
“Os picaretas não
suportaram as mudanças
e estão fugindo do Acre”
Agenor Mariano, 45, nasceu em Porto Velho (RO), mas já vive há 30 anos no Acre. Veio para estudar, mas teve que desistir de um sonhado diploma da Universidade Federal do Acre porque os pais não dispunham de recursos para mantê-lo aqui.
Trocou o curso de matemática pela fotografia como autodidata, ingressou pelas mãos do jornalista José Chalub Leite no fotojornalismo e se firmou como um dos melhores profissionais da imprensa acreana.
Disposto a melhorar de vida, decidiu montar seu próprio negócio, mas não dispunha de dinheiro para comprar um equipamento de US$ 30 mil para revelação de fotos em uma hora.
O projeto, que foi recusado pela direção do extinto Banacre, começou a se consolidar no dia em que Agenor Mariano encontrou o empresário Roberto Moura, dono da Distribuidora Recol e da TV Gazeta, disposto a financia-lo.
“Eu só tinha o meu salário e muita disposição para trabalhar. Quando o Moura decidiu emprestar o dinheiro, naquela noite eu não consegui dormir. Minha mulher perguntou o que eu tinha. Respondi que não conseguia dormir de tanta felicidade”, conta.
O jornalismo acreano perdeu um de seus melhores profissionais, mas começa a surgir um pequeno empresário que hoje possui sete lojas e gera 35 empregos diretos no Foto Center MM.
Agenor Mariano vai abrir novos caminhos para a expansão de sua empresa com a aquisição de um equipamento digital. Os clientes poderão levar a mídia de câmera digital para fazer cópias em papel fotográfico.
“Tenho prazer de viver no Acre e vou morrer no Acre, investindo aqui tudo que for fruto do meu trabalho. Os picaretas estão fugindo do Acre. Tomara que eles não parem de sair daqui”, afirma.
Leia os melhores trechos da entrevista:
Como foi a sua infância em Porto Velho, a cidade onde você nasceu?
Foi uma infância difícil. Estudei com dificuldade, indo a pé para a escola. Vim para Rio Branco prestar vestibular para economia, mas acabei ingressando na faculdade de matemática. Estudei dois anos e abandonei porque tive que optar pelo trabalho para sobreviver. Meus pais não tinham condições de me manter aqui. Posso dizer que tive muita sorte nessa opção e que Deus me ajudou muito.
Quando começou o seu interesse pela fotografia?
Quando era criança, perto de minha casa existia um laboratório de fotografia preto e branco. Eu andava por lá, sempre bastante fascinado pela magia daquele ambiente. Quando cheguei no Acre, reencontrei o Lauro Nunes, fotógrafo, que era amigo da minha família. Ele me deu as primeiras lições e muitas vezes me livrou de passar fome. Depois, também trabalhei com o velho Ceará.
Depois disso você ingressou no fotojornalismo?
Eu trabalhava ainda com o Ceará quando comecei a trabalhar com fotojornalismo. Trabalhava de segunda a sexta com ele e no sábado e domingo trabalha para o Zé Leite, cobrindo esporte no estádio José de Melo. Meu trabalho começou então a ter muita visibilidade e fui me adaptando facilmente. Claro que a crítica constante do Zé Leite foi importante para o meu trabalho. Isso aconteceu quando os jornais em Rio Branco estavam saindo do clichê para o fotolito. As pessoas ficavam admiradas quando a foto de uma partida de futebol era publicada no dia seguinte. Batia a foto à noite e de manhã cedo estava estampada no jornal. O Zé me ensinou que uma boa foto pode comunicar melhor que mil palavras. Às vezes uma reportagem com mais de 100 linhas não diz tanto quanto uma boa foto. Muitas vezes enchi buracos de jornais com uma puta foto-legenda.
O que você considera importante num repórter?
