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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 8 de janeiro de 2003
Emissora comunitária integra
sociedade à cultura usando comunicação

Música, notícias e mensagens fazem a programação
da Rádio Flora, que funciona há sete anos em Rio Branco

De manhã, de tarde ou à noite, quem passa pelo Terminal Urbano de Rio Branco não tem como não escutar uma boa música, notícias do Acre e muitas informações sobre o horário dos ônibus e até mesmo serviço de “achados e perdidos”. Através da Rádio Flora, uma rádio comunitária que funciona há 7 anos nas dependências do terminal, a população que circula pela região desfruta de um meio de comunicação feito especialmente para atender suas necessidades.

Numa sala verde-escura, estreita e abarrotada de equipamentos para transmissão diária, uma equipe bastante reduzida - três locutores - cuida da programação e dos patrocínios da Rádio Flora. Adalberto Dailas, idealizador do projeto, e Ângela Freitas estão nessa empreitada desde o início. Para eles, as dificuldades ainda existem, mas o prazer de ver a satisfação dos ouvintes acaba por compensar.

“Diariamente várias pessoas vêm aqui na administração da rádio para conhecer o espaço. Elas querem saber como funciona, agradecem a programação, pedem música ou mandam recados. E esse é o objetivo da rádio comunitária: aproximar a comunidade”, afirmou Ângela, 28, que começou a carreira de locutora através de um curso no Senac há mais de 8 anos.

A equipe da rádio do terminal trabalha de segunda à segunda, sem feriado e sem férias. “Não podemos parar”, desabafa o outro locutor, Israel Silva, de apenas 18 anos, já se preparando para entrar no ar.

Nos corredores de ônibus, a agitação de entra-e-sai de pessoas não pára, mas a satisfação com a programação da rádio torna-se visível quando alguém balbucia a música tocada ou ri discretamente das mensagens colocadas no ar.

“Meu ônibus costuma demorar, por isso, gosto de ficar prestando atenção nas músicas e nas notícias que eles oferecem”, disse a doméstica Areda Costa, que freqüenta o terminal duas vezes por dia.

ALCANCE - A Rádio Flora tem um alcance pequeno, como toda rádio comunitária, mas atende boa parte do Centro de Rio Branco. Segundo Ângela, a programação atende o Terminal Urbano, parte do Calçadão da Benjamin Constant e do Mercado Novo.

Programas diversificados e nova proposta

A Rádio Flora apresenta diariamente uma programação específica e bastante diversificada para atender à todos os gostos. Das 7 às 8, Ângela Freitas apresenta um programa gospel. Depois disso, a rádio anuncia as principais notícias do dia publicadas nos jornais da cidade, seguidas muita música e publicidade.

Por volta do meio-dia, entra no ar o programa Gazeta em Alerta que é transmitido pelas três televisões instaladas no terminal. Pela tarde, mais música, prestação de serviços e propaganda. À noite um noticiário na TV e, como não podia deixar de ser, música.

Os ritmos musicais também variam conforme o horário. Segundo Israel Silva, que trabalha há 4 meses na Rádio Flora, pela parte da manhã e tarde são tocadas músicas mais agitadas e alegres, e pela noite, dá-se preferências às músicas mais românticas e calmas, pois é um horário que a maioria das pessoas está voltando para sua casa cansada de um dia de trabalho.

Mas na rádio, todos os locutores fazem questão de ressaltar que toca de tudo um pouco. “Eu prefiro pagode, mas o meu gosto fica por último na hora que eu fico na organização musical”, explicou Israel.

Um serviço bastante procurado na Rádio Flora é o de “achados e perdidos”, onde quem perdeu ou encontrou alguma coisa anuncia sua procura no ar. “Tem documentos que estão aqui guardados há mais de 4 anos sem dono. A gente guarda, né? Vai que um dia aparece alguém atrás...”, comentou Ângela.

Mas não são somente documentos e artigos perdidos que passaram pela rádio. Já teve gente atrás de marido perdido e noiva desencontrada no Terminal Urbano. “Foi engraçado, mas eu tive que anunciar”, contou aos risos a locutora da equipe.

Curso de locução da rádio trouxe novos talentos

Israel Lima é o integrante mais novo da equipe de locutores da Rádio Flora. Tanto na idade, 18 anos, quanto no tempo de trabalho, quatro meses. Mas o sonho de ser radialista ele tem desde criança.

“Eu sempre ouvi muita rádio na minha casa. Direto, adorava ouvir as propagandas e imitar os locutores anunciando músicas e publicidade”, relembrou.

E o talento de criança foi descoberto quando Israel entrou num curso de radialista oferecido pela próprio Rádio Flora, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura da Fundação Elias Mansour. Num total de 40 horas, a Oficina de Locução de Rádios Alternativas profissionalizou 48 acreanos que buscavam o sonho de se tornarem radialistas.

“Acho que fizemos um bom trabalho. Muita gente vinha aqui na administração saber como deveriam fazer para se tornarem radialistas, pedindo para anunciar uma propaganda no microfone para experimentar a voz, essas coisas. A partir daí surgiu a idéia do curso e, além da realização de muitas pessoas, houve a descoberta de novos talentos como o Israel”, explicou Ângela.

Emissora é exemplo da comunicação sustentável

A rádio comunitária é por sua essência um meio de comunicação sem fins lucrativos. Ela tem como principal objetivo procurar uma melhora para a sua comunidade e desenvolver projetos para que todos os moradores da localidade tenham acesso a informações de tudo o que está acontecendo dentro de sua comunidade.

Assim, a Rádio Flora mantém sua diversidade e busca patrocínios para cobrir as despesas de salários e custos operacionais dos equipamentos apenas. “Cobramos um valor pequeno, já que nosso alcance é reduzido, mas os empresários que anunciam aqui costumam manter a publicidade”, afirmou Israel.

Atualmente os locutores da rádio dizem que a principal dificuldade é enfrentar pouco apoio financeiro. “Precisamos de uma sala mais ampla e até de uma equipe um pouco maior. Mas isso são planos futuros. Há coisas faltando, mas estamos satisfeitos com o trabalho que realizamos e acredito que a população também.”

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