
Pesquisa dá ao produto mais
cultivado pela zona
rural acreana um novo potencial nacional de mercado
Josafá Batista
O produtor Francisco Almeida dos Santos, 63, morador do quilômetro 44 da BR-364, criou os seis filhos, hoje entre sete e 19 anos, com a plantação de três hectares e meia de mandioca. O tubérculo é arrancado da terra, lavado e transportado até a cidade numa pequena C-10.
Francisco está entre os milhares de produtores acreanos e do restante da Amazônia que pode ser beneficiado por um novo mercado: o do amido de mandioca na produção de celulosa, em indústrias do Sul e Sudeste.
O uso do amido de mandioca pela indústria produtora de papel e celulose está reduzindo os custos do setor com insumos em até 15%, segundo o pesquisador Dermânio Tadeu Lima Ferreira, do Centro de Tecnologia de Amidos da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Fundetec). O estudo refere-se ao Acre como potencial produtor de matéria-prima.
“Com mais esse produto no mercado os colonos acreanos devem ganhar mais uma alternativa de mercado, com potencial de exportação, inclusive. Basta organizarem-se em sindicatos, associações ou cooperativas”, diz Dermânio.
Atualmente a mandioca é usada no Acre apenas no processo de fabricação de farinha, fécula e na venda direta do produto em feiras livres.
A novidade da pesquisa está na descoberta do amido, utilizado para fazer liga com a celulose, e, assim, produzir o papel. Normalmente, as empresas utilizam amido de milho para esse processo. No entanto, os altos preços do produto levaram as indústrias a migrar para o amido de mandioca em busca de custos mais baixos.
Empresas multinacionais já aderiram
à substituição e acumulam lucros
A substituição do amido de milho pelo de mandioca reduz o custo da indústria de 10% a 15%. “Nos últimos anos, muitas indústrias passaram a usar o amido de mandioca devido aos menores preços deste produto em relação aos do amido de milho”, afirma o pesquisador.
A mandioca está ganhando o mercado do milho no papel, afirma Ferreira. Segundo ele, a granulação da mandioca é diferente da do milho, o que torna o processo mais eficiente e a liga, mais forte.
Atualmente, o amido de mandioca está presente em mais de 90% dos papéis de impressão, segundo estudo da Fecularia Inpal S.A., com sede na capital paulista.
Além disso, o estudo mostra que de 40% a 60% dos sacos e sacolas de papel e 30% das caixas onduladas já usam o amido de mandioca no lugar do de milho na composição do papel.
De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (Abam), o amido de mandioca é utilizado no acabamento da superfície do papel e contribui na coloração, absorção de água e textura do mesmo.
O produto ainda é usado na massa que dá origem à folha, garantindo resistência mecânica do papel à tração, rasgo e estouro.
CONSUMO - Maurício Yamakawa, presidente da Abam, informa que o setor de papel e celulose consome, atualmente, cerca de 90 mil toneladas por ano de amido de mandioca.
Desse total, 10 mil toneladas são de amido comum para superfície, 40 mil toneladas são de amido modificado para massa e 40 mil toneladas são de amido modificado para superfície, de acordo com o presidente da entidade.
Segundo Yamakawa, grandes empresas do setor já utilizam o amido de mandioca. Entre elas estariam Klabin , Suzano , Ripasa , Rigesa e Votorantim Celulose e Papel (VCP).
A expectativa é que, em 2006, o setor de celulose e papel passe a consumir 250 mil toneladas de amido de mandioca por ano.
Uso também na indústria de compensado
Além da indústria de papel, também os produtores de compensados de madeira utilizam o amido de mandioca como insumo. “Ainda há uma resistência da indústria de compensados devido ao fato de o preço do amido de trigo ser mais baixo que o do amido de mandioca”, afirma Ferreira.
De acordo com ele, a indústria de compensados ainda utiliza o amido de trigo para a fabricação de cola. “Como eles usam trigo de terceira, cheio de impurezas e insetos, é praticamente impossível competir com os preços deles”, ressalta.
Atualmente, o quilo do amido de trigo de terceira é vendido no mercado a R$ 0,60 o quilo, de acordo com o pesquisador da Fundetec.
Já a mesma quantidade de amido de mandioca é comercializada entre R$ 0,70 e R$ 0,80. Para se ter uma idéia, o quilo do amido de trigo de boa qualidade vale de R$ 1,40 a R$ 1,60.