Quem faz jornalismo tem que gostar e acreditar no que faz. Eu fazia jornalismo porque gostava. Se uma pauta tivesse que ser cumprida às 4 horas da madrugada, quando dava uma hora antes do previsto eu estava de prontidão. Quando trabalhava na Gazeta e Chico Mendes foi assassinado, ia para Xapuri e voltava para Rio Branco todo dia. Isso durou várias semanas. O motorista do carro era eu. Aquele foi um momento marcante na carreira de todos nós. Vendi muitas fotos para o exterior e cheguei a ser condecorado pela Câmara Municipal pelo trabalho.
Mas antes disso, quando trabalhava em O Jornal, com o Zé Leite, os créditos de quase todas as fotos eram seus em cada edição.
O trabalho da gente só aparece se o nome aparecer. Imagina se o Jorge Viana não tivesse divulgado a reforma do Palácio Rio Branco, a construção do Parque da Maternidade e das obras nas imediações da Gameleira!
Qual um momento inesquecível do período vivido como repórter fotográfico?
Claro que as coisas ruins eu quero esquecer, mas teve um fato muito engraçado quando o então deputado Manoel Machado foi eleito presidente da Assembléia Legislativa. Todo poderoso, o ele mandou abrir as portas do clube do Rio Branco para o público. Havia pagode e muita cerveja de graça para comemorar a vitória. O Zé Leite então me mandou sair correndo para fazer uma foto. Quando entrei no clube, o Machado estava dançando coladinho com uma mulher aparentemente mais velha que ele. Fiz várias fotos e voltei logo para o jornal. O Zé Leite perguntou quem era a mulher da foto e eu expliquei que devia ser a mãe do deputado. No dia seguinte, estava estampada a foto, com uma legenda explicando que o deputado havia dançado muito com a mãe dele. Acontece que aquela era a mulher do então presidente da Assembléia. Ela no mesmo dia entrou na redação do jornal furiosa, querendo saber quem havia feito a foto e quem havia escrito que ela era a mãe do marido dela. O Zé Leite me culpava e eu culpava o Zé Leite. A mulher do Manoel Machado cansou daquele jogo de empurra e foi embora muito zangada por ter aparecido equivocadamente como mãe dele.
Lembra de outro episódio?
Certa vez chegou o presidente da extinta Sudhevea, cujo escritório funcionava onde hoje é o Museu da Borracha. Era uma solenidade com todo mundo de paletó e o folclórico Martins Bruzugu, que só andava de bermuda, apareceu por lá num jeep. Ele desceu do carro, tirou a bermuda, ficou só de cueca e começou a vestir a calça comprida. Eu não dormi no ponto e fiz uma seqüência de fotos inesquecível. O Zé Leite caprichou numa edição engraçada no dia seguinte.
A cobertura do caso Chico Mendes foi a mais importante?
Sem dúvida. Todo dia, Flamínio Araripe, Sílvio Martinello e eu saíamos daqui às 4 horas da manhã e voltávamos no final da tarde. Batia o filme lá e trazia para revelar aqui, pois não dispúnhamos de meios para transmitir de Xapuri para a redação. A gente escondia os filmes, as gravações e as anotações com medo de que alguém tomasse no caminho. Também a gente não confiava em enviar nada por ninguém. Foi um período de muito trabalho, mas também de muita satisfação profissional.
O que você tem a dizer sobre Chico Mendes?
A lição mais importante de Chico Mendes foi a defesa da floresta. Muita coisa que as pessoas falam hoje, como desenvolvimento sustentado, já era defendido por ele há muitos anos. Ele era uma pessoa além do seu tempo. Mas a verdade é que muitos jornalistas acreanos não levavam o Chico a sério. Ele chegava na redação e avisava que havia acabado de ser ameaçado de morte. A maioria dos jornalistas não acreditava no que ele dizia. Muitas vezes alguns jornalistas anotavam as denúncias que ele fazia e não publicava. Muitas vezes me mandaram fazer fotos dele, mas a reportagem sobre o que ele falava não era publicada.
