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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 9 de janeiro de 2003
CNPT inclui no orçamento criação
de quatro reservas extrativistas

Acre solidifica condição de estado florestal e
reforça Aliança dos Povos da Floresta

Flaviano Schneider

Aconteça o que acontecer, o Acre está solidificando seu destino no sentido de tornar-se um estado florestal, onde se praticará o desenvolvimento sustentável em seu grau mais puro. Para confirmar tal afirmação basta dizer que o CNPT/ Ibama incluiu em seu orçamento para o ano de 2003 os estudos para implantação de mais 4 reservas extrativistas no Estado.

Este modelo de unidade de conservação que já tem dois exemplos marcantes no Estado, a Reserva Extrativista Chico Mendes e a Reserva Extrativista do Alto Juruá estando em processo de legalização mais duas, a de Tarauacá e do Rio Liberdade tem grande importância social, já que os moradores das áreas podem nelas permanecer e explorar de maneira sustentável seus recursos.

Além das reservas extrativistas, o estado apresenta ainda cerca de 20 terras indígenas, uma floresta estadual, o Parque Nacional da Serra do Divisor e agora verá a implantação de florestas públicas, de acordo com o projeto BID.

Cautela - O chefe da representação do CNPT no Acre pede cautela no entanto ao citar os projetos das reservas. Segundo ele, os projetos foram incluídos no orçamento para 2003, mas normalmente só se sabe o montante de recursos e suas destinações nos meses de fevereiro e março. Depois de liberados os recursos - ele conta - em 6 a 8 meses o estudo fica pronto, passando-se para a fase seguinte que é a implantação propriamente dita. Em virtude da mudança do governo, porém, ele alerta, pode ficar atrasada a definição do orçamento

Reserva de origem legítima

Um dos projetos mais interessantes de reserva extrativista, a do lago Croa e Rio Alagoinha, tem origem legítima, já que a própria comunidade, organizada através da Associação dos Seringueiros Agro Extrativistas da Bacia do Rio Croa e Alagoinha –Asaebrical - foi quem iniciou as gestões junto a diversas autoridades e órgãos do estado e federais.

A área pretendida para a reserva, considerada a parte que está no Estado do Amazonas, chega a atingir cerca de 250 mil hectares na região do Juruá, tendo uma população residente aproximadamente 350 famílias. Ela abrange a bacia do Rio Alagoinha, em seu lado Leste confrontando com o Projeto Santa Luzia e a Oeste o rio Juruá abrangendo toda a bacia do lago Croa.

Embora pareça um rio, o Croa é, na verdade, um imenso paraná ou lago, com a indescritível beleza amazônica, águas plácidas e mornas, claro/escuras, onde impera soberana a vitória régia, em meio a centenas de outras plantas aquáticas.

Situação na região do Alagoinha/Croa é de penúria

Somente quando for liberado recurso para o levantamento sócio econômico é que se poderá saber exatamente com vivem as famílias espalhadas neste recanto amazônico, mas segundo o presidente da Asaebrical, Davi Nunes de Paula, a situação é de penúria entre as diversas comunidades da área pretendida. As áreas de saúde e educação são extremamente precárias, segundo explicou.

No Alagoinha existe apenas uma escola, na verdade uma palhoça de 3 metros quadrados, atendendo 27 alunos e existindo mais de 200 crianças sem escola e o pior filhos de pais e mães analfabetos. No Croa também tem apenas uma escola que atende cerca de 25 alunos, existindo mais de 40 crianças fora da escola.

A Saúde oficialmente ainda não existe. Na vila Alagoinha existe um posto de saúde municipal que nunca funcionou. O que funciona no Croa é o Centro de Medicina da Floresta - CMF, implantado na região com apoio do IMAC. O centro de Medicina da Floresta é uma organização que se originou no Céu do Mapiá – Am, entre os daimistas, seguidores do padrinho Sebastião Mota de Melo e trata da pesquisa de medicamentos a partir da biodiversidade amazônica.

Em 2001, foi feito na comunidade do Croa um curso de capacitação, patrocinado pelo IMAC e FEM, quando a principal técnica e diretora do CMF, Maria Alice Freire, ensinou as técnicas para confecção e utilização de fitoterápicos, em váriadas fórmulas, seja em forma de pomadas, soluções, chás, tinturas e florais. Esta forma alternativa de medicina tem sido o anjo da guarda daqueles moradores, que não tem acesso à medicina alopática.

Outra fato que vai demandar muito trabalho, segundo Davi, é a regularização fundiária, já que na região ninguém tem documentos das terras.

Economia - A pobreza é generalizada em toda a região pretendida para a nova reserva. Anos atrás, quando a seringa era rentável, a região vivia bem, tinha muita caça, peixe, etc. Hoje, muitos moradores ainda não têm a consciência ambiental e promovem agressões à natureza como a caça com cachorros, o derrame de tingui (veneno) nos rios para a pesca e por aí vai.

Aliança dos Povos da Floresta está fortalecida

Davi Nunes é filho de Antônio de Paula, líder seringueiro e um dos pioneiros do movimento dos Povos da Floresta no Juruá e participante de todo o processo da criação da Reserva Extrativista do Alto Juruá - REAJ, tendo sido seu presidente e ainda tendo exercido por 10 anos a chefia do sistema de Saúde.

Com o apoio dos povos indígenas do Juruá, de associações de seringueiros e extrativistas, além de simpatizantes de atividades ecológicas e preservacionistas, a Asaebrical liderou o ressurgimento da Aliança dos Povos da Floresta na região estando a entidade promovendo eventos e participando ativamente no resgate da qualidade de vida e da cultura dos povos que habitam o interior das florestas acreanas.

Exemplo disso foi o I Encontro de Curadores da Medicina da Floresta, organizado pela Aliança, em dezembro de 2001 no encerramento do primeiro curso de medicina da floresta, quando participaram as seguintes entidades: CMF – Centro de Medicina da Floresta, Asaebrical, representante da área indígena Kaxinauá, Cefluris-Juruá, Secretaria de Saúde Municipal de Cruzeiro do Sul, através do dr. Serafim Cruz médico boliviano representante também da medicina tradicional Quéchua,Funai/Juruá, UNI/Juruá, Comunidade Arara, Associação Agro Extrativistga do Alto e Médio Juruá, Asareaj e Asamônia.

Nova educação para os novos tempos

Um dos projetos mais envolventes e importantes da Asaebrical e da Aliança dos Povos da Floresta refere-se à implantação de um Centro de Formação e Educação Ambiental (EA) Integrado dos Povos da Floresta da Bacia do Rio Croa e Alto Alagoinha. A Associação já manteve contatos com a senadora Marina Silva no ano passado durante reunião de seringueiros no rio Tejo, e mostrou receptividade à idéia, como explica Davi Nunes de Paula. A secretária de Coordenação da Amazônia do MMA, Mary Alegretti, já tomou conhecimento do processo de implantação da reserva e está apoiando todas as iniciativas na área, inclusive na área de educação.

O projeto está sendo elaborado pela Secretaria de Planejamento do Estado, sob a batuta do economista, Márcio Veríssimo Carvalho Dantas.

Em linhas gerais o centro de Formação do rio Croa e Alagoinha pretende valorizar a diversidade cultural das populações tradicionais da localidade que usam os conhecimentos indígenas e de seus ancestrais para curar doenças, buscar o auto conhecimento e resgatar a cidadania no interior da floresta acreana.

O projeto deverá incrementar o setor de turismo e ampliar os serviços de saúde, com a utilização da medicina alternativa e desenvolver atividades lúdicas, educativas e profissionalizantes de saúde. Cerca de 30 comunidades de índios seringueiros e ribeirinhos serão beneficiados diretamente pelo centro. O núcleo central do projeto deverá ser construído na região do Croa, que possui uma paisagem amazônica de grande beleza, fator de atração de turistas, estudantes, pesquisadores e a comunidade.

Com recursos já garantidos, o governo do estado vai entrar firme para concluir o asfaltamento da BR-364 de Cruzeiro do Sul até Feijó. O que se espera na região é o incremento das atividades econômicas na região. Como a futura reserva extrativista do Alagoinha e Croa é alcançada pela BR-364, a cerca de duas horas de Cruzeiro do Sul, o Centro de Formação terá efeito aglutinador na região e certamente será ponto de referência no extrativismo e turismo ecológico.

Basicamente a idéia de levar a cidadania aos povos da floresta através da formação deste centro está alicerçada em três componentes básicos: saúde na floresta, educação ambiental e turismo ecológico. No primeiro item, o objetivo é o uso de fitoterápicos, manipulação de plantas medicinais e atendimento médico alternativo.

A educação vai centrar-se na realização de cursos, eventos, fóruns de debates, oficinas, aulas práticas e itinerários na floresta, em rios e igarapés e finalmente o turismo ecológico vai divulgar as festas religiosas e místicas dos povos da floresta, lendas, tradições e costumes bem como a identificação de atrações paisagísticas e pesquisas sobre nossa biodiversidade.

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