
Recurso permite perpetuação
da vida nos ecossistemas,
exploração de recursos milionários e qualidade de vida
Josafá Batista
Projeto de Desenvolvimento Ambiental (PAD) Peixoto, localizado no quilômetro 65 da BR 364. Todas as manhãs, Raimundo Oliveira dos Santos, 53, entra na floresta com o filho, Mário Batista dos Santos, 23. Vão derrubar madeira, com o que ganham a renda e sustentam mais cinco pessoas. De posse de uma autorização do Ibama e um treinamento dado durante seis meses pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a dupla consegue, entre outras coisas, o milagre de explorar e ao mesmo tempo manter o equilíbrio de espécies na selva.
A técnica que permite a Raimundo, Mário e outros 142 produtores do PAD Peixoto a exploração de madeira, sem prejudicar o equilíbrio ecológico da região, foi possibilitada depois de uma série de estudos ambientais, baseados nas reivindicações de governos, entidades ambientalistas e reuniões globais pedindo a preservação das espécies vegetais e animais, antes que a vida no planeta entrasse em colapso.
Foram atendidos. No interior do Acre, no coração da Floresta Amazônica, produtores rurais já trabalham com a perspectiva de um futuro mais promissor, mais verde, onde a vida floresce casada com o progresso. A tecnologia é recente, mas com ampla aceitação e praticidade. Seu nome é manejo florestal.
“Quando vamos à mata fazemos um plano de derrubada, retirando apenas as árvores mais antigas e em pontos estratégicos, para não agredir outras espécies. As sementes que caem são imediatamente reaproveitadas pela terra. Ali outras árvores crescerão e quando voltarmos, segundo o nosso plano, àquela região, as árvores já estarão adultas e prontas para novo abate. Não é simples?”, comemora Raimundo.
As toras são cortadas na própria selva, através de uma pequena “serraria portátil”. Trata-se de um equipamento atualmente caro devido a baixa procura. Ela permite, principalmente, que as toras saiam das clareiras na mata já transformadas em estacas, barrotes e pernamancas.
A proposta da Embrapa é popularizar o equipamento e utilizá-lo em massa, com as cooperativas de extrativistas, e, assim, derrubar o preço.
Manejo florestal e tecnologia de exploração madeireira
O conceito de manejo florestal está associado aos determinantes do desenvolvimento em bases sustentáveis, que são: promover o capital natural, o capital humano e institucional e ser objeto de análise econômica. Nesse aspecto, não se descarta a análise de custos e benefícios, apesar de suas limitações, como instrumento fundamental na tomada de decisões visando à proteção ambiental.
O manejo de florestas nativas engloba um conjunto de procedimentos e técnicas que assegurem vários fatores, como a permanente capacidade da floresta oferecer produtos e serviços, a capacidade de regeneração natural e a capacidade de manutenção da biodiversidade.
Para que os empreendimentos florestais se enquadrem nesse contexto, devem evoluir em rentabilidade, prever segurança e sustentabilidade. Caso contrário, não apresentarão viabilidade econômica, social e ecológica e, portanto, garantia de rendimento sustentado.
Essas premissas permitem conceituar manejo florestal em Regime de Rendimento Sustentado como sendo o planejamento, o controle e o ordenamento do uso dos recursos florestais disponíveis, de modo a obter o máximo de benefícios econômicos e sociais, respeitando os mecanismos de auto-sustentação do ecossistema objeto do manejo.
As atividades de manejo não degradam a floresta se corretamente conduzidas, porém, podem alterar a qualidade do ecossistema por influir na distribuição e composição das espécies e nos processos ambientais.
Empreendimento tem fase de planejamento
Envolve o conhecimento dos recursos florestais sob os aspectos auto-ecológicos e sinecológicos, ou seja, o estudo individual das espécies ocorrentes e o estudo da comunidade florestal como um todo.
Nessa etapa, desenvolvem-se os estudos para a caracterização geral da cobertura vegetal, regional e local, o inventário florestal e a análise estrutural da floresta, visando a planificação da exploração racional, embasada nas condições silviculturais e tendências de desenvolvimento futuro. Com base nesses estudos, também se efetiva, nessa fase, a planificação das operações de manejo e dos tratos silviculturais.
Cobertura vegetal da área em estudo - identificação e mapeamento da cobertura vegetal da área do empreendimento, considerando as delimitações das diferentes tipologias vegetais existentes (campos, matas, capoeiras, outras), áreas de preservação permanente e outras áreas destinadas à preservação e proteção.