Qual sua opinião hoje sobre a imprensa acreana?
A verdade é que antes a imprensa tinha mais valor e credibilidade. Os jornais tinham cadernos adicionais só de coisas do Acre. Hoje, tudo mudou: os jornais estão cheios de colunas compradas de agências de notícias ou reportagens pirateadas da internet. Pouca coisa a gente lê sobre o Acre. Além disso, ou o governo paga ou não sai a reportagem. Naquela época, e isso não faz muito tempo, a gente ganhava pouco, mas tinha muito entusiasmo. Era um salário de vagabundo, mas no outro dia as equipes dos jornais vibravam quando o seu jornal esgotava nas bancas. Tenho a impressão de que hoje o fotógrafo ou o repórter não está preocupado se o jornal vendou ou não. Eles estão mais preocupados é com o salário no final do mês.
O que contribuiu para que a imprensa no Acre perdesse qualidade e credibilidade?
Outra verdade é que hoje tem jornal demais e o poder aquisitivo do nosso povo é muito baixo para comprar jornal todo dia. Ou compra o jornal ou deixa de comer o pão. O ideal seria que todo mundo pudesse comprar o jornal para saber se o pão aumentou ou não. Mas o jornal ainda é uma fonte imprescindível de informação porque é onde a palavra fica registrada. É diferente do rádio e da TV, onde a pessoa fala uma coisa e aquilo se perde no ar. Convivi com bons profissionais, como o chargista Emanoel Amaral, o fotografo Argemiro Lima e o Antonio Alves, que teve papel marcante na minha vida.
De que maneira?
Ele foi o precursor da demissão voluntária da equipe do jornal O Rio Branco. O Toinho escreveu um artigo pesado contra os líderes da extinta UDR (União Demorática Ruralista) dizendo que era uma insanidade alguém expulsar seringueiros para derrubar florestas e criar bois. O Narciso Mendes, que havia comprado o jornal O Rio Branco há pouco tempo, chamou o editor, que era o Zé Leite, para exigir providências contra o Toinho. O Zé então foi o primeiro se demitir, depois o Luis Carlos, o Antonio Carlos e a Simony Maria. O jornal O Rio Branco era o campeão de vendas. Com a demissão coletiva, o jornal passou quase dois meses parado e teve que importar profissionais de fora. Foi aí que o jornalismo do Acre se acabou. Trouxeram pessoas que não conheciam a realidade do Acre e que estavam mais preocupadas em ganhar bons salários.
Você está dizendo que a entrada de Narciso Mendes serviu para destruir a credibilidade da imprensa acreana?
Sim, claro. Ele acabou com o jornalismo escrito no Acre. O pessoal de televisão está bem, mas depois da entrada de Narciso Mendes o jornalismo impresso acabou. Antes da equipe de O Rio Branco se demitir, os jornais em Rio Branco estimulavam o debate. As equipes competiam para mostrar ao leitor a melhor reportagem, para dar o furo. Uma equipe vibrava quando conseguia apresentar ao leitor algo com exclusividade. Era uma competição sadia. Do outro lado estava a equipe da Gazeta, com Silvio Martinello, Flamínio Araripe e Elson Martins. Era um time da pesada. As equipes disputavam e vibravam quando um jornal vendia mais que o outro. Hoje, o que o leitor encontra são vários jornais com o mesmo conteúdo. As pessoas das redações hoje estão muito isoladas umas das outras.
Qual foi o momento que decidiu que o jornalismo não seria mais sua praia?
