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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 9 de janeiro de 2003
Chance de melhora

Houve ligeira piora ontem, mas os indicadores econômicos podem melhorar muito ainda. O mercado está de olho em vários eventos para confirmar as previsões otimistas sobre o governo Lula. Na lista dos temas observados: os acordos políticos para formação da base, a resistência às pressões dos governadores, as metas fiscais de Antônio Palocci, a próxima reunião do Copom.

Um dos pontos decisivos para formar uma avaliação do país é o debate entre os estados e a União. Até agora, o governo tem sido firme na defesa da Lei de Responsabilidade Fiscal. A liminar do ministro Ilmar Galvão — que se aposenta em abril — assustou, mas a decisão de recorrer confirma, de novo, a firmeza do governo.

Há vários casos de estados com problemas, mas o governo só pode adotar soluções compatíveis com a lei, do contrário, ele a desmoraliza.

O governador Paulo Hartung, do Espírito Santo, encontrou terra arrasada: três meses de salário em atraso, R$ 1,2 bilhão de restos a pagar, duas parcelas — de R$ 61 milhões e de R$ 17 milhões — de receita retidas pela União por não pagamento da dívida.

Hartung foi ao presidente Lula e pediu ajuda, mas avisou que só pode ser dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal.

— Não vou entrar na Justiça contra a retenção da receita porque isto é cláusula contratual que o estado tem que respeitar. Não quero ajuda fácil. Quero ajuda dentro da lei e já apresentei propostas: uma delas é a federalização do banco do estado com sua carteira de FCVS. Quero que a União fiscalize toda a minha execução orçamentária. Já estou cortando gastos e recuperando receitas, anulando privilégios absurdos no pagamento do ICMS. No fim do primeiro semestre, quero ter superávit fiscal, e não apenas primário — afirmou o governador

Hartung mostra, com a sua atitude, que há saídas possíveis, sem demagogias, sem golpes no arcabouço jurídico do país.

Como o governo Lula vai lidar na prática com todos estes casos será um dos mais importantes sinais para a melhora da percepção de risco.

Outro ponto para o qual se olha com expectativa é o anúncio das metas fiscais do ministro Palocci.

As contas mostram que, com um dólar a R$ 3,30, uma inflação de 11% e o mesmo superávit primário estabelecido no governo anterior, a relação dívida/PIB pode cair de 57% para 55%.

Mas é um equilíbrio frágil, que deixa o governo numa saia justa. Qualquer movimento diferente do dólar, essa relação voltaria a subir.

Por isso, a expectativa é de que seja anunciado um aumento da meta de superávit primário.

Na quinta-feira da próxima semana, haverá uma rolagem de dívida cambial e swap. Será a primeira rolagem do novo governo e o mercado a aguarda com otimismo.

Quando há entrada de recursos externos como agora, captações, naturalmente se cria demanda para as cambiais. O banco que capta se protege comprando título cambial.

A reunião do Copom será outro sinal. Os indicadores de inflação estão mostrando queda, mas ainda é cedo para a redução dos juros. Mantê-los onde estão será visto como um sinal de firmeza na política de metas de inflação.

O risco-Brasil oscilou ontem. Instável, esteve em queda de 2,55% e acabou fechando em alta. Mesmo assim, a queda dos últimos dias faz uma grande diferença.

O Brasil, que já foi campeão de risco, está em quarto lugar. Já é mais baixo que Argentina, Nigéria, Equador. O mundo está descobrindo o óbvio: que o Brasil está melhor que todos estes países.

— Há um enorme espaço para novas quedas — diz o economista Antônio Machado, do Opportunity.

Para se ter uma idéia, a Venezuela, no meio daquele conflito político, está melhor que o Brasil.

— O Brasil está acima de 1.200 pontos; a Bulgária está com 280; a Rússia, que deu calote em 98, está com 440; as Filipinas, com 503; e o Peru, com 560 — lembra Machado.

Há chance de novas e fortes quedas.

— Houve uma forte venda de ativos brasileiros, saída de recursos, pré-pagamento de dívida e interrupção de linhas no fim do ano passado pelo temor da mudança de governo. Agora, está havendo o movimento contrário: há repatriação de capital, há empresas e bancos trazendo recursos. Além disso, o resultado de conta corrente, neste começo de ano, pode ser positivo. O Brasil está voltando para o preço — afirmou Marcelo Sperb, do Nobel.

— No exterior está havendo uma redução da aversão ao risco. Empresas que pagavam taxas de risco de 1.200 pontos em outubro, agora estão em 700. Isto confirma que há muito espaço para a queda do risco-Brasil — diz Machado.

O mercado está de olho também na área política:

— O ponto mais fraco até agora é a definição das cabeças do Legislativo — diz Regis Abreu, da Mercatto.

— Há dúvidas sobre as alianças que vão garantir a governabilidade — diz Newton Rosas, da Sulamérica.

Conclusão: há espaço para melhora em todos os indicadores; o novo governo já emitiu bons sinais, mas há uma série de eventos que pode confirmar este movimento, ou mudá-lo, nas próximas semanas.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão
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