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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 3 de janeiro de 2003
As muitas faces do novo governo

A festa da posse foi de Lula e do povo. A de ontem foi dos ministros e dos ocupantes do primeiro escalão e deixou mais clara a fisionomia do novo governo. Entre eles há um ex-guerrilheiro, um popstar, empresários, diplomatas, humanistas, ecologistas e um médico no comando da economia.

Divulgado em blocos, a pluralidade do Ministério pôde ser mais bem percebida ontem, ante a variedade de formas, tons e públicos predominantes nas transmissões de cargo, que exigiram uma maratona dos políticos e dos convidados pela Esplanada dos Ministérios.

A de José Dirceu no Gabinete Civil teve a maior carga emocional, expressou mais que todas a chegada da esquerda ao poder. Começou ele seu discurso, declarando ter subido a rampa em nome de sua geração rebelde de 1968, e dos que lutaram e não viveram para ver a posse de Lula. Entre esses mortos, nem todos foram vítimas da ditadura, como Honestino Guimarães, José Roberto Arantes ou Stuart Angel. Luiz Travassos, outro companheiro do movimento estudantil, morreu em acidente de automóvel. Muitos dos que treinaram guerrilha com Dirceu em Cuba morreram na luta armada contra, embora ele mesmo não tenha entrado em combate. Sua última organização, o Molipo, fora destroçada, ele foi viver clandestino no Paraná.

Luiz Dulci, secretário-geral da Presidência, e o mais antigo fundador do PT, ao lado de Lula e Olívio Dutra, também tomou posse reafirmando sua origem na esquerda. Dirceu é mais guerreiro, Dulci mais poético. Usou Drummond para falar de seu passado: “Do lado esquerdo carrego meus mortos, por isso, ando meio de lado”.

A posse de Gilberto Gil na Cultura foi um evento e seu discurso um delírio filosófico e conceitual tropicalista. Inteiramente opostas, pela sobriedade, a dos empresários Roberto Rodrigues (Agricultura) e Furlan (Desenvolvimento), povoadas por ternos e gravatas escuras dos executivos. As de Jaques Wagner (Trabalho) e Berzoini (Previdência), conjuntos para representar espírito de equipe e cooperação, aconteceram fora dos auditórios, no térreo do edifício que compartilham, quase ao ar livre, acolhendo a classe operária representada pelos sindicalistas. A de Marina Silva, no Meio Ambiente, pranteando Chico Mendes, a própria singeleza. A de Miro Teixeira, síntese da objetividade. Depois do longuíssimo discurso do antecessor, pegou o microfone, agradeceu a todos garantindo que dali sairão políticas públicas de alta relevância. E pronto.

Na da senadora Emília Fernandes, na Secretaria de Direitos da Mulher, destacavam-se as flores e a desenvoltura das feministas contemporâneas. A de Humberto Costa, na Saúde, esteve mais cheia que um pronto-socorro de hospital público. O PCdoB parecia estar tomando o Palácio de Inverno na posse de Agnelo Queiroz na pasta de Esporte. E o discurso de Palocci, por seus rasgados elogios a Malan, naturalmente incomodou alguns cardeais petistas.

Se é a cara do Brasil e a expressão da aliança que apóia Lula, esses ecléticos ministros prometem lhe dar trabalho. Nenhum parece achar que chegou ali por favor, todos sabem muito bem o que querem e vão fazer e devem brigar por cada palmo de seu território.

Governabilidade ampliada

Veio do ministro Luiz Dulci, em seu discurso de posse, a confirmação do que a própria natureza da posse de Lula sugeriu: a busca permanente do apoio popular como força de sustentação política. A isso, Dulci chamou de “governabilidade ampliada”, informando que a Secretaria Geral, agora sem as funções de coordenação política (concentradas no Gabinete Civil), funcionará como interface entre o governo, a sociedade organizada, o terceiro setor (ONGS e afins) e também os milhões de brasileiros que se uniram pelas mudanças em torno da candidatura Lula. A relação com os partidos e as bancadas no Congresso, sustentou, é importante mas a governabilidade não pode ficar restrita a isso.

O que também não se pode, na democracia, é tentar substituir a representação popular por uma relação direta com as massas, prática que atende pelo nome de cesarismo e embute um viés autoritário.

Não se trata disso, garante Dulci, mas de manter uma relação dinâmica e viva com a sociedade, num tempo em que o papel de representá-la não é cumprido exclusivamente pelos partidos políticos.

Os líderes de Lula

Praticamente escalado o time de líderes do presidente Lula no Congresso. No Senado, Tião Viana foi indicado ontem para líder do PT, devendo ser confirmado em fevereiro. O senador Aloizio Mercadante será o líder do governo. Na Câmara, Nelson Pelegrino deve ser o líder do PT e Aldo Rebelo, do PCdoB, o líder do governo.

Mercadante, numa primeira concepção, deveria acumular a função de líder do governo no Congresso. Ontem isso foi reavaliado. O cargo tem estrutura própria e responde especificamente pela tramitação de medidas provisórias e por outras propostas que exigem a apreciação bicameral do Congresso (Câmara e Senado reunidos). Pode servir para prestigiar o PDT, na pessoa do senador Osmar Dias (PR).

DE LULA para Brizola em sua posse: “Você não sabe a importância que atribuo à sua presença aqui”.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
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