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Rio Branco - Acre, terça-feira, 7 de janeiro de 2003
Receita que funciona

A inflação acumulada em 12 meses vai subir nos próximos dois ou três meses, chegando a 15% ou mais. Mas será o reflexo do passado. A queda do dólar sustentada nas declarações e atos do novo ministro da Fazenda está reduzindo as pressões inflacionárias futuras. O economista José Alexandre Scheinkman acha que o receituário é este mesmo que o ministro Palocci esta adotando.

O dólar já caiu 16% desde o seu pico, em 10 de outubro, quando fechou em R$ 3,99. Ontem, fechou em R$ 3,35. A valorização do real neste período foi de 19,10%.

Impressionante é a queda do risco-Brasil. O pico foi de 2.443, em 27 de setembro. Ontem, fechou em 1.267, uma queda de 48%, uma redução de quase 1.200 pontos.

O C.Bond saiu de 48% do valor de face para 70%.

Números que confirmam o acerto das opções defendidas pelo ministro Antônio Palocci e pelo presidente Lula. Certas posições são tão divergentes do antigo discurso do PT que só podem estar sendo defendidas devido ao aval dado pelo presidente ao seu ministro da Fazenda.

— O receituário é este mesmo. Com propostas como estas, a taxa de risco cai e o Brasil poderá reduzir a taxa de juros — afirmou José Alexandre Scheinkman, professor de Princeton.

A queda do dólar provocará vários efeitos positivos. Um deles, mais imediato, é a redução nas projeções futuras na inflação, como O GLOBO explicou ontem neste caderno de economia. Mas, antes que aconteça este fato bom, haverá uma piora temporária, explica o professor Luiz Roberto Cunha.

O problema é que, na inflação, há um tempo entre o fato e o seu reflexo. Neste mês de janeiro, a inflação deve ficar em 2%, índice menor que o de dezembro, mas muito mais alto do que o de janeiro do ano passado, que foi de 0,52%.

— A inflação de janeiro será pressionada pelo aumento dos combustíveis e pelo aumento dos ônibus em São Paulo. Apesar de ser só em São Paulo, foi um reajuste muito alto: de 20%, analisou Luiz Roberto.

Em fevereiro, a inflação talvez caia para 1%, na previsão do professor. Mas, de novo, o acumulado em 12 meses vai subir porque, em fevereiro do ano passado, a inflação foi de 0,36%.

O fato é que a inflação deve chegar a março com um acumulado em 12 meses de 15%.

— O problema é que em março/abril há uma safra de dissídios salariais, entre eles o dos metalúrgicos de São Paulo — lembra Luiz Roberto Cunha.

Apesar de a inflação em 12 meses estar subindo, os economistas estão revendo para baixo suas previsões para a inflação do ano. E as previsões são de inflação de um dígito. Será difícil para a política econômica conviver com estes dois tempos dos índices inflacionários: subindo no curto prazo, mas com previsões de queda durante o ano.

Scheinkman acha que os resultados já colhidos mostram o acerto da política defendida pelo ministro da Fazenda e acredita que novas melhoras podem acontecer no futuro.

— O aumento do superávit primário em si não resolve o problema da dívida. No governo anterior, houve aumento do superávit com crescimento da dívida, mas tudo isso é importante para reduzir a taxa de risco que permitirá a diminuição dos juros — afirmou.

Ele acha que a grande virada será a reforma da Previdência.

— Mesmo que ela tenha pouco efeito no curto prazo, mostrará que mudou a restrição orçamentária do Brasil. Se fizer a reforma da Previdência, o país não precisará fazer um ajuste fiscal por ano — diz o economista.

O risco importado

É espantoso que o governo Lula tenha considerado, que seja, a possibilidade de envio de trabalhadores da Petrobras para fazer funcionar serviços que estão paralisados por greves na Venezuela.

O assessor internacional do presidente, Marco Aurélio Garcia, disse que, se o governo brasileiro aceitar, os venezuelanos terão que pagar por isso.

Resta saber quem pagará o preço de ver o Brasil envolvido em um conflito que é dos venezuelanos, exclusivamente doméstico e que revela as fraturas internas do país.

Envolver-se em conflito alheio custa caro em todos os sentidos, inclusive no mais literal: como um país que está cortando custos com sua própria segurança, vai se envolver num conflito de outro país?

O desdobramento disso é imprevisível e o Brasil já está sendo alvo de hostilidade. Há 150 anos, o Brasil tem vivido em paz nos 15.735 quilômetros de divisas com seus dez vizinhos fronteiriços. E isto porque nunca tentou arbitrar conflitos internos.

Quando chamado pelos lados em disputa, aceitou ser o mediador, o negociador da paz. Foi, por exemplo, o país-garante do acordo de paz entre Bolívia, Peru e Equador.

A análise de que isto é importante para garantir suprimento de petróleo não se sustenta. O Brasil importa apenas 15% do que consome. E nenhum especialista está prevendo petróleo a US$ 60, ao contrário do que disse Marco Aurélio Garcia ao GLOBO.

Se a guerra com o Iraque estourar, o petróleo sobe na crise, mas hoje o Iraque produz pouco e a demanda de petróleo está baixa. Mesmo se a previsão de alta de petróleo estivesse certa, não seria o Brasil ajudando Hugo Chávez que alteraria isso. A análise está errada e a idéia é perigosa.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão
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