
Tião Maia
Boa parte da população de Rio Branco debateu ontem, logo cedo, numa emissora de TV, a participação da imprensa nos episódios de violência que campeiam no Estado. Por telefone, a emissora queria saber de seus telespectadores se a imprensa, ao divulgar informações sobre o cotidiano da violência, aumenta ou não os índices de atos criminosos. A grande maioria dos telespectadores, claro, manifestou-se a favor da emissora e da imprensa. Acharam os telespectadores que a imprensa apenas cumpre seu papel e que a violência é decorrente de outros fatores. Tudo bem.
Sobre a violência, como contribuição ao debate, é impossível negar que a violência está grassando a cada hora que passa neste Estado. Mesmo com a redução dos casos de homicídios, de roubos, seqüestros, furtos e estupros, os números ainda registrados são absurdamente altos, principalmente se for levada em consideração a circunstância de que a população acreana reunida é inferior a um bairro de uma grande cidade. Mas nunca será demais dizer que a repetida exibição de cadáveres na TV passa a impressão de que estamos numa guerra civil, quando se sabe que, apesar de tudo, inclusive na periferia, a vida continua. Pela manhã, crianças vão à escola, mulheres varrem calçadas, operários vão e voltam do trabalho, moças e rapazes namoram nas esquinas. O que se percebe é que, a despeito dessas ocorrências trágicas, a polícia está agindo, os criminosos estão sendo presos e já não se vive mais o tempo em que o Estado era completamente omisso.
Mas se esses exemplos ainda não forem suficiente, nunca é demais lembrar que na ocorrência da explosão das Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, morreram quase seis mil pessoas. Mesmo ocorrendo ali uma das maiores tragédias da historia da humanidade, não se viu, na TV ou nos jornais, um só cadáver, um só pedaço de gente sendo exibido como troféu de algum repórter.
E não se viu porque, ao contrário do que ocorre aqui, a imprensa, a verdadeira imprensa, a pretexto de informar, não banaliza a morte e não faz do sangue a tinta de sua impressão. Daí é fácil se concluir que os cadáveres e outras ocorrências violentas mostradas à exaustão pela nossa imprensa têm outros objetivos que nada têm a ver com o jornalismo – pelo menos o bom e ético jornalismo. Mas antes de entrar neste debate, é preciso chamar à atenção para o fato de que, ao que tudo indica, está aberta a temporada da ética na imprensa acreana. Nunca se falou tanto em ética nos jornais e emissoras de TV como estão falando agora. Ou seja, numa ponta o sangue jorra à cântaros; na outra, levanta-se questões éticas e chama-se a população, assombrada e desinformada, para chancelar esse pastelão.
O debate seria salutar se os apresentadores e redatores não fossem os mesmos, aliás as mesmíssimas pessoas que há coisa de seis, sete, oito meses atrás, durante a campanha eleitoral das últimas eleições, literalmente escreveram os momentos mais lamentáveis da história da imprensa acreana. Os que suscitam o debate em torno da ética na divulgação da violência são, por exemplo, os mesmos apresentadores que faziam apologia não só do crime como se colocavam como autênticos defensores dos políticos envolvidos com o que de pior o Acre produziu em termos de violência, o esquadrão da morte e a máfia do crime organizado. Mais grave: eram ardorosos defensores das políticas públicas equivocadas e corruptas que transformaram as crianças de 20, 23 anos atrás nos marginais que hoje realmente assustam a sociedade.
Nas páginas impressas, os atuais debatedores da ética, os pregadores de um ufanismo desmedido e que vêem no presidente da República, no governador e nos seus assessores a virtude de plantão, são os mesmos que, não faz tempo, compararam Lula e Jorge Viana a Adolfo Hitler e chegaram dizer em suas colunas que se o atual presidente fosse de fato eleito, o Brasil se integraria à Venezuela e à Cuba na formação de um eixo do mal capaz de ameaçar até mesmo a paz mundial e a própria humanidade. Os mesmo que disseram que se Jorge Viana fosse reeleito, o Acre entraria em bancarrota. Aliás, são os mesmos que dirigiram carta aberta ao governador do Estado o acusando dos crimes mais diversos, inclusive de mandante de estupros de adolescentes indefesas. Agora, como se esses fatos tivessem sido elaborados por uma terceira pessoa, esta gente, com seu português de frases feitas, vem a público desdizer o que escreveu e coloca seus leitores, ouvintes e telespectadores sob um pântano de dúvidas: eles estavam mentindo antes ou agora?
É claro que não se está aqui a defender a manutenção do comportamento criminoso e aquele noticiário que era um autêntico caso de polícia. O que se busca é alertar o leitor que agora, como no passado, eles estão mentindo novamente. Agora, por mais que trabalhem com fatos verdadeiros, mentem porque o que de fato eles gostariam de noticiar não é o que está sendo impresso ou transmitido nas ondas do rádio ou da TV. Se estão agindo assim, não é exatamente por nenhuma prestação de serviço à sociedade. O fazem porque, como o resultado eleitoral lhes foi por demais adverso e agora têm certeza de que não terão mais as facilidades dos cofres públicos para manter suas vidas de marajás da imprensa, querem agradar a qualquer custo na esperança de que na base da bajulação possam salvar o próprio pescoço.
É aqui que está o ponto. Permitir a manutenção deste status quo é trabalhar contra a sociedade – esta mesma sociedade que, nas eleições do ano que passou, disse, com o seu voto, que abomina a velha política e sua imprensa criminosa e que está solidária com a política que insiste em buscar o novo e, se possível, um pouco de jornalismo sem sordidez. A ética levantada só agora tem data para acabar. Vai no máximo até a próxima campanha eleitoral, quando eles voltarão a ser o que eram antes, os mesmos defensores daquilo que a sociedade acreana mais abomina. É a típica ética com data marcada para ter fim.
* Tião Maia, 36 anos, 22 de profissão, é jornalista