
Tião Maia *
Me fascinam as palavras. Uma delas em especial. Não sei a razão, mas sempre me detive com mais atenção nas leituras em cujo texto constasse a expressão pescador. Não que teu tenha algo a ver com a atividade. Aliás, menino criado em beira de rio, fui pescador involuntário, quase por obrigação e necessidade, e hoje não vejo graça alguma nisso. O que para uns é esporte, no meu caso é chatice. Prefiro pescar nos balcões dos frigoríficos ou dos supermercados.
Mas a definição dessa atividade, sei lá por que, me toca fundo. De todas as palavras da língua portuguesa, aquelas oito letrinhas reunidas me remetem, muito mais que aos peixes, à imagem da água. A água que nos leva e lava nossos sais sob o céu azul e do mar profundo num mundo onde só o coração do homem é vasto. Isso me faz ter em conta que a água, de todos os elementos da natureza, é de fato o mais forte, o mais violento, o mais sagrado. O fogo, do qual se diz violento, só é de fato contido sob a água. Não é por acaso, então, que o elemento água é, por definição, feminino. Como feminina também é a definição da justiça. A água, eu penso assim, está para o homem como deveria estar sempre a justiça: cristalina, necessária e impiedosa.
É por isso que talvez me afine tanto com a definição do pescador. É este homem, profissional ou não, que mais está próximo da água, Sua meta é o peixe, mas, para isso, ele tem que enfrentar o mais sagrado e mais puro elemento da natureza. Não é à toa, portanto, que a água é, na terra, a maior porção. Também não deve ser à toa que a vida é gerada sob bolsas líquidas. É por isso talvez que o pescador tenha tanto intimidade com a água. Enfrenta-a e, sereno, se sagra vencedor.
São pensamentos como esses que me vêm à cabeça numa tarde de domingo, ali nas imediações da Gameleira, sentado num banco de praça, contemplando o nosso querido rio Acre. Uma contemplação rodeada por casarões cujas fachadas estão praticamente como eram no início do século passado. Não há como não ser um tanto bucólico num local como aquele. A Rua Eduardo Assmar, com o monumento ao centenário da Revolução Acreana, a bandeira acreana tremulando lá no alto; aqui em baixo, crianças correndo, comento pipoca, casais enamorados indo e vindo numa preguiça sem fim, nos trazem a sensação de que viver vale à pena. Lá distante, no meio do rio, como um quadro emoldurado numa vasta parede do tempo, um homem e um barco cruzam o rio, indo e vindo, averiguando um “espinhel” – uma armadilha que permite ao pescador amealhar sua féria em tempo mais curto do que se gastaria caso a pescaria fosse a caniço.
Não há como não querer saber mais sobre esse homem que demonstra tamanha intimidade com o rio. Como será sua vida? De onde ele vem? Há quanto tempo faz isso? Perguntas bobas cujas respostas não acrescentariam nada a vida de ninguém. Talvez matasse apenas a curiosidade de um solitário observador.
Mas a resposta vem na definição da atividade desse homem. Ele é um pescador. Um pesca/dor, se me entendem. Está explicado.