Todo mundo tem um sonho de crescer na vida. Eu trabalhava no jornal A Gazeta e um belo dia me deparei com o empresário Roberto Moura, que é dono da TV Gazeta hoje. Falei para ele que pretendia comprar um equipamento de revelação de fotos, que custava US$ 30 mil, mas não tinha dinheiro. Prontamente ele respondeu que acreditava em mim, que ele entraria com o capital e eu com o trabalho. Lembro que naquela noite em não consegui dormir de tanta alegria. Minha me viu em claro e perguntou o que eu tinha. Respondi que não conseguia dormir de tanta felicidade. Depois de Deus e da minha família, a pessoa de quem gosto nessa vida se chama Roberto Moura. Eu não tinha nada na vida, além da vontade de trabalhar. Ele me apoiou importando a máquina. Consegui pagá-lo e hoje estamos no mercado com cinco lojas e empregando 35 pessoas diretamente. Não temos pesquisa, mas acho que somos líder no mercado. Tentei obter financiamento para esse projeto junto ao Banacre, mas a idéia não agradou o presidente Osmir Lima. Ele preferiu beneficiar um bando de picaretas que ajudou a falir o banco. O jornalismo foi uma passagem linda na minha vida. Se eu pudesse voltar eu voltaria porque aprendi muito no jornalismo.
Agora, como empresário, como você avalia a situação do Acre?
Eu acho excelente e necessária essa briga entre Frente Popular do Acre e MDA. O governador Jorge Viana conseguiu colocar em dia o pagamento do salário, que é fundamental para o comércio do Acre. O comerciante que reclama hoje do Jorge Viana é aquela que não pagava impostos, que sempre participou de sacanagens envolvendo o dinheiro público. Mas empresários pequenos como eu, que recolhem os tributos em dia, estão satisfeitos. É nosso dever como empresários repassar ao governo os tributos pagos por nossos clientes.
A fotografia não pára de evoluir. Estamos na era digital, mas ainda revelamos com química. Você está se preparando para acompanhar e ingressar mais na era digital?
A partir desse ano a fotografia será a seco. Isso será um avanço marcante. Se tudo correr bem, se o dólar se mantiver estável, nós também estaremos revelando a seco, na era digital. Minhas máquinas estão todas obsoletas. A máquina mais nova que possuo tem seis anos. Todas as máquinas novas são digitais. São máquinas que levam cinco ou seis anos para ser pagas. A qualidade e as facilidades criadas por uma máquina digital são extraordinárias. As fotos serão impressas a laser, com alta resolução. Nossos clientes poderão enviar as fotos pela internet e elas serão entregues em domicílio.
Para encerrar: nós, acreanos, temos a mania de comparar Rondônia como sendo mais próspero que o Acre. Você conhece bem os dois estados. Qual o melhor?
Eu tinha vergonha de convidar pessoas para conhecer o Acre antes de Jorge Viana assumir o governo. Depois que o Parque da Maternidade foi inaugurado, recebi visita do pessoal da Fujimilm, Kodak, Yashica, além de um amigo e de uma irmã minha que mora em Porto Velho. Essas pessoas todas saíram daqui com uma ótima impressão do Acre. Elas viram que o Acre está se desenvolvendo. Posso te dizer mais: estive em Rondônia recentemente e o que se comenta por lá é que o Acre está melhor. Todo mundo está querendo conhecer o Acre. Você não faz idéia do quanto minhas lojas têm revelado de filmes das obras do governador Jorge Viana. A paisagem mudou completamente, as pessoas estão tendo orgulho em fotografar os locais bonitos e eu estou faturando mais. Não preciso fazer média com o Jorge Viana, mas é preciso admitir que o Acre mudou mesmo para melhor. Hoje a gente pode convidar pessoas para conhecer o Acre e temos o que mostrar a elas.
Pelo visto, você não é mais rondoniense.
Tu é doido? Só não sou mais acreano porque nenhum político ainda não sugeriu me conceder o título. É uma pena que tenham preferido dar o título de cidadão acreano a gente picareta, alguns deles cumprindo pena na cadeia. Tenho prazer de viver no Acre e vou morrer no Acre, investindo aqui tudo que for fruto do meu trabalho. Os picaretas estão fugindo do Acre. Tomara que eles não parem de sair daqui, para que essa terra possa continuar essa fase de prosperidade.