* Inventário florestal - Visa o levantamento das informações qualitativas e quantitativas dos recursos florestais do empreendimento. É realizado dentro de parâmetros estatísticos predefinidos, objetivando o conhecimento da precisão e o nível de probabilidade dos resultados. A seleção da metodologia de trabalho para o desenvolvimento do inventário florestal, previamente estabelecida, deverá abranger:
* Processo de amostragem - Discorrer e justificar o processo de amostragem selecionado. Normalmente, em inventários de florestas nativas, são utilizados os processos de amostragem aleatória restrita (estratificada), processo sistemático e misto;
* Métodos de amostragem - Descrever o método de amostragem selecionado, ou seja, as metodologias utilizadas na abordagem referentes às unidades amostradas;
* Intensidade de amostragem - O número de amostras a serem instaladas está intimamente interligado à precisão estatística preestabelecida. Normalmente é realizado o “inventário piloto” que determinará a intensidade amostral necessária para satisfazer a precisão desejada;
* Mapeamento da amostragem - Deverá ser feito o “layout” das amostras. Em campo, as unidades amostrais devem ser bem marcadas, para permitir fácil visualização;
* Dados coletados - Informar quais os dados coletados em campo, como DAP (diâmetro à altura do peito), altura total e comercial, informações relativas à qualidade das árvores e outras de interesse. Informar quais instrumentos de medição foram utilizados;
* Amostragem da regeneração - descrever e justificar a metodologia utilizada para a abordagem dos indivíduos de regeneração natural;
* Processos de cálculos - Informar quais os processos de cálculos utilizados (relações dendométricas, equações de volumes etc);
* Análise estatística - Informar qual a precisão e o nível de probabilidade utilizado e os resultados da análise estatística;
* Relatório dos resultados - Listagem das espécies ocorrentes (nome regional e científico); número de árvores por espécie e classe de diâmetro por hectare e para área total; área basal e volume por espécie e classe de diâmetro, por hectare e total; quantificar, por espécie e por hectare, o volume e o número de indivíduos considerados como estoque em crescimento e adultos.
* Itens da amostragem - Lista das espécies (nome regional e científico); abundância e a freqüência dos indivíduos de regeneração por hectare e total.
Análise da estrutura apresenta variações
Há uma grande variação de métodos a serem empregados para a análise estrutural da floresta, considerando requisitos básicos estabelecidos internacionalmente. Dentre os métodos utilizados, distinguem-se os processos clássicos de investigação científica para obtenção de informações quali-quantitativas, definidos pelos parâmetros da estrutura horizontal e vertical da floresta.
* Estrutura Horizontal - A estrutura horizontal é analisada pelos índices de abundância, dominância e freqüência das espécies florestais, nos termos absoluto e relativo de ocorrências. A combinação desses parâmetros fornece o Índice de Valor de Importância (IVI). O estudo permite quantificar a participação de cada espécie em relação às outras e a verificação da forma de sua distribuição espacial;
* Estrutura Vertical - A finalidade da análise estrutural vertical é a indicação do estágio sucessional das espécies dentro da floresta. O estudo dos estratos superior, médio e inferior permite o conhecimento de dois índices de interesse: posição sociológica e regeneração natural das espécies existentes. Os dados de regeneração natural e posição sociológica de cada espécie, combinados com os índices de abundância, dominância e freqüência, determinados pela análise horizontal, fornecerá o Índice de Valor Ampliado (IVIA) de cada espécie, caracterizando sua importância fitossociológica dentro da floresta estudada;
* Relatório Fitossociológico - Deverá citar a metodologia utilizada para o desenvolvimento da análise estrutural, os resultados obtidos e a conclusão deles. Poderá ser acompanhado do perfil esquemático da floresta.
Planificação das operações de manejo
* Instalação das parcelas - As parcelas permanentes têm como objetivo a avaliação contínua dos parâmetros indicativos do comportamento e desenvolvimento da floresta, nas condições naturais e sob condições de manejo florestal. Os parâmetros de avaliação da evolução do crescimento e do comportamento da regeneração natural das espécies deverão ser estudados em período de tempo preestabelecido, visando ao acompanhamento dessas variáveis ao longo do tempo;
* Seleção das espécies - As espécies serão selecionadas para a exploração segundo suas potencialidades econômicas e suas características fitossociológicas dentro da floresta. A intensidade e os ciclos de corte deverão ser planejados e executados de forma compatível com a capacidade da floresta em assegurar a permanente geração de produtos e serviços, conservar a biodiversidade e garantir a capacidade de regeneração;
* Equipamentos utilizados - Seleção dos equipamentos a serem utilizados na exploração, arraste e transporte dos toros, considerando as condições do meio e o mínimo possível de impacto negativo no ambiente;
* Planificação da rede - Os caminhos florestais na área do empreendimento, visando ao acesso e condições de transporte do material lenhoso explotado, deverão ser planejados e construídos considerando-se as condições de acessibilidade e curvas de nível do terreno, com a otimização da rede viária já existente;
* Planificação das etapas - Envolverão a marcação visual nos indivíduos a serem explorados, derrubada, desgalhamento, traçamento, arraste, estaleiramento e transporte de material lenhoso, deverão ser planejadas considerando as condições do ambiente e de forma a causar o menor impacto ambiental possível;
* Planificação dos tratos - A exploração deverá considerar as características silviculturais, volume e distribuição das espécies. Poderão ser aplicados métodos que promovam melhores condições de desenvolvimento da regeneração natural e que melhorem a qualidade do perfil da floresta.
Fase de instalação final
A fase de instalação do empreendimento de manejo envolverá as etapas de alocação das parcelas permanentes e a construção da rede viária, de estaleiros, da infra-estrutura e sede do empreendimento.
Na execução da operação, outra fase, ocorrem a exploração dos indivíduos das espécies previamente selecionadas e demarcadas e a aplicação dos tratos silviculturais planejados.