
José Augusto Fontes *
O Acre foi acontecendo graças à coragem e à resignação de nordestinos que para cá vieram, trazidos da desilusão, da seca e da fome. A necessidade os movia, junto com alguma esperança. É claro, eram desassustados, já tinham visto a miséria bem de frente. Nada poderia ser muito pior. Vieram, na maioria, cearenses do interior. A partir de Belém, vinham como em gaiolas aquáticas, aos montes. Não há dúvida, sempre foram muito fortes. Ficaram resignados por falta de opção, por acostumarem-se com a fome, com o solo teimoso e duro, com o sol na cabeça, com os pés rachados. Uns nascem prá sofrer, enquanto outros riem. Há de tudo no mundo. Há os que passam a achar normal e comum ter infinitas vezes mais do que precisam. Acumular para não usar. Acham comum ver olhos frios e tristes. Sonhos perdidos em palavras mal formadas, de quem não teve como aprender a ler, a escrever, a sorrir. Normal deixar prá lá.
O nordestino era barato, custava quase nada, estava acostumado com pouco, sofrer não incomodava. Lá, não eram sequer um número. Não traziam registro de nascimento nem endereço. Aqui, seriam seringueiros, soldados da borracha, haveria uma referência. Em um tempo, havia uma guerra, era preciso auxiliar no “esforço de guerra”, produzindo borracha. Inclusive, povoariam essas terras, essa floresta. Teriam um chão mais mole, aqui chovia, tinha mato e seringa. No mínimo, iriam beber e comer. Havia promessa de salário. Trabalho não assustava, dureza nunca importou, pior era impossível. Quem sabe, um novo mundo.
No meio de tantos, chegou ao Acre Francisco das Chagas Lima, o Chaga Velho. Como os demais, veio sem lenço, sem documento, sem medo nem encanto, enfrentaria o que viesse, sabia que dificilmente voltaria. A cada cem, dois ou três traziam, quando muito, o batismo, assinado pelo padre. A rede no saco, a rapadura, umas mãos de farinha, o olhar comprido. A crença vinha registrada nos olhos e nas mãos, que às vezes apontavam para cima, para além da vida dura aqui de baixo.
Os bravos eram despejados em seringais, à beira da malária e das águas barrentas, para explorar a seringa e extrair a nova vida. Formavam as estradas e as colocações, convergindo para o centro, de onde o barracão administrava a produção e as esperanças. Tudo regulado, controlado, recebiam a borracha e entregavam alguma dívida para os seringueiros, que seguiam orgulhosos, apenas por ter o que comer, quase todo dia. Suavam e sofriam, entregavam tudo no barracão, em troca de coisas eu nunca terminavam de pagar. Não era problema. Havia tanta água naqueles matos, tanta fruta, tanto bicho, tinha paca, com sorte, encontrava-se um veado capoeiro, aqui e acolá uma festa, cachaça, dançar homem com homem, sem pisar no sapato de seringa. Mulher era raridade. Tudo faz parte da vida. É isso mesmo, pensavam resignados, homem tem que trabalhar sempre, tem que suar, tem que respeitar o patrão, tem que desenvolver o Brasil.
Sabe-se que o suor e os sonhos ficaram bem registrados, mas no borrão dos barracões. A conta nunca fechava. A dívida nunca zerava, por mais borracha que fosse entregue. Munição, uma lata de banha, o sal, o café, a aguardente. “A conta está aqui, veja e confira, se você soubesse ler e contar...”. Lá vem o regatão, apontando no estirão, cheio de ilusões, tem até rádio. Mas seringueiro não tem vaidades. Se tivesse mulher, mais dois metros de chita, um sabonete Phebo, tudo miudeza. Eram tempos difíceis, ou será que sempre foram?
A melhor parte da nossa História foi escrita por esses homens. Seus filhos passaram a ilustrá-la. História que viu a borracha escoar e sangrar, pelas curvas dos rios, empilhada, resignada, como aqueles nordestinos, para mares nunca d’antes navegados. Mas que vê excelentes frutos desta saga, homens e idéias, nascidos desses personagens, realidade e mito, conquistas e novos rumos, sem recuar, sem cair, sem temer, seguindo o bom exemplo. São personagens variadas, ricas, férteis, cada uma com valores próprios a destacar. A seguir, um desses homens, uma vida de trabalho, sem moleza nem prazeres fartos, destemido e rude, é certo, mas da maior singeleza, da melhor alegria de vida, graça, fé e simplicidade, apesar do facão na cintura. Fé cega, faca amolada.
Conheci o Chaga Velho aqui na cidade, vindo do mato, da seringa, já com o passo lento, as mãos trêmulas, a vista cansada. Sempre comeu pouco, não teve esse costume, era do Ceará, da seca, tinha os pés rachados, não usava sapatos, bastava-lhe farinha com rapadura. Não esquecer da banana prata. “Haydée, uma bananinha, Haydée”, dizia ele para a minha avó. Vivia para trabalhar e servir. Só Depois de quase cego, o Chaga Velho conseguiu possuir um rádio de pilhas. Vi o brilho nos olhos dele, com aquele rádio e com um par de novas sandálias que ele comprou, com a pensão do INPS que a tia Zuléia agilizou para ele. Sandálias rústicas, para pés calejados, com umas alergias, parecia que ele tinha acabado de passá-los em urtigas. Sandálias que pareciam esquisitas, naqueles pés-de-chão. O Chaga Velho tinha um terçado, no qual, no cabo, ele cunhou FCL, suas iniciais. Era prá toda obra, companheiro e ferramenta. E tinha, também, nosso personagem, imagem, terço e oração impressa de São Francisco, sua devoção constante. O Chaga Velho nunca teve uma casa própria. Conta em banco, mulher, filhos, automóvel ou fogão a gás. Não tinha essas vaidades. Mas tinha fé cega e faca amolada. Ajoelhava-se diante da imagem do São Francisco dele. Era a garantia de um bom repouso. Depois de tantas lutas, o Velho Chaga dava-se ao luxo de achar que poderia morrer em paz. Sempre comeu pouco, o organismo quase não tinha defesas, perdeu a visão. Para não perder de tudo, não veria a cara da morte, embora não a temesse nem um pouco. Como tantos outros seringueiros, sofredores e fortes, sem posses e sem saída, resignados e devotos, ele sabia que o céu não é perto. Sabia da promessa de vida eterna e gozo da felicidade nos céus. Mas, para alcançar isso, acreditava, sabia, porque São Francisco dizia para os padres, que era preciso morrer. O paraíso não era neste mundo. E ainda não é.
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