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Rio Branco - Acre, domingo, 5 de janeiro de 2003
Receita de ano novo

Elson martins *

Quando chega a época de Natal e Ano Novo, eu sofro com a minha absoluta incapacidade de cumprir os rituais que a tradição recomenda. De cara, enfrento a falta de jeito para escolher uma arvorezinha com as luzes e penduricalhos para enfeitar o canto da sala e acolher os presentes. Se a mulher ou um dos filhos não cuidam disso, ficamos sem os enfeites. Outra preocupação é com o envio de cartões ilustrados, com os votos de Boas Festas e Próspero Ano Novo, dos quais só me lembro quando começo a recebe-los. Empilho os que chegam na minha mesa de trabalho para fazer a retribuição, o que só resolvo - quando não há mais tempo para procurar o Correio,- fazendo um registro no jornal no velho estilo adotado por jornalistas: "recebemos e agradecemos os seguintes..."

Tem coisa mais fria e sem graça?

Dos presentes, pelo menos, não escapo, e até me inicio com bastante antecedência: listo as pessoas a quem devo presentear, faço cálculos sobre a grana que vou gastar, entro nas lojas e navego na Internet acreditando até que farei escolhas originais. Tudo cascata! Sou daqueles que vai às compras minutos antes da ceia de Natal, alegrando-se por encontrar algumas lojas ainda abertas onde adquiro CDs e livros que matam a pau, ou chocolates belamente embrulhados, ou canetas...pronto! Missão cumprida!

Este ano, me superei nos atrasos deixando-me vencer por justificativas que beiram a irresponsabilidade. Comprei poucas e pobres "lembrancinhas" e não me lembro de ter retribuído nenhum cartão. Nem o recurso da Internet ajudou, porque me atrapalhei nos cliques teimando em encarar o computador como uma máquina de escrever que corrige um texto mal feito com relativa facilidade; e que apenas lê recados e noticias enviados eletronicamente. Não que não ouse ir além disso: uma amiga me mandou um belo cartão colorido, desses que a gente chupa de graça dos sites disponíveis, mas, ao seguir as instruções do site para retribui-lo, parei na metade do caminho com um terrível sentimento de impotência.

Felizmente, nesta sexta-feira, abri a caixa de entrada dos e-mails e lá estava mais um recado, de outra amiga, que me reconfortou ao mostrar que em termos de tradições natalinas e de mudança de ano ando em boa companhia. Li, deslumbrado, uma "Receita de Ano Novo" do insuperável poeta mineiro Carlos Drumond de Andrade, que me colocou de pé em 2003. Feliz, eu a retransmito a vocês:

"Para você ganhar um belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegrama?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre".

* elson-martins@uol.com.br

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