Educação de qualidade.

Doutor em Ciências Fisico-matemáticas
Professor da Universidade Federal do Acre (UFAC